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Domingo, Julho 30, 2006
Bíblia - Origens, Inspiração e Canonicidade - Índice
Esta série é compreendia por um total de 15 capítulos a serem postados semanalmenteA AUTORIDADE E INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA
- 01 - A Bíblia
- 02 - A Autoridade da Bíblia
- 03 - A Inspiração da Bíblia
- 04 - A Inerrância e a Infalibilidade da Bíblia
O CÂNON DA BÍBLIA
- 05 - O Cânon do Antigo Testamento
- 06 - O Cânon do Novo Testamento
- 07 - Os Livros Apócrifos do Antigo e do Novo Testamento
A BÍBLIA COMO TEXTO LITERÁRIO
- 08 - A Literatura nos Tempos Bíblicos
- 09 - A Bíblia como Literatura
TEXTOS E MANUSCRITOS DA BÍBLIA
- 10 - Textos e Manuscritos do Antigo Textamento
- 11 - Textos e Manuscritos do Novo Testamento
TRADUÇÕES DA BÍBLIA
- 12 - As Línguas Originais da Bíblia
- 13 - Tradução da Bíblia
- 14 - História da Bíblia em Língua Inglesa e em Língua Portuguesa
- 15 - Versões da Bíblia
Cenário do NOVO TESTAMENTO - Índice
INTRODUÇÃO
HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO
- 02 - Período Intertestamentário
- 03 - O Período do Novo Testamento e A Vida de Jesus Cristo
- 04 - O Ministério dos Apóstolos
CRONOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO
OS GREGOS E O HELENISMO
OS ROMANOS
OS JUDEUS NOS TEMPOS DO NOVO TESTAMENTO
JESUS CRISTO
OS APÓSTOLOS
A IGREJA PRIMITIVA
PAULO E SUAS VIAGENS
Cenário do VELHO TESTAMENTO - Índice
O MUNDO ANTIGOHISTÓRIA DO ANTIGO TESTAMENTO
- 04 - Introdução e Da Criação a Abraão (Em Breve)
- 05 - De Abraão a Moisés e de Moisés a Saul
- 06 - O Reino Unido e O Reino Dividido
- 07 - Do Exílio ao Retorno e História Intertestamentária
CRONOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO
- 08 - Descobrindo as Datas de Eventos Bíblicos e O Estabelecimento de Datas Absolutas
- 09 - Governantes do Reino Dividido
ARQUEOLOGIA
RELIGIÕES E CULTURAS PAGÃS
OS EGÍPCIOS
OS BABILÔNIOS E OS ASSÍRIOS
UGARITE E OS CANANEUS
OS PERSAS
A História da Tradução da Bíblia em Português
A Bíblia em Português
A história da Bíblia em português é cheia de lances dramáticos e tão antiga quanto a da Bíblia inglesa, pois os primeiros ensaios de tradução datam dos tempos do rei Diniz (1279-1325), antes mesmo de John Wycliff¹. A primeira porção traduzida, foram os vinte primeiros capítulos do Gênesis, da Vulgata Latina, pelo próprio rei D. Diniz. Mas o Novo Testamento só mais tarde foi traduzido para o português, talvez uns cinqüenta anos depois de Wycliff, quando D. João era rei (1385-1433), o qual ordenou a tradução dos Evangelhos, dos Atos e das Cartas Paulinas, trabalho que foi executado provavelmente por padres católicos e certamente da Vulgata. A publicação das porções acima do Novo Testamento se adicionou o livro de Salmos, traduzido pelo próprio rei.
Outras traduções, sem grande importância para a história da Bíblia em português, seguiram-se. De acordo com a tradição, a Infanta D. Filipa, filha do senhor Infante D. Pedro e neta do rei D. João, traduziu os Evangelhos do francês. O frei cisterciense Bernardo de Alcobaça traduziu o Evangelho de Mateus e parte dos outros, publicando seu trabalho em Lisboa no século XV. Em 1495 um Harmonia dos Evangelhos foi publicada em Lisboa por Valentim Fernandes. No mesmo ano um jurista chamado Gonçalo Garcia de Santa Maria traduziu as Epístolas e os Evangelhos. Dez anos depois os Atos e as Epístolas Gerais foram traduzidos por ordem da rainha Leonora. A linguagem portuguesa destes primeiros escritos é arcaica. Algumas destas tentativas usaram um português tão arcaico como o inglês de Wycliff.
O futuro da Bíblia em português dependia, entretanto, de João Ferreira de Almeida, nascido em Torre de Tavares, próximo de Mangualde, Portugal, em 1628. Seus pais eram católicos, mas ele se converte a fé da Igreja Reformada em 1642, pela profunda impressão que causou em seu espírito a leitura de um folheto espanhol. Desde o princípio de sua conversão, mostrou a sua aptidão para o estudo teológico e a participação na liderança eclesiástica. Ignoram-se as circunstâncias que o fizeram transportar-se à Batávia, onde se tornou muito ativo e zeloso no trabalho de evangelização, pregando nas línguas portuguesa, espanhola, francesa e holandesa. Seu primeiro trabalho foi a tradução do espanhol de um resumo dos Evangelhos e Epístolas. Este não foi publicado. Almeida conta-nos que, enquanto se demorava em Málaca, principiou a traduzir algumas partes do Novo Testamento do espanhol para o português² diz ele: “no segundo ano após minha conversão (do catolicismo romano para o protestantismo) e meu décimo sexto ano de idade”. Ele acrescenta que terminou esta tarefa de iniciativa própria em 1645. Mais tarde, com 17 anos de idade somente, ele traduziu o Novo Testamento da versão latina de Theodore Beza. Ele também traduziu o Catecismo de Heidelberg e a liturgia reformada para o português.
A Igreja Reformada não cabia em si de contente em se servir dos serviços de um homem jovem e talentoso como Almeida, cuja língua materna era o português. A razão disto estava em que o português era a língua franca de muitas partes da Índia e sudoeste da Ásia. Por causa da expansão marítimo-comercial. o português era usado nas congregações da Igreja Reformada, por asiáticos e cristãos protestantes por conversão (com freqüência do catolicismo). No decorrer dos tempos o número destes cristãos de fala portuguesa foi crescendo em Málaca e Batávia, e algumas vezes até excedia aos cristãos da língua holandesa. Durante a sua longa vida pastoral, Almeida escreveu e publicou várias obras de caráter religioso. Entretanto, ele ajudou a publicar outras obras, de cunho secular. Pode-se mencionar a sua revisão de uma tradução em português das fábulas de Esopo, feitas por M. Mendes de Vidigueyro, intitulada Esopete Redi Vivo (1672).
Anos depois ele sente a necessidade de apresentar o Evangelho ao povo de Portugal numa tradução mais séria. Após aprender o grego e hebraico, começou sua tradução do Novo Testamento, tendo como base o chamado "Textus Receptus", segunda edição de 1633 publicada por Elzevir. Este trabalho ele o findou em 1670, mas a publicação só teve lugar em 1681, em Amsterdã, na Holanda, assim intitulada:
"O Novo Testamento Isto é o Novo Concerto de Nosso Fiel Senhor e Redemptor Iesu Christo traduzido na Língua Portuguesa pelo reverendo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Sacto Evangelho nesta cidade de Batávia, em Java Maior". ³
Antes que saísse do prelo sua tradução, em 1º de janeiro de 1681, Almeida publicava uma lista de mais de mil erros em seu Novo Testamento, e Ribeiro dos Santos afirma serem mais. Estes erros eram devidos ao trabalho de revisão feito por uma comissão holandesa que procurou pôr a tradução de Almeida em harmonia com a versão holandesa. Algumas razões levam-nos a crer sido esta uma versão pobre, no dizer de Ribeiro dos Santos⁴. O texto grego do qual ele traduziu não era bom, embora fosse o melhor do seu tempo. Sua linguagem não era boa, não só por haver deixado Portugal bem cedo, mas também porque tentou fazer uma tradução literal, seguindo muito de perto a versão holandesa de 1637 e a castelhana de Cipriano de Valera de 1602. Também o trabalho de revisão, feito por seus colegas holandeses, piorou ainda mais o seu trabalho.
Em março de 1683 Almeida deu, ao Presbitério em Batávia, a notícia de que completara o Pentateuco e que esta fora revisado pelos seus colegas holandeses. Entretanto, ele não pôde completar seu trabalho. Sua tradução só chegou até o livro de Ezequiel, capítulo 48, versículo 21. A última parte foi completada por Jacobus op den Akker em 1694. Depois de muitos problemas foi impresso na Batávia (em dois volumes, 1748 e 1753).
O saltério de Almeida foi publicado no Livro de Oração Comum[5] para o uso das congregações da Igreja Anglicana na Índias Orientais, em 1695. Nesta época, o rei da Dinamarca, Frederico IV, interessou-se em desenvolver no Oriente o conhecimento das Escrituras Sagradas, e pelo seu patrocínio foi estabelecido o trabalho em Tranquebar, aonde foram muitos missionários célebres. Para este trabalho foi publicada, em Amsterdã, uma 3º edição do Novo Testamento de Almeida, às expensas da Sociedade Propaganda do Conhecimento Cristão, em 1712.[6]
Somente no fim do século XVIII, e o princípio do XIX, a Bíblia inteira, na tradução de Almeida, foi publicada. Sob os auspícios da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, foi publicada uma edição do Novo Testamento de Almeida em 1809. Em 1819 Bíblia completa de João Ferreira de Almeida foi publicada em um só volume pela primeira vez, com o título:
"A Bíblia Sagrada, contendo o Novo e o Velho Testamentos, traduzida em português pelo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Santo Evangelho em Batávia".
Apesar de tudo, a tradução de Almeida encerra algumas coisas notáveis. Ela teve lugar em Batávia, na ilha de Java, milhares de quilômetros longe de Portugal. Realizou-se num a terra cuja língua oficial não era o português. Era a 13ª tradução numa língua moderna depois da Reforma. Feita por um pastor protestante, destinava-se a um país católico, como Portugal, que só poderia receber de bom grado uma tradução do Novo Testamento feita diretamente da Vulgata. E o mais dramático lance de sua grande obra é que até hoje nos países de língua portuguesa, sua tradução, mesmo que sofrendo inúmeras reformas, ainda é usada e querida.
O padre Antônio Pereira de Figueiredo, nascido em Mação, Portugal aos 14 de fevereiro de 1725, realizou a primeira grande tradução da Vulgata para o português. Seu trabalho consumiu-lhe dezoito anos de esforços. O Novo Testamento apareceu primeiro, em 1781 e a Bíblia toda, em seis volumes, pouco depois. A linguagem de Figueiredo é inegavelmente superior à de Almeida. Alguns fatores contribuíram para esta melhora. Figueiredo possuía cultura muito superior à de Almeida e ele traduzira a Bíblia e publicara o seu Novo Testamento exatamente um século depois da obra imortal de Almeida. Embora revelando sensível melhora quanto ao português da tradução, Figueiredo não pode escapar aos defeitos de uma tradução que tem por base uma outra tradução. A Vulgata é uma mera revisão do Velho Latim, textos antigos do Novo Testamento, vertidos do grego, que Jerônimo usou para seu trabalho e com tendências peculiares. A tradução de Figueiredo tem sido usada pela Igreja Romana desde então.
A primeira tradução da Bíblia iniciada no Brasil, foi feita pelo refugiado Bispo de Coimbra, Frei D. Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré, o qual publicou só o Novo Testamento em São Luís, Maranhão, em 1875, enquanto que o trabalho de impressão foi feito em Portugal.
O século XX viu florescer no Brasil uma série de grandes traduções do Novo Testamento e da Bíblia toda, tanto do lado protestante com da Igreja Católica. Duas tentativas sem grande importância tiveram lugar. D. Duarte Leopoldo e Silva, traduz e publica os Evangelhos, arranjados como uma harmonia. Depois o Colégio da Imaculada Conceição, Botafogo, Rio de Janeiro, publica uma tradução dos Evangelhos e Atos, do francês, preparada por um padre católico, em 1904.
Os padres franciscanos iniciam um trabalho de versão da Bíblia em 1902 e, embora traduzindo da Vulgata, tentaram fazer um trabalho realmente crítico. Sua edição dos Evangelhos e Atos apareceu em 1909.
Estava reservada ao então padre Humberto Rohden a primeira tradução diretamente do grego para o português, feita por um católico. Isto ele fez num trabalho começado quando estudante na Universidade de Innsbruck, Aústria (1924-1927) e terminado no Brasil. Publicado sob os auspícios da Cruzada da Boa Imprensa.
O trabalho do padre Matos Soares, é a versão mais popular da Igreja Romana no Brasil. Depois do concílio Vaticano II[7] , a Bíblia encontrou mais espaço dentro da Igreja Católica. Várias traduções surgiram, como a Edição Pastoral[8], publicada pelas Edições Paulinas. Feita por eruditos brasileiros, liderados pelo teólogo Ivo Storniolo. Ela foi divulgada entre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), tendo como base teológica a Teologia da Libertação. Storniolo também colaborou com uma outra importante tradução católica, a conhecida Bíblia de Jerusalém. Inicialmente foi publicada em francês, nos anos 70, produzida por padres belgas. Nos anos 80 aparece a versão brasileira. Que segue o critério de tradução dos franceses, uma linguagem moderna, porém sem excessiva simplificação, com base nas línguas originais. As notas e comentários foram, em parte, traduzidos da versão francesa.
Recentemente a Edições Loyola, publica no Brasil, a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). Com notas e comentários, como a Bíblia de Jerusalém, mas difere desta pela linguagem. A TEB foi o trabalho conjunto de eruditos católicos, protestantes e judeus. No Velho Testamento, ela segue a disposição dos livros consagrada pelo judaísmo. Assim nos é explicado por R.T. Beckwith: “(...) a Bíblia Hebraica tem uma estrutura diferente em relação à Bíblia em português está dividida em duas seções: os Profetas e os Hagiógrafos (escritos sagrados). Os Profetas abrangem oito livros: os livros históricos de Josué, Juízes, Samuel e Reis, os livros proféticos de Jeremias, Ezequiel, Isaías e os Doze (os profetas menores). Os Hagiógrafos compreendem 11 livros: os livros líricos e sapienciais de Salmos, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações de Jeremias, e os livros históricos de Daniel, Ester, Esdras-Neemias e Crônicas. Esta é a ordem tradicional, segundo a qual o remanescente hagiógrafo, Rute, vem antes de Salmos. Na Idade Média, esse livro foi colocado em uma posição mais adiante, ao lado de outros quatro livros de brevidade similar (Cantares de Salomão, Eclesiastes, Lamentações de Jeremias e Ester). É digno de nota que na tradução judaica Samuel, Reis, os Profetas Menores, Esdras-Neemias e Crônicas sejam computados cada um como um único livro"[9]. A TEB representa uma nova mentalidade da Igreja Romana. Se antes, as Bíblias Protestantes eram acusadas de serem falsas e conterem inúmeros erros, agora o discurso é radicalmente outro. Tenta-se encontrar pontos de contato, pontes são construídas e barreiras são vencidas pelo diálogo.
Mas adiantamos muito a nossa história. Temos que voltar um pouco no tempo.
As Sociedades Bíblicas empenhadas na disseminação da Bíblia no Brasil reuniram-se, em 1902, para nomear uma comissão para traduzir os textos hebraico e grego em português. Este comissão era formada de vários eruditos ligados a diversos grupos protestantes. Entre eles, o Dr. W.C. Brown, da Igreja Episcopal; J.R. Smith, da Igreja Presbiteriana Americana (igreja do sul); J.M. Kyle, da Igreja Presbiteriana (igreja do norte); A.B. Trajano, Eduardo Carlos Pereira e Hipólito de Oliveira Campos[10]. Além do texto grego e de todas as versões portuguesas existentes, a comissão tinha as seu dispor muitos comentários e obras críticas que contêm os mais novos e mais úteis resultados da investigação e estudo moderno do Novo Testamento. A Tradução Brasileira, iniciada em 1902, editando os dois primeiros evangelhos em 1904, e depois de alguma crítica e revisão, o Evangelho de Mateus saiu em 1905. Os Evangelhos e o livro dos Atos dos Apóstolos foram publicados em 1906, e o Novo Testamento completo em 1910. A Bíblia inteira apareceu em 1917. Apesar de suas inúmeras vantagens ela não vingou em terras do Brasil e Portugal. Deixando posteriormente de ser impressa.
A história da Bíblia em português se confunde com a história das Sociedades Bíblicas. Entidades sem fins lucrativos, que foram formadas no início do século XIX, para distribuir a Bíblia. Como já foi visto anteriormente, foi a Sociedade Britânica que popularizou o trabalho de Almeida nos países de língua portuguesa.
Por volta de 1790[11] morava numa insignificante aldeia de um condado inglês, no País de Gales, a pequena Mary Jones, com cerca de oito anos de idade. Filha de tecelões da localidade, cuja pobreza, naqueles tempos era proverbial, a pequena Mary elevou-se, por assim dizer, à fama mundial. Devido a ela foi fundada a primeira grande Associação da Bíblia.
No meio das grandes privações em que viviam, a menina Mary aprendera a ler e, desde então, seu maior desejo fora possuir uma Bíblia. Uma Bíblia no entanto, representava um tesouro inatingível para uma família de tecelões. Assim sendo, Mary começou a economizar tudo o que ganhava prestando pequenos serviços, mas, a fim de um ano, conseguira juntar, o equivalente a pouco mais de uma libra. Uma soma ridícula, em relação ao preço de uma Bíblia completa em língua inglesa. Entrementes o pai morreu, e mãe adoeceu e a libra foi gasta em medicamentos. Mary recomeçou tudo do princípio, com uma perseverança inacreditável numa menina tão pequena. Passados alguns anos suas economias tinham aumentado a ponto de permitir a Mary a ousadia de procurar obter um Bíblia. Mas onde? O próprio pastor local não possuía nenhum exemplar. Ele sabia, porém, de um colega, em Bala, um certo pastor Charles, que tinha um daqueles livros. Bala ficava a 40 quilômetros; mesmo assim, Mary pôs-se a caminho, a pé, levando uma modesta provisão para a viagem.
Depois de dois dias de marcha, chegou a Bala e comunicou seu desejo ao pastor Charles. O homem, todavia, sacudiu a cabeça negativamente. Uma Bíblia, sim, ele possuía um exemplar, mas já o tinha prometido a alguém. Além disto, a modestíssima soma que Mary podia oferecer era insuficiente.
Diante de tão terrível decepção, depois de anos de privações e de esperanças, a menina desfaleceu. O pastor Charles fez o que em tais momentos qualquer um faria: passou por cima de promessas e ajustes e presenteou a pequena Mary com a sua Bíblia.
Fez ainda mais o pastor Charles: na reunião da Sociedade de Assuntos Religiosos, em Londres, ele contou o acontecimento:
- “Precisamos achar um meio de imprimir Bíblias ao alcance também do povo pobre de Gales”.
No mesmo instante saltou o pregador batista Hughes e exclamou:
"– Por que só para Gales? Por que não para todo o império? Por que não para o mundo inteiro?”
A sugestão foi aceita. Dois anos depois era fundada a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira. O alcance do trabalho dos ingleses foi fenomenal. Todo o Império Britânico foi alcançado. Na época dizia-se que, os ingleses dominavam o mundo, e seu Império tinha tanto alcance, que o “sol nunca se punha, nas terras dominadas pela coroa inglesa”.
Somente em 1949, a distribuição da Bíblia passa a ser feita pelos brasileiros. É a fase conhecida como nacionalização da obra da Bíblia. A data de 1949 é uma referência importante. O trabalho protestante no Brasil sempre dependeu da força estrangeira. Os dois campos promissores para os missionários estrangeiros eram a África e a China. Com a ascensão de Mao Tsé Tung na China em 1949, milhares de obreiros cristão foram expulsos pela governo comunista. E muitos deles foram deslocados por suas igrejas para novos campos.
A África continuou como um campo promissor, mas logo perdeu sua “hegemonia” para a América Latina. A América Latina, que até então foi negligenciada[12] , recebeu uma leva enorme de missionários. Com o aumento do número de trabalhadores, fez-se necessário aumentar o número de ferramentas.
A criação da Sociedade Bíblica do Brasil foi a resposta. Desde então a Bíblia se tornou um livro popular no Brasil. Ela acompanhou o crescimento da igreja protestante, e se difundiu no país através dos colportores, como eram chamados os missionários que viajam para vender Bíblia pelo interior do Brasil.
Paralelo a este crescimento, surge nos anos 90 um nova versão da Bíblia em português. Seguindo os mesmos ideais da Versão Brasileira. Uma tradução promovida por um grupo de eruditos, ao invés de um trabalho solitário, como foi o de Almeida. Uma linguagem moderna, sem simplificação. Bastante acessível ao público médio. Fundamentada em melhores manuscritos, do que o conhecido Textus Receptus, usado por Almeida. Surge a Nova Versão Internacional. Também conhecida como NVI.
Em 1978, foi apresentada ao povo de fala inglesa, uma nova versão da Bíblia, feita pela Sociedade Bíblica Internacional. Seguindo os melhores padrões lingüisticos e os mais modernos recursos editoriais e gráficos, a NVI, alcançou um amplo espaço no mundo evangélico. Representando uma nova etapa na história das traduções da Bíblia.
"... a Sociedade Bíblica Internacional reuniu um grupo de estudiosos evangélicos, de diversas denominações, especialistas nas línguas originais e na língua pátria para produzir um texto fiel e, ao mesmo tempo, contemporâneo. Além de se esforçar por alcançar uma tradução acessível, a comissão formada procurou também esquivar-se da vulgaridade, dos regionalismos, enfim, de tudo que possa empobrecer o texto. É com este espírito de esperança que a Sociedade Bíblica Internacional tem a satisfação de colocar em suas mãos o Novo Testamento na Nova Versão Internacional que pretende ampliar a corrente histórica marcada por aqueles dentre o povo de Deus que têm se esforçado para fazer compreendida a revelação divina na Bíblia Sagrada." [13]
Conforme foi visto antes, a divulgação da Bíblia sempre esteve ligada as mudanças que a sociedade sofre. A versão de Almeida se liga ao tempo de formação do protestantismo. A história de Almeida, nas distantes ilhas do pacífico inspirava os primeiros missionários que vinham ao Brasil desbravar o “novo mundo”. A aventura de viajar à cavalo léguas e léguas para levar o “livro santo”, confrontando com o clero hostil, o clima e as doenças tropicais.
Mas a obra ainda não tinha sido estabelecida. A mensagem evangélica ainda não tinha fincado raízes no solo brasileiro. A dependência marcou esta primeira fase. Isto pode ser exemplificado pela infrutífera tentativa de produzir uma nova tradução, a versão brasileira. O protestantismo não teve o seu grito do Ipiranga. Ficou limitado a repetir as formas e estruturas do missionário estrangeiro.
Figura célebre na história foi o professor Eduardo Carlos Pereira. Gramático conhecido do início do século, liderou um movimento de nacionalização dentro da Igreja Presbiteriana, que até então era liderada por estrangeiros. Ele rompe com a estrutura tradicional e funda a Igreja Presbiteriana Independente. Liderada pelos brasileiros, que comandavam os seminários, igrejas e escolas da nova denominação. Não foi coincidência Pereira ter participado da chamada Versão Brasileira.
A fundação da Sociedade Bíblica do Brasil coincide com a nova etapa da evangelização mundial. As portas fechadas da China, que até então demonstrava ser um campo muito promissor. Uma enorme população que estava formando uma nova identidade nacional, mais aberta ao cristianismo[14]. Além do grande investimento de recursos para lá. Fundação de hospitais, seminários e ampliação de igrejas.
Finalmente, a NVI aparece num momento oportuno. A Igreja Protestante mudou. Não é mais a igreja pioneira dos primeiros anos, nem é mais a igreja dependente do início do século. A Sociedade Bíblica do Brasil se tornou uma das maiores entidades de promoção da Bíblia no mundo. Até o ano de 1995, apenas duas Sociedades Bíblicas, entre as 120 existentes no mundo, haviam conseguido superar a marca de 20 milhões de Bíblias distribuídas em um ano: a Sociedade Bíblica Americana e a Sociedade Bíblica da Coréia. Em 1996, ao completar 48 de existência, a Sociedade Bíblica do Brasil tornou-se a terceira a superar essa marca.[15]
A NVI representa a maturidade que a obra bíblica alcançou no Brasil. Um obra enorme hoje, bem diferente dos dias de Almeida e seu pioneirismo.
[1] - John Wycliff (c. 1328-1384) Foi, em alguns aspectos, um precursor da Reforma Protestante, quer queria reformar a igreja romana, através da eliminação dos clérigos imorais e pelo despojamento de sua propriedade que, segundo ele, era fonte de corrupção. Atacou a autoridade do papa em 1382, dizendo num livro que Cristo e não o papa era o chefe da Igreja. Afirmou que a Bíblia e não a Igreja era a autoridade única para o crente e que a igreja romana deveria se modelar segundo o padrão do Novo Testamento. Para apoiar estas idéias, Wycliff tornou a Bíblia acessível ao povo em sua própria língua. Em 1382, ele terminou a primeira tradução completa do Novo Testamento para o inglês. Desse modo, pela primeira vez, os ingleses podiam ler a Bíblia em sua língua.
[2] - Um Tradutor Português da Bíblia em Java. JUERP, 2º edição. p 3.
[3] - G. L. Santos Ferreira, A Bíblia em Portugal, citado por David Mein. A Bíblia e como chegou até nós. Assim explica o equívoco do frontispício.” Os missionários holandeses de Tranquebar se intitulavam a si mesmo de padres dominicanos, mas não tinham ligação com ordem católica. É bem provável que eles, sendo pouco conhecedores do idioma, julgassem o adjetivo dominicano era derivado de dominus, e ingenuamente supusessem que se dizerem ministros do Senhor ou Padres dominicanos era a mesma coisa”.
[4] - Ribeiro dos Santos foi um importante historiador do protestantismo brasileiro. Ele era pastor presbiteriano.
[5] - Saltério é como também ficou conhecido o livro dos Salmos. O livro de Oração Comum é o livro de liturgia oficial da Igreja Anglicana.
[6] - David Mein. Op. cit.
[7] - O Concílio Vaticano II teve um tremendo impacto na Igreja Católica. A Igreja sofreu um “aggiornamento”, ou seja, uma renovação. A liturgia, que até então era feita em latim, passou a ser feita nas línguas nacionais, o novo movimento carismático foi aceito como expressão da espiritualidade católica, a teologia da libertação encontrou amplo espaço e foi divulgada com entusiasmo pelo mundo. A Bíblia encontrou um novo espaço nesta “nova” Igreja, que estava se definindo no Vaticano II. A expressão latino-americana foi o CELAM, em Medelín (1968). As melhores fontes para consulta são os documentos produzidos por estes encontros, ambos publicados pelas Edições Paulinas e Editora Vozes.
[8] - Edições Paulinas, São Paulo. 1990.
[9] - Beckwith. R. T. O Cânon do Antigo Testamento in COMFORT, Philip Wesley. Ed. A Origem da Bíblia. CPAD. Rio de Janeiro, 1998. O artigo de Beckwith discute a formação do Cânon Hebraico e sua relação com a Igreja Cristã.
[10] - Os dados foram retirados da livro de David Mein. Que até hoje, permanece sendo a melhor referência sobre a história da Bíblia em português. Alguns eruditos, mesmo que não estivessem ligados às igrejas evangélicas contribuíram para a Tradução Brasileira A Tradução Brasileira é reconhecida como uma das melhores traduções da Bíblia não só em português. Superior em vários aspectos à de Almeida, um texto melhor, revisões mais acuradas, e a vantagem de ter sido obra de vários tradutores. Não alcançou, porém, popularidade de Almeida. Existe hoje como referência, e alguns exemplares podem ser encontrados na biblioteca da UnB.
[11] - Sociedade Bíblica do Brasil. A história de Mary Jones é por demais conhecida pelos protestantes. Ela aparece em diversos livros, divulgada em pregações. Uma das inúmeras edições da história de Jones é publicada pela Imprensa Batista Regular.
[12] - A Conferência de Missões de Edimburgo, em 1908, definiu a América Latina como campo já alcançado, devido a forte presença do catolicismo romano no continente. Os evangélicos que trabalhavam no continente latino-americano reagiram imediatamente e contestaram a decisão da conferência. Afirmando que a relação do catolicismo com a fé cristã era apenas nominal. Em essência, ele divergia do padrão bíblico.
[13] - Texto originalmente publicado na Revista Teológica Vox Scripturae, v. III, n. 2, 1993, p. 215-226. Com o título: Nova Versão Internacional da Bíblia em Português: Resumo Informativo. Odayr Olivetti.
Rev. Odayr Olivetti, Ministro jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil, foi pastor de várias igrejas e professor de Teologia Sistemática no Seminário Presbiteriano de Campinas. É autor de alguns livros e tradutor de inúmeras obras cristãs.
[14] - O livro de Jonatham Spence. Publicado no Brasil, pela Companhia das Letras, O Filho Chinês de Deus, nos fala de um líder chinês, protestante, que no século XIX faz uma caminhada pelo país, levando consigo uma multidão de seguidores, apregoando uma “nova era” para o povo chinês. Para Spence, esta caminhada inspirou Mao Tsé Tung para promover uma caminhada pela China, que irá culminar na Revolução Comunista de 1949. Para a relação da visão escatológica cristã com o comunismo, ver. Norman Cohn. Cosmos, Caos e o Mundo Virá. Companhia das Letras. São Paulo, 1997. Ver também . Norman Cohn. Pursuit of Milennium. Oxford Press.
[15] - A Bíblia no Brasil. No. 175 . SBB. São Paulo.
Isaias L. P. Júnior
A história da Bíblia em português é cheia de lances dramáticos e tão antiga quanto a da Bíblia inglesa, pois os primeiros ensaios de tradução datam dos tempos do rei Diniz (1279-1325), antes mesmo de John Wycliff¹. A primeira porção traduzida, foram os vinte primeiros capítulos do Gênesis, da Vulgata Latina, pelo próprio rei D. Diniz. Mas o Novo Testamento só mais tarde foi traduzido para o português, talvez uns cinqüenta anos depois de Wycliff, quando D. João era rei (1385-1433), o qual ordenou a tradução dos Evangelhos, dos Atos e das Cartas Paulinas, trabalho que foi executado provavelmente por padres católicos e certamente da Vulgata. A publicação das porções acima do Novo Testamento se adicionou o livro de Salmos, traduzido pelo próprio rei.
Outras traduções, sem grande importância para a história da Bíblia em português, seguiram-se. De acordo com a tradição, a Infanta D. Filipa, filha do senhor Infante D. Pedro e neta do rei D. João, traduziu os Evangelhos do francês. O frei cisterciense Bernardo de Alcobaça traduziu o Evangelho de Mateus e parte dos outros, publicando seu trabalho em Lisboa no século XV. Em 1495 um Harmonia dos Evangelhos foi publicada em Lisboa por Valentim Fernandes. No mesmo ano um jurista chamado Gonçalo Garcia de Santa Maria traduziu as Epístolas e os Evangelhos. Dez anos depois os Atos e as Epístolas Gerais foram traduzidos por ordem da rainha Leonora. A linguagem portuguesa destes primeiros escritos é arcaica. Algumas destas tentativas usaram um português tão arcaico como o inglês de Wycliff.
O futuro da Bíblia em português dependia, entretanto, de João Ferreira de Almeida, nascido em Torre de Tavares, próximo de Mangualde, Portugal, em 1628. Seus pais eram católicos, mas ele se converte a fé da Igreja Reformada em 1642, pela profunda impressão que causou em seu espírito a leitura de um folheto espanhol. Desde o princípio de sua conversão, mostrou a sua aptidão para o estudo teológico e a participação na liderança eclesiástica. Ignoram-se as circunstâncias que o fizeram transportar-se à Batávia, onde se tornou muito ativo e zeloso no trabalho de evangelização, pregando nas línguas portuguesa, espanhola, francesa e holandesa. Seu primeiro trabalho foi a tradução do espanhol de um resumo dos Evangelhos e Epístolas. Este não foi publicado. Almeida conta-nos que, enquanto se demorava em Málaca, principiou a traduzir algumas partes do Novo Testamento do espanhol para o português² diz ele: “no segundo ano após minha conversão (do catolicismo romano para o protestantismo) e meu décimo sexto ano de idade”. Ele acrescenta que terminou esta tarefa de iniciativa própria em 1645. Mais tarde, com 17 anos de idade somente, ele traduziu o Novo Testamento da versão latina de Theodore Beza. Ele também traduziu o Catecismo de Heidelberg e a liturgia reformada para o português.
A Igreja Reformada não cabia em si de contente em se servir dos serviços de um homem jovem e talentoso como Almeida, cuja língua materna era o português. A razão disto estava em que o português era a língua franca de muitas partes da Índia e sudoeste da Ásia. Por causa da expansão marítimo-comercial. o português era usado nas congregações da Igreja Reformada, por asiáticos e cristãos protestantes por conversão (com freqüência do catolicismo). No decorrer dos tempos o número destes cristãos de fala portuguesa foi crescendo em Málaca e Batávia, e algumas vezes até excedia aos cristãos da língua holandesa. Durante a sua longa vida pastoral, Almeida escreveu e publicou várias obras de caráter religioso. Entretanto, ele ajudou a publicar outras obras, de cunho secular. Pode-se mencionar a sua revisão de uma tradução em português das fábulas de Esopo, feitas por M. Mendes de Vidigueyro, intitulada Esopete Redi Vivo (1672).
Anos depois ele sente a necessidade de apresentar o Evangelho ao povo de Portugal numa tradução mais séria. Após aprender o grego e hebraico, começou sua tradução do Novo Testamento, tendo como base o chamado "Textus Receptus", segunda edição de 1633 publicada por Elzevir. Este trabalho ele o findou em 1670, mas a publicação só teve lugar em 1681, em Amsterdã, na Holanda, assim intitulada:
"O Novo Testamento Isto é o Novo Concerto de Nosso Fiel Senhor e Redemptor Iesu Christo traduzido na Língua Portuguesa pelo reverendo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Sacto Evangelho nesta cidade de Batávia, em Java Maior". ³
Antes que saísse do prelo sua tradução, em 1º de janeiro de 1681, Almeida publicava uma lista de mais de mil erros em seu Novo Testamento, e Ribeiro dos Santos afirma serem mais. Estes erros eram devidos ao trabalho de revisão feito por uma comissão holandesa que procurou pôr a tradução de Almeida em harmonia com a versão holandesa. Algumas razões levam-nos a crer sido esta uma versão pobre, no dizer de Ribeiro dos Santos⁴. O texto grego do qual ele traduziu não era bom, embora fosse o melhor do seu tempo. Sua linguagem não era boa, não só por haver deixado Portugal bem cedo, mas também porque tentou fazer uma tradução literal, seguindo muito de perto a versão holandesa de 1637 e a castelhana de Cipriano de Valera de 1602. Também o trabalho de revisão, feito por seus colegas holandeses, piorou ainda mais o seu trabalho.
Em março de 1683 Almeida deu, ao Presbitério em Batávia, a notícia de que completara o Pentateuco e que esta fora revisado pelos seus colegas holandeses. Entretanto, ele não pôde completar seu trabalho. Sua tradução só chegou até o livro de Ezequiel, capítulo 48, versículo 21. A última parte foi completada por Jacobus op den Akker em 1694. Depois de muitos problemas foi impresso na Batávia (em dois volumes, 1748 e 1753).
O saltério de Almeida foi publicado no Livro de Oração Comum[5] para o uso das congregações da Igreja Anglicana na Índias Orientais, em 1695. Nesta época, o rei da Dinamarca, Frederico IV, interessou-se em desenvolver no Oriente o conhecimento das Escrituras Sagradas, e pelo seu patrocínio foi estabelecido o trabalho em Tranquebar, aonde foram muitos missionários célebres. Para este trabalho foi publicada, em Amsterdã, uma 3º edição do Novo Testamento de Almeida, às expensas da Sociedade Propaganda do Conhecimento Cristão, em 1712.[6]
Somente no fim do século XVIII, e o princípio do XIX, a Bíblia inteira, na tradução de Almeida, foi publicada. Sob os auspícios da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, foi publicada uma edição do Novo Testamento de Almeida em 1809. Em 1819 Bíblia completa de João Ferreira de Almeida foi publicada em um só volume pela primeira vez, com o título:
"A Bíblia Sagrada, contendo o Novo e o Velho Testamentos, traduzida em português pelo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Santo Evangelho em Batávia".
Apesar de tudo, a tradução de Almeida encerra algumas coisas notáveis. Ela teve lugar em Batávia, na ilha de Java, milhares de quilômetros longe de Portugal. Realizou-se num a terra cuja língua oficial não era o português. Era a 13ª tradução numa língua moderna depois da Reforma. Feita por um pastor protestante, destinava-se a um país católico, como Portugal, que só poderia receber de bom grado uma tradução do Novo Testamento feita diretamente da Vulgata. E o mais dramático lance de sua grande obra é que até hoje nos países de língua portuguesa, sua tradução, mesmo que sofrendo inúmeras reformas, ainda é usada e querida.
O padre Antônio Pereira de Figueiredo, nascido em Mação, Portugal aos 14 de fevereiro de 1725, realizou a primeira grande tradução da Vulgata para o português. Seu trabalho consumiu-lhe dezoito anos de esforços. O Novo Testamento apareceu primeiro, em 1781 e a Bíblia toda, em seis volumes, pouco depois. A linguagem de Figueiredo é inegavelmente superior à de Almeida. Alguns fatores contribuíram para esta melhora. Figueiredo possuía cultura muito superior à de Almeida e ele traduzira a Bíblia e publicara o seu Novo Testamento exatamente um século depois da obra imortal de Almeida. Embora revelando sensível melhora quanto ao português da tradução, Figueiredo não pode escapar aos defeitos de uma tradução que tem por base uma outra tradução. A Vulgata é uma mera revisão do Velho Latim, textos antigos do Novo Testamento, vertidos do grego, que Jerônimo usou para seu trabalho e com tendências peculiares. A tradução de Figueiredo tem sido usada pela Igreja Romana desde então.
A primeira tradução da Bíblia iniciada no Brasil, foi feita pelo refugiado Bispo de Coimbra, Frei D. Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré, o qual publicou só o Novo Testamento em São Luís, Maranhão, em 1875, enquanto que o trabalho de impressão foi feito em Portugal.
O século XX viu florescer no Brasil uma série de grandes traduções do Novo Testamento e da Bíblia toda, tanto do lado protestante com da Igreja Católica. Duas tentativas sem grande importância tiveram lugar. D. Duarte Leopoldo e Silva, traduz e publica os Evangelhos, arranjados como uma harmonia. Depois o Colégio da Imaculada Conceição, Botafogo, Rio de Janeiro, publica uma tradução dos Evangelhos e Atos, do francês, preparada por um padre católico, em 1904.
Os padres franciscanos iniciam um trabalho de versão da Bíblia em 1902 e, embora traduzindo da Vulgata, tentaram fazer um trabalho realmente crítico. Sua edição dos Evangelhos e Atos apareceu em 1909.
Estava reservada ao então padre Humberto Rohden a primeira tradução diretamente do grego para o português, feita por um católico. Isto ele fez num trabalho começado quando estudante na Universidade de Innsbruck, Aústria (1924-1927) e terminado no Brasil. Publicado sob os auspícios da Cruzada da Boa Imprensa.
O trabalho do padre Matos Soares, é a versão mais popular da Igreja Romana no Brasil. Depois do concílio Vaticano II[7] , a Bíblia encontrou mais espaço dentro da Igreja Católica. Várias traduções surgiram, como a Edição Pastoral[8], publicada pelas Edições Paulinas. Feita por eruditos brasileiros, liderados pelo teólogo Ivo Storniolo. Ela foi divulgada entre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), tendo como base teológica a Teologia da Libertação. Storniolo também colaborou com uma outra importante tradução católica, a conhecida Bíblia de Jerusalém. Inicialmente foi publicada em francês, nos anos 70, produzida por padres belgas. Nos anos 80 aparece a versão brasileira. Que segue o critério de tradução dos franceses, uma linguagem moderna, porém sem excessiva simplificação, com base nas línguas originais. As notas e comentários foram, em parte, traduzidos da versão francesa.
Recentemente a Edições Loyola, publica no Brasil, a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). Com notas e comentários, como a Bíblia de Jerusalém, mas difere desta pela linguagem. A TEB foi o trabalho conjunto de eruditos católicos, protestantes e judeus. No Velho Testamento, ela segue a disposição dos livros consagrada pelo judaísmo. Assim nos é explicado por R.T. Beckwith: “(...) a Bíblia Hebraica tem uma estrutura diferente em relação à Bíblia em português está dividida em duas seções: os Profetas e os Hagiógrafos (escritos sagrados). Os Profetas abrangem oito livros: os livros históricos de Josué, Juízes, Samuel e Reis, os livros proféticos de Jeremias, Ezequiel, Isaías e os Doze (os profetas menores). Os Hagiógrafos compreendem 11 livros: os livros líricos e sapienciais de Salmos, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações de Jeremias, e os livros históricos de Daniel, Ester, Esdras-Neemias e Crônicas. Esta é a ordem tradicional, segundo a qual o remanescente hagiógrafo, Rute, vem antes de Salmos. Na Idade Média, esse livro foi colocado em uma posição mais adiante, ao lado de outros quatro livros de brevidade similar (Cantares de Salomão, Eclesiastes, Lamentações de Jeremias e Ester). É digno de nota que na tradução judaica Samuel, Reis, os Profetas Menores, Esdras-Neemias e Crônicas sejam computados cada um como um único livro"[9]. A TEB representa uma nova mentalidade da Igreja Romana. Se antes, as Bíblias Protestantes eram acusadas de serem falsas e conterem inúmeros erros, agora o discurso é radicalmente outro. Tenta-se encontrar pontos de contato, pontes são construídas e barreiras são vencidas pelo diálogo.
Mas adiantamos muito a nossa história. Temos que voltar um pouco no tempo.
As Sociedades Bíblicas empenhadas na disseminação da Bíblia no Brasil reuniram-se, em 1902, para nomear uma comissão para traduzir os textos hebraico e grego em português. Este comissão era formada de vários eruditos ligados a diversos grupos protestantes. Entre eles, o Dr. W.C. Brown, da Igreja Episcopal; J.R. Smith, da Igreja Presbiteriana Americana (igreja do sul); J.M. Kyle, da Igreja Presbiteriana (igreja do norte); A.B. Trajano, Eduardo Carlos Pereira e Hipólito de Oliveira Campos[10]. Além do texto grego e de todas as versões portuguesas existentes, a comissão tinha as seu dispor muitos comentários e obras críticas que contêm os mais novos e mais úteis resultados da investigação e estudo moderno do Novo Testamento. A Tradução Brasileira, iniciada em 1902, editando os dois primeiros evangelhos em 1904, e depois de alguma crítica e revisão, o Evangelho de Mateus saiu em 1905. Os Evangelhos e o livro dos Atos dos Apóstolos foram publicados em 1906, e o Novo Testamento completo em 1910. A Bíblia inteira apareceu em 1917. Apesar de suas inúmeras vantagens ela não vingou em terras do Brasil e Portugal. Deixando posteriormente de ser impressa.
A história da Bíblia em português se confunde com a história das Sociedades Bíblicas. Entidades sem fins lucrativos, que foram formadas no início do século XIX, para distribuir a Bíblia. Como já foi visto anteriormente, foi a Sociedade Britânica que popularizou o trabalho de Almeida nos países de língua portuguesa.
Por volta de 1790[11] morava numa insignificante aldeia de um condado inglês, no País de Gales, a pequena Mary Jones, com cerca de oito anos de idade. Filha de tecelões da localidade, cuja pobreza, naqueles tempos era proverbial, a pequena Mary elevou-se, por assim dizer, à fama mundial. Devido a ela foi fundada a primeira grande Associação da Bíblia.
No meio das grandes privações em que viviam, a menina Mary aprendera a ler e, desde então, seu maior desejo fora possuir uma Bíblia. Uma Bíblia no entanto, representava um tesouro inatingível para uma família de tecelões. Assim sendo, Mary começou a economizar tudo o que ganhava prestando pequenos serviços, mas, a fim de um ano, conseguira juntar, o equivalente a pouco mais de uma libra. Uma soma ridícula, em relação ao preço de uma Bíblia completa em língua inglesa. Entrementes o pai morreu, e mãe adoeceu e a libra foi gasta em medicamentos. Mary recomeçou tudo do princípio, com uma perseverança inacreditável numa menina tão pequena. Passados alguns anos suas economias tinham aumentado a ponto de permitir a Mary a ousadia de procurar obter um Bíblia. Mas onde? O próprio pastor local não possuía nenhum exemplar. Ele sabia, porém, de um colega, em Bala, um certo pastor Charles, que tinha um daqueles livros. Bala ficava a 40 quilômetros; mesmo assim, Mary pôs-se a caminho, a pé, levando uma modesta provisão para a viagem.
Depois de dois dias de marcha, chegou a Bala e comunicou seu desejo ao pastor Charles. O homem, todavia, sacudiu a cabeça negativamente. Uma Bíblia, sim, ele possuía um exemplar, mas já o tinha prometido a alguém. Além disto, a modestíssima soma que Mary podia oferecer era insuficiente.
Diante de tão terrível decepção, depois de anos de privações e de esperanças, a menina desfaleceu. O pastor Charles fez o que em tais momentos qualquer um faria: passou por cima de promessas e ajustes e presenteou a pequena Mary com a sua Bíblia.
Fez ainda mais o pastor Charles: na reunião da Sociedade de Assuntos Religiosos, em Londres, ele contou o acontecimento:
- “Precisamos achar um meio de imprimir Bíblias ao alcance também do povo pobre de Gales”.
No mesmo instante saltou o pregador batista Hughes e exclamou:
"– Por que só para Gales? Por que não para todo o império? Por que não para o mundo inteiro?”
A sugestão foi aceita. Dois anos depois era fundada a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira. O alcance do trabalho dos ingleses foi fenomenal. Todo o Império Britânico foi alcançado. Na época dizia-se que, os ingleses dominavam o mundo, e seu Império tinha tanto alcance, que o “sol nunca se punha, nas terras dominadas pela coroa inglesa”.
Somente em 1949, a distribuição da Bíblia passa a ser feita pelos brasileiros. É a fase conhecida como nacionalização da obra da Bíblia. A data de 1949 é uma referência importante. O trabalho protestante no Brasil sempre dependeu da força estrangeira. Os dois campos promissores para os missionários estrangeiros eram a África e a China. Com a ascensão de Mao Tsé Tung na China em 1949, milhares de obreiros cristão foram expulsos pela governo comunista. E muitos deles foram deslocados por suas igrejas para novos campos.
A África continuou como um campo promissor, mas logo perdeu sua “hegemonia” para a América Latina. A América Latina, que até então foi negligenciada[12] , recebeu uma leva enorme de missionários. Com o aumento do número de trabalhadores, fez-se necessário aumentar o número de ferramentas.
A criação da Sociedade Bíblica do Brasil foi a resposta. Desde então a Bíblia se tornou um livro popular no Brasil. Ela acompanhou o crescimento da igreja protestante, e se difundiu no país através dos colportores, como eram chamados os missionários que viajam para vender Bíblia pelo interior do Brasil.
Paralelo a este crescimento, surge nos anos 90 um nova versão da Bíblia em português. Seguindo os mesmos ideais da Versão Brasileira. Uma tradução promovida por um grupo de eruditos, ao invés de um trabalho solitário, como foi o de Almeida. Uma linguagem moderna, sem simplificação. Bastante acessível ao público médio. Fundamentada em melhores manuscritos, do que o conhecido Textus Receptus, usado por Almeida. Surge a Nova Versão Internacional. Também conhecida como NVI.
Em 1978, foi apresentada ao povo de fala inglesa, uma nova versão da Bíblia, feita pela Sociedade Bíblica Internacional. Seguindo os melhores padrões lingüisticos e os mais modernos recursos editoriais e gráficos, a NVI, alcançou um amplo espaço no mundo evangélico. Representando uma nova etapa na história das traduções da Bíblia.
"... a Sociedade Bíblica Internacional reuniu um grupo de estudiosos evangélicos, de diversas denominações, especialistas nas línguas originais e na língua pátria para produzir um texto fiel e, ao mesmo tempo, contemporâneo. Além de se esforçar por alcançar uma tradução acessível, a comissão formada procurou também esquivar-se da vulgaridade, dos regionalismos, enfim, de tudo que possa empobrecer o texto. É com este espírito de esperança que a Sociedade Bíblica Internacional tem a satisfação de colocar em suas mãos o Novo Testamento na Nova Versão Internacional que pretende ampliar a corrente histórica marcada por aqueles dentre o povo de Deus que têm se esforçado para fazer compreendida a revelação divina na Bíblia Sagrada." [13]
Conforme foi visto antes, a divulgação da Bíblia sempre esteve ligada as mudanças que a sociedade sofre. A versão de Almeida se liga ao tempo de formação do protestantismo. A história de Almeida, nas distantes ilhas do pacífico inspirava os primeiros missionários que vinham ao Brasil desbravar o “novo mundo”. A aventura de viajar à cavalo léguas e léguas para levar o “livro santo”, confrontando com o clero hostil, o clima e as doenças tropicais.
Mas a obra ainda não tinha sido estabelecida. A mensagem evangélica ainda não tinha fincado raízes no solo brasileiro. A dependência marcou esta primeira fase. Isto pode ser exemplificado pela infrutífera tentativa de produzir uma nova tradução, a versão brasileira. O protestantismo não teve o seu grito do Ipiranga. Ficou limitado a repetir as formas e estruturas do missionário estrangeiro.
Figura célebre na história foi o professor Eduardo Carlos Pereira. Gramático conhecido do início do século, liderou um movimento de nacionalização dentro da Igreja Presbiteriana, que até então era liderada por estrangeiros. Ele rompe com a estrutura tradicional e funda a Igreja Presbiteriana Independente. Liderada pelos brasileiros, que comandavam os seminários, igrejas e escolas da nova denominação. Não foi coincidência Pereira ter participado da chamada Versão Brasileira.
A fundação da Sociedade Bíblica do Brasil coincide com a nova etapa da evangelização mundial. As portas fechadas da China, que até então demonstrava ser um campo muito promissor. Uma enorme população que estava formando uma nova identidade nacional, mais aberta ao cristianismo[14]. Além do grande investimento de recursos para lá. Fundação de hospitais, seminários e ampliação de igrejas.
Finalmente, a NVI aparece num momento oportuno. A Igreja Protestante mudou. Não é mais a igreja pioneira dos primeiros anos, nem é mais a igreja dependente do início do século. A Sociedade Bíblica do Brasil se tornou uma das maiores entidades de promoção da Bíblia no mundo. Até o ano de 1995, apenas duas Sociedades Bíblicas, entre as 120 existentes no mundo, haviam conseguido superar a marca de 20 milhões de Bíblias distribuídas em um ano: a Sociedade Bíblica Americana e a Sociedade Bíblica da Coréia. Em 1996, ao completar 48 de existência, a Sociedade Bíblica do Brasil tornou-se a terceira a superar essa marca.[15]
A NVI representa a maturidade que a obra bíblica alcançou no Brasil. Um obra enorme hoje, bem diferente dos dias de Almeida e seu pioneirismo.
[1] - John Wycliff (c. 1328-1384) Foi, em alguns aspectos, um precursor da Reforma Protestante, quer queria reformar a igreja romana, através da eliminação dos clérigos imorais e pelo despojamento de sua propriedade que, segundo ele, era fonte de corrupção. Atacou a autoridade do papa em 1382, dizendo num livro que Cristo e não o papa era o chefe da Igreja. Afirmou que a Bíblia e não a Igreja era a autoridade única para o crente e que a igreja romana deveria se modelar segundo o padrão do Novo Testamento. Para apoiar estas idéias, Wycliff tornou a Bíblia acessível ao povo em sua própria língua. Em 1382, ele terminou a primeira tradução completa do Novo Testamento para o inglês. Desse modo, pela primeira vez, os ingleses podiam ler a Bíblia em sua língua.
[2] - Um Tradutor Português da Bíblia em Java. JUERP, 2º edição. p 3.
[3] - G. L. Santos Ferreira, A Bíblia em Portugal, citado por David Mein. A Bíblia e como chegou até nós. Assim explica o equívoco do frontispício.” Os missionários holandeses de Tranquebar se intitulavam a si mesmo de padres dominicanos, mas não tinham ligação com ordem católica. É bem provável que eles, sendo pouco conhecedores do idioma, julgassem o adjetivo dominicano era derivado de dominus, e ingenuamente supusessem que se dizerem ministros do Senhor ou Padres dominicanos era a mesma coisa”.
[4] - Ribeiro dos Santos foi um importante historiador do protestantismo brasileiro. Ele era pastor presbiteriano.
[5] - Saltério é como também ficou conhecido o livro dos Salmos. O livro de Oração Comum é o livro de liturgia oficial da Igreja Anglicana.
[6] - David Mein. Op. cit.
[7] - O Concílio Vaticano II teve um tremendo impacto na Igreja Católica. A Igreja sofreu um “aggiornamento”, ou seja, uma renovação. A liturgia, que até então era feita em latim, passou a ser feita nas línguas nacionais, o novo movimento carismático foi aceito como expressão da espiritualidade católica, a teologia da libertação encontrou amplo espaço e foi divulgada com entusiasmo pelo mundo. A Bíblia encontrou um novo espaço nesta “nova” Igreja, que estava se definindo no Vaticano II. A expressão latino-americana foi o CELAM, em Medelín (1968). As melhores fontes para consulta são os documentos produzidos por estes encontros, ambos publicados pelas Edições Paulinas e Editora Vozes.
[8] - Edições Paulinas, São Paulo. 1990.
[9] - Beckwith. R. T. O Cânon do Antigo Testamento in COMFORT, Philip Wesley. Ed. A Origem da Bíblia. CPAD. Rio de Janeiro, 1998. O artigo de Beckwith discute a formação do Cânon Hebraico e sua relação com a Igreja Cristã.
[10] - Os dados foram retirados da livro de David Mein. Que até hoje, permanece sendo a melhor referência sobre a história da Bíblia em português. Alguns eruditos, mesmo que não estivessem ligados às igrejas evangélicas contribuíram para a Tradução Brasileira A Tradução Brasileira é reconhecida como uma das melhores traduções da Bíblia não só em português. Superior em vários aspectos à de Almeida, um texto melhor, revisões mais acuradas, e a vantagem de ter sido obra de vários tradutores. Não alcançou, porém, popularidade de Almeida. Existe hoje como referência, e alguns exemplares podem ser encontrados na biblioteca da UnB.
[11] - Sociedade Bíblica do Brasil. A história de Mary Jones é por demais conhecida pelos protestantes. Ela aparece em diversos livros, divulgada em pregações. Uma das inúmeras edições da história de Jones é publicada pela Imprensa Batista Regular.
[12] - A Conferência de Missões de Edimburgo, em 1908, definiu a América Latina como campo já alcançado, devido a forte presença do catolicismo romano no continente. Os evangélicos que trabalhavam no continente latino-americano reagiram imediatamente e contestaram a decisão da conferência. Afirmando que a relação do catolicismo com a fé cristã era apenas nominal. Em essência, ele divergia do padrão bíblico.
[13] - Texto originalmente publicado na Revista Teológica Vox Scripturae, v. III, n. 2, 1993, p. 215-226. Com o título: Nova Versão Internacional da Bíblia em Português: Resumo Informativo. Odayr Olivetti.
Rev. Odayr Olivetti, Ministro jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil, foi pastor de várias igrejas e professor de Teologia Sistemática no Seminário Presbiteriano de Campinas. É autor de alguns livros e tradutor de inúmeras obras cristãs.
[14] - O livro de Jonatham Spence. Publicado no Brasil, pela Companhia das Letras, O Filho Chinês de Deus, nos fala de um líder chinês, protestante, que no século XIX faz uma caminhada pelo país, levando consigo uma multidão de seguidores, apregoando uma “nova era” para o povo chinês. Para Spence, esta caminhada inspirou Mao Tsé Tung para promover uma caminhada pela China, que irá culminar na Revolução Comunista de 1949. Para a relação da visão escatológica cristã com o comunismo, ver. Norman Cohn. Cosmos, Caos e o Mundo Virá. Companhia das Letras. São Paulo, 1997. Ver também . Norman Cohn. Pursuit of Milennium. Oxford Press.
[15] - A Bíblia no Brasil. No. 175 . SBB. São Paulo.
Isaias L. P. Júnior
Sola Scriptura - João Calvino
Para que Alguém Possa Chegar a Deus, O Criador, É Necessário Que Tenha A Escritura Por Guia e Mestra.
O Verdadeiro Conhecimento de Deus está na Bíblia
Portanto, se bem que o fulgor que se projeta aos olhos de todos, no céu e na terra, retire totalmente toda base para a ingratidão dos homens - e ainda que Deus, para envolver o gênero humano na mesma culpa, mostre a todos esboçada nas criaturas, sua Divina Majestade -, é necessário, contudo, além disso, acrescentar outro recurso melhor, que nos dirija retamente ao próprio Criador do universo. Por isso, não foi em vão que Deus acrescentou a luz de Sua Palavra para fazer-Se conhecido para a salvação do homem. E considerou dignos deste privilégio a todos aqueles aos quais quis trazer, para perto de Si, mais aproximada e intimamente.
Ora, porque Deus via a mente de todos ser arrastada, de um lado para outro, por constante e imutável agitação - depois de escolher os judeus para Si, como povo especial -, cercou-os por todos os lados, para que não se extraviassem com os demais povos. E não é em vão que ele nos mantém, por meio do mesmo remédio, no puro conhecimento de Si próprio, porque, de outra forma, se desfariam bem rapidamente até mesmo os que parecem mais firmes do que os outros. É exatamente como acontece com pessoas idosas ou enfermas dos olhos, e a todos quantos sofre de visão embaraçada: se pusermos diante delas até mesmo um volume vistoso, ainda que reconheçam estar ali algo escrito, mal poderão, contudo, ajuntar duas palavras. Ajudadas, porém, com o auxílio de óculos, essas pessoas começarão a ler de maneira eficiente. Assim a Escritura, reunindo na nossa mente, o conhecimento de Deus - que, de outro modo, seria confuso fazendo desaparecer a escuridão -, mostra-nos, com clareza transparente, o Deus Verdadeiro.
Constitui, pois uma dádiva singular o fato de Deus - para instruir a igreja -, servir-Se não apenas de mestres mudos, mas, ainda, abrir sua boca sacrossanta para não simplesmente proclamar que se deve adorar a Deus, mas também, ao mesmo tempo, declarar que Ele é esse Deus a quem devemos adorar. E não ensina Ele meramente aos eleitos que devem obedecer a Deus, mas mostra-Se como Aquele a Quem eles devem obedecer. Este modo de agir Deus tem mantido para com sua igreja, desde o princípio, de modo que, afora essas evidências comuns, Ele aplicasse também a palavra que é a marca direta e segura para reconhecê-LO.
Nem é para se duvidar de que Adão, Noé, Abraão e os demais patriarcas - em função deste recurso - tenham conseguido mais íntimo conhecimento de Deus, fato que, de certo modo, os destingue dos incrédulos. Não estou falando ainda da doutrina da fé, pela qual eles haviam sido iluminados para a esperança da vida eterna. Ora, para que pudessem eles passar, da morte para a vida, foi necessário que eles conhecessem a Deus não apenas como Criador, mas também como Redentor, pois eles chegaram a conhecer a Deus desses dois modos, seguramente, através da Palavra.
Ora, pela ordem, veio primeiro aquela modalidade de conhecimento mediante o qual lhes foi dado compreender quem é Deus, por meio de Quem o mundo foi criado e é governado. Em seguida, acrescentou-se, depois, a outra modalidade de conhecimento, interior, porque só esse conhecimento vivifica as almas mortas e só por ele se conhece a Deus não apenas como Criador do universo, Autor e Árbitro único de todas as coisas que existem, mas também na Pessoa do Mediador, como Redentor. Contudo, porque não tratei ainda da queda do mundo e da corrupção da natureza, não apresento ainda, aqui, o remédio.
Devem lembrar-se, portanto, os leitores de que não farei ainda considerações a respeito do pacto, mediante o qual Deus adotou, para Si, os filhos de Abraão, mas tratarei ainda daquela parte da doutrina pela qual os fiéis sempre foram apropriadamente separados das pessoas profanas, por aquela doutrina se fundamenta em Cristo (e, por isso, deve ser abordada na seção Cristológica); Agora, entretanto, só focalizarei como se deve aprender, da Escritura, que Deus como Criador, se distingue - por meio de marcas seguras - de toda a inventada multidão de deuses. Oportunamente depois, a própria seqüência dos fatos conduzirá ao estudo da redenção. Embora devamos derivar muitos testemunhos do Novo Testamento, e outros testemunhos da lei e dos profetas - onde se faz clara referência a Cristo -, sabemos que todos estes testemunhos visam mostrar que Deus, o Artífice do universo, se torna patente na Escritura e nela também se ensina o que devemos pensar a respeito de Deus, para que não busquemos, por caminhos tortuosos, alguma divindade incerta.
A Bíblia é a Palavra de Deus Escrita
Quer Deus Se tenha feito conhecido, aos patriarcas, através de visões ou oráculos, quer tenha dado a conhecer - mediante a obra e ministério de homens -, aquilo que, depois, transmitiria a pósteros pelas próprias mãos, está fora de dúvida que Deus gravou, no coração deles, a firme certeza da doutrina, de modo que fossem convencidos de que procedia de Deus o que haviam aprendido. Por isso Deus, pela Sua Palavra, tornou a fé segura para sempre, fazendo-a superior a toda mera opinião. Finalmente para que em perpétua continuidade de doutrina, a verdade permanecesse no mundo, sobrevivendo a todos os séculos, quis Deus que esses mesmos oráculos - que deixou em depósito com os Patriarcas -, fossem registrados como em públicos instrumentos. Com este propósito foi promulgada a Lei, à qual se acrescentaram, depois, como intérpretes, os Profetas.
Ora, se bem que foi múltiplo o uso da lei - como se verá no lugar mais adequado -, na verdade, foi dada especialmente a Moisés e a todos os profetas (a responsabilidade de) ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, fato que levou Paulo a dizer que Cristo é o fim da Lei (Rm.10:4). Contudo, torno a afirmar que, além da apropriada doutrina da fé e do arrependimento - que apresenta Cristo como Mediador -, a Escritura adorna, com sinais e marcas inconfundíveis, o Deus Único e Verdadeiro como Criador e Governador do mundo, para que Ele não seja confundido com a espúria multidão de deuses.
Portanto, por mais que ao homem sério convenha levar em conta as obras de Deus - um vez que foi ele colocado no belíssimo teatro do mundo para ser espectador da obra divina -, contudo, para ele poder aproveitá-la melhor, precisa dar ouvido à Palavra. Por isso, não é de admirar que os que nasceram nas trevas endureçam, mais e mais, a sua sensibilidade, visto que muito poucos se submetem docilmente à Palavra de Deus, de maneira a respeitar os seus limites; ao contrário, antes se gloriam em sua presunção.
Mas, para que a verdadeira religião resplandeça em nós, é preciso que ela seja o ponto de partida da doutrina celeste, pois não pode provar se quer o mais leve gosto da reta e sã doutrina, senão aquele que se tornar discípulo da Escritura. Pois o princípio do verdadeiro entendimento vem do fato de abraçar-mos, reverentemente, o Deus testifica de Si mesmo na Escritura. Da obediência à Palavra de Deus nascem não somente a fé consumada e completa, em todos os seus aspectos, mas também todo reto conhecimento de Deus. E neste aspecto, fora de toda dúvida, Deus, com singular providência, levou em conta os mortais em todos os tempos.
A Bíblia é o Único Escudo que Nos Protege do Erro
De fato, se refletirmos quão acentuado é a tendência da mente humana para esquecer a Deus, quão grande é a inclinação dos homens para com toda espécie de erro e quão pronunciado é o gosto deles para forjar, a cada instante, novas fantasiosas religiões, poderemos perceber como foi necessário a autenticação escrita da doutrina celeste, para que ela não desaparecesse pelo esquecimento, nem se desfizesse pelo erro, nem fosse corrompida pela petulância dos homens.
Deste modo, como está sobejamente demonstrado, Deus providenciou o auxilio de Sua Palavra para todos aqueles aquém quis instruir de maneira eficaz, pois sabia ser insuficiente a impressão de Sua Imagem na estrutura do universo. Portanto, se desejamos, com seriedade, contemplar a Deus de forma genuína, precisamos trilhar a reta vereda indicada na Sua Palavra.
Importa irmos à Palavra na qual, de modo vivo e real, Deus Se apresenta a nós em função de Suas obras, ao mesmo tempo em que essas mesmas obras são apreciadas, não sendo o nosso julgamento corrompido, mas de acordo com a norma da verdade eterna. Se nos desviarmos da Palavra, como ainda há pouco frisei, mesmo que nos esforcemos com grande empenho - pelo fato de a corrida ser fora da pista - jamais conseguiremos atingir a meta. Devemos pensar que o esplendor da face divina, que até mesmo o Apóstolo Paulo reconhece ser inacessível (I Tm.6:16), é para nós um labirinto emaranhado, no qual só podemos entrar se, através dele, formos guiados pelo fio da Palavra. Por isso, é preferível andar mancando, ao longo deste caminho a correr velozmente fora dele!
É por isso que, não poucas vezes, nos Salmos 93, 96, 97 e outros, ensinando que devemos tirar do mundo as superstições, para que floresça a religião pura, Davi representa a Deus como Aquele que reina, dando a entender, pelo termo reinar, não o poder de que Deus está investido e que exerce no governo universal da natureza, mas significando a doutrina pela qual reivindica, para Si, a legítima soberania, visto que jamais se pode arrancar os erros do coração humano, enquanto nele não se implantar o verdadeiro conhecimento de Deus.
A Revelação da Bíblia é Superior a Revelação da Criação
Por isso, onde o mesmo profeta afirma que os céus proclamam a glória de Deus, que o firmamento anuncia as obras das Suas mãos e que a regular seqüência dos dias e das noites apregoa a Sua majestade (Sl19:1-2), em seguida faz menção de Sua Palavra: "A Lei do Senhor" diz ele, "é perfeita e restaura as almas; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples; os mandamentos do Senhor são retos e alegram o coração; o preceito do Senhor é puro e ilumina os olhos" (Sl19:7-8). Ora, ainda que faça referência a outros usos da Lei, assinala ele, contudo, de modo geral, que Deus ainda que em vão convide a Si todos os povos, pela contemplação de Suas obras, oferece a Escritura como a única escola de Seus filhos.
Idêntica é a maneira como o Profeta fala no Sl.29, porque, depois de discursar a respeito da terrível voz de Deus - que sacode a terra com trovões, ventanias, chuvas, furacões e tempestades, fazendo tremer as montanhas e despedaçando os cedros - acrescenta, ao final, que no santuário de Deus se cantam louvores, visto que os incrédulos são surdos a todas as vozes de Deus, que ressoam nos ares! Da mesma maneira conclui ele outro Salmo, onde descreve as espantosas ondas do mar: "Confirmados foram os Teus testemunhos; a santidade é, para sempre, a formosura do Teu templo"(Sl.93:5). Daí vem também o que Cristo disse à mulher samaritana (Jo.4:22): que a gente dela e os outros povos adoravam o que desconheciam; que só os judeus prestavam culto ao Deus verdadeiro!
Ora, já que a mente humana, por causa da sua estupidez, não pode chegar até Deus, a menos que seja guiada e sustentada por Sua Sagrada Palavra, com exceção dos judeus (que eram guiados pela Palavra) todos os mortais - pelo fato de buscarem a Deus sem a Palavra -, tiveram de vagar na estultice e no erro!
Fonte: As Institutas da Religião Cristã - Livro I, Capítulo 6.
Este artigo está no tópico – Bíblia e Bibliologia
O Verdadeiro Conhecimento de Deus está na Bíblia
Portanto, se bem que o fulgor que se projeta aos olhos de todos, no céu e na terra, retire totalmente toda base para a ingratidão dos homens - e ainda que Deus, para envolver o gênero humano na mesma culpa, mostre a todos esboçada nas criaturas, sua Divina Majestade -, é necessário, contudo, além disso, acrescentar outro recurso melhor, que nos dirija retamente ao próprio Criador do universo. Por isso, não foi em vão que Deus acrescentou a luz de Sua Palavra para fazer-Se conhecido para a salvação do homem. E considerou dignos deste privilégio a todos aqueles aos quais quis trazer, para perto de Si, mais aproximada e intimamente.
Ora, porque Deus via a mente de todos ser arrastada, de um lado para outro, por constante e imutável agitação - depois de escolher os judeus para Si, como povo especial -, cercou-os por todos os lados, para que não se extraviassem com os demais povos. E não é em vão que ele nos mantém, por meio do mesmo remédio, no puro conhecimento de Si próprio, porque, de outra forma, se desfariam bem rapidamente até mesmo os que parecem mais firmes do que os outros. É exatamente como acontece com pessoas idosas ou enfermas dos olhos, e a todos quantos sofre de visão embaraçada: se pusermos diante delas até mesmo um volume vistoso, ainda que reconheçam estar ali algo escrito, mal poderão, contudo, ajuntar duas palavras. Ajudadas, porém, com o auxílio de óculos, essas pessoas começarão a ler de maneira eficiente. Assim a Escritura, reunindo na nossa mente, o conhecimento de Deus - que, de outro modo, seria confuso fazendo desaparecer a escuridão -, mostra-nos, com clareza transparente, o Deus Verdadeiro.
Constitui, pois uma dádiva singular o fato de Deus - para instruir a igreja -, servir-Se não apenas de mestres mudos, mas, ainda, abrir sua boca sacrossanta para não simplesmente proclamar que se deve adorar a Deus, mas também, ao mesmo tempo, declarar que Ele é esse Deus a quem devemos adorar. E não ensina Ele meramente aos eleitos que devem obedecer a Deus, mas mostra-Se como Aquele a Quem eles devem obedecer. Este modo de agir Deus tem mantido para com sua igreja, desde o princípio, de modo que, afora essas evidências comuns, Ele aplicasse também a palavra que é a marca direta e segura para reconhecê-LO.
Nem é para se duvidar de que Adão, Noé, Abraão e os demais patriarcas - em função deste recurso - tenham conseguido mais íntimo conhecimento de Deus, fato que, de certo modo, os destingue dos incrédulos. Não estou falando ainda da doutrina da fé, pela qual eles haviam sido iluminados para a esperança da vida eterna. Ora, para que pudessem eles passar, da morte para a vida, foi necessário que eles conhecessem a Deus não apenas como Criador, mas também como Redentor, pois eles chegaram a conhecer a Deus desses dois modos, seguramente, através da Palavra.
Ora, pela ordem, veio primeiro aquela modalidade de conhecimento mediante o qual lhes foi dado compreender quem é Deus, por meio de Quem o mundo foi criado e é governado. Em seguida, acrescentou-se, depois, a outra modalidade de conhecimento, interior, porque só esse conhecimento vivifica as almas mortas e só por ele se conhece a Deus não apenas como Criador do universo, Autor e Árbitro único de todas as coisas que existem, mas também na Pessoa do Mediador, como Redentor. Contudo, porque não tratei ainda da queda do mundo e da corrupção da natureza, não apresento ainda, aqui, o remédio.
Devem lembrar-se, portanto, os leitores de que não farei ainda considerações a respeito do pacto, mediante o qual Deus adotou, para Si, os filhos de Abraão, mas tratarei ainda daquela parte da doutrina pela qual os fiéis sempre foram apropriadamente separados das pessoas profanas, por aquela doutrina se fundamenta em Cristo (e, por isso, deve ser abordada na seção Cristológica); Agora, entretanto, só focalizarei como se deve aprender, da Escritura, que Deus como Criador, se distingue - por meio de marcas seguras - de toda a inventada multidão de deuses. Oportunamente depois, a própria seqüência dos fatos conduzirá ao estudo da redenção. Embora devamos derivar muitos testemunhos do Novo Testamento, e outros testemunhos da lei e dos profetas - onde se faz clara referência a Cristo -, sabemos que todos estes testemunhos visam mostrar que Deus, o Artífice do universo, se torna patente na Escritura e nela também se ensina o que devemos pensar a respeito de Deus, para que não busquemos, por caminhos tortuosos, alguma divindade incerta.
A Bíblia é a Palavra de Deus Escrita
Quer Deus Se tenha feito conhecido, aos patriarcas, através de visões ou oráculos, quer tenha dado a conhecer - mediante a obra e ministério de homens -, aquilo que, depois, transmitiria a pósteros pelas próprias mãos, está fora de dúvida que Deus gravou, no coração deles, a firme certeza da doutrina, de modo que fossem convencidos de que procedia de Deus o que haviam aprendido. Por isso Deus, pela Sua Palavra, tornou a fé segura para sempre, fazendo-a superior a toda mera opinião. Finalmente para que em perpétua continuidade de doutrina, a verdade permanecesse no mundo, sobrevivendo a todos os séculos, quis Deus que esses mesmos oráculos - que deixou em depósito com os Patriarcas -, fossem registrados como em públicos instrumentos. Com este propósito foi promulgada a Lei, à qual se acrescentaram, depois, como intérpretes, os Profetas.
Ora, se bem que foi múltiplo o uso da lei - como se verá no lugar mais adequado -, na verdade, foi dada especialmente a Moisés e a todos os profetas (a responsabilidade de) ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, fato que levou Paulo a dizer que Cristo é o fim da Lei (Rm.10:4). Contudo, torno a afirmar que, além da apropriada doutrina da fé e do arrependimento - que apresenta Cristo como Mediador -, a Escritura adorna, com sinais e marcas inconfundíveis, o Deus Único e Verdadeiro como Criador e Governador do mundo, para que Ele não seja confundido com a espúria multidão de deuses.
Portanto, por mais que ao homem sério convenha levar em conta as obras de Deus - um vez que foi ele colocado no belíssimo teatro do mundo para ser espectador da obra divina -, contudo, para ele poder aproveitá-la melhor, precisa dar ouvido à Palavra. Por isso, não é de admirar que os que nasceram nas trevas endureçam, mais e mais, a sua sensibilidade, visto que muito poucos se submetem docilmente à Palavra de Deus, de maneira a respeitar os seus limites; ao contrário, antes se gloriam em sua presunção.
Mas, para que a verdadeira religião resplandeça em nós, é preciso que ela seja o ponto de partida da doutrina celeste, pois não pode provar se quer o mais leve gosto da reta e sã doutrina, senão aquele que se tornar discípulo da Escritura. Pois o princípio do verdadeiro entendimento vem do fato de abraçar-mos, reverentemente, o Deus testifica de Si mesmo na Escritura. Da obediência à Palavra de Deus nascem não somente a fé consumada e completa, em todos os seus aspectos, mas também todo reto conhecimento de Deus. E neste aspecto, fora de toda dúvida, Deus, com singular providência, levou em conta os mortais em todos os tempos.
A Bíblia é o Único Escudo que Nos Protege do Erro
De fato, se refletirmos quão acentuado é a tendência da mente humana para esquecer a Deus, quão grande é a inclinação dos homens para com toda espécie de erro e quão pronunciado é o gosto deles para forjar, a cada instante, novas fantasiosas religiões, poderemos perceber como foi necessário a autenticação escrita da doutrina celeste, para que ela não desaparecesse pelo esquecimento, nem se desfizesse pelo erro, nem fosse corrompida pela petulância dos homens.
Deste modo, como está sobejamente demonstrado, Deus providenciou o auxilio de Sua Palavra para todos aqueles aquém quis instruir de maneira eficaz, pois sabia ser insuficiente a impressão de Sua Imagem na estrutura do universo. Portanto, se desejamos, com seriedade, contemplar a Deus de forma genuína, precisamos trilhar a reta vereda indicada na Sua Palavra.
Importa irmos à Palavra na qual, de modo vivo e real, Deus Se apresenta a nós em função de Suas obras, ao mesmo tempo em que essas mesmas obras são apreciadas, não sendo o nosso julgamento corrompido, mas de acordo com a norma da verdade eterna. Se nos desviarmos da Palavra, como ainda há pouco frisei, mesmo que nos esforcemos com grande empenho - pelo fato de a corrida ser fora da pista - jamais conseguiremos atingir a meta. Devemos pensar que o esplendor da face divina, que até mesmo o Apóstolo Paulo reconhece ser inacessível (I Tm.6:16), é para nós um labirinto emaranhado, no qual só podemos entrar se, através dele, formos guiados pelo fio da Palavra. Por isso, é preferível andar mancando, ao longo deste caminho a correr velozmente fora dele!
É por isso que, não poucas vezes, nos Salmos 93, 96, 97 e outros, ensinando que devemos tirar do mundo as superstições, para que floresça a religião pura, Davi representa a Deus como Aquele que reina, dando a entender, pelo termo reinar, não o poder de que Deus está investido e que exerce no governo universal da natureza, mas significando a doutrina pela qual reivindica, para Si, a legítima soberania, visto que jamais se pode arrancar os erros do coração humano, enquanto nele não se implantar o verdadeiro conhecimento de Deus.
A Revelação da Bíblia é Superior a Revelação da Criação
Por isso, onde o mesmo profeta afirma que os céus proclamam a glória de Deus, que o firmamento anuncia as obras das Suas mãos e que a regular seqüência dos dias e das noites apregoa a Sua majestade (Sl19:1-2), em seguida faz menção de Sua Palavra: "A Lei do Senhor" diz ele, "é perfeita e restaura as almas; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples; os mandamentos do Senhor são retos e alegram o coração; o preceito do Senhor é puro e ilumina os olhos" (Sl19:7-8). Ora, ainda que faça referência a outros usos da Lei, assinala ele, contudo, de modo geral, que Deus ainda que em vão convide a Si todos os povos, pela contemplação de Suas obras, oferece a Escritura como a única escola de Seus filhos.
Idêntica é a maneira como o Profeta fala no Sl.29, porque, depois de discursar a respeito da terrível voz de Deus - que sacode a terra com trovões, ventanias, chuvas, furacões e tempestades, fazendo tremer as montanhas e despedaçando os cedros - acrescenta, ao final, que no santuário de Deus se cantam louvores, visto que os incrédulos são surdos a todas as vozes de Deus, que ressoam nos ares! Da mesma maneira conclui ele outro Salmo, onde descreve as espantosas ondas do mar: "Confirmados foram os Teus testemunhos; a santidade é, para sempre, a formosura do Teu templo"(Sl.93:5). Daí vem também o que Cristo disse à mulher samaritana (Jo.4:22): que a gente dela e os outros povos adoravam o que desconheciam; que só os judeus prestavam culto ao Deus verdadeiro!
Ora, já que a mente humana, por causa da sua estupidez, não pode chegar até Deus, a menos que seja guiada e sustentada por Sua Sagrada Palavra, com exceção dos judeus (que eram guiados pela Palavra) todos os mortais - pelo fato de buscarem a Deus sem a Palavra -, tiveram de vagar na estultice e no erro!
Fonte: As Institutas da Religião Cristã - Livro I, Capítulo 6.
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A Bíblia - Capítulo 01
A Bíblia
A palavra “bíblia” é derivada do latim, proveniente da palavra grega biblia (livros), que diz respeito especificamente aos livros que são reconhecidos como canônicos pela Igreja cristã. Nesse sentido, acredita-se estar o uso cristão mais antigo da expressão ta bíblia (os livros) na epístola de 2 Clemente 2.14 (c. 150 d.C.); “Os livros e os apóstolos declaram que a Igreja... existe desde o princípio” (compare Dn. 9.2: ‘Eu, Daniel, entendi pelos livros...”, cuja referência é ao corpus dos escritos proféticos do Antigo Testamento). O vocábulo grego biblion (do qual bíblia é o plural) é o diminutivo de biblos, que na prática denota qualquer tipo de documento escrito, mas originalmente aquele que foi escrito em papiro.
Um termo sinônimo de “a Bíblia” é “os escritos” ou “as Escrituras” (em grego hai graphai, ta grammata), freqüentemente usado no Novo Testamento para designar, no todo ou em parte, os documentos do Antigo Testamento. Por Exemplo, Mateus 21.42 diz: “Nunca lestes nas Escrituras?” (em tais graphais). A passagem paralela, Marcos 12.10, traz o singular, referindo-se ao particular texto citado: “Ainda não lestes estas Escrituras?” (ten graphen tauten). Em 2 Timóteo 3.15, temos “as sagradas letras” (ta hiera grammata), e o versículo seguinte (ARA) diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus” (pasa graphe theopneutos). Em 2 Pedro 3.16, “todas” as epístolas de Paulo são incluídas junto com “as outras Escrituras” (tas loipas graphas), as quais presumem-se que sejam os escritos do Antigo Testamente e provavelmente os evangelhos também.
Conteúdo e Autoridade
Entre os cristãos para quem os Antigos e o Novo Testamento juntos constituem a Bíblia, não há pleno acordo quanto ao seu conteúdo. Algumas ramificações da igreja siríaca não incluem no Novo Testamento as epístolas de 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Além dos livros que formam a Bíblia hebraica, as comunidades Católicas Romanas e Ortodoxas Gregas inserem vários outros no Antigo Testamento. Esses livros adicionais fazem parte da Septuaginta cristã.
Embora sejam incluídos na completa Bíblia inglesa protestante, juntamente com um ou dois outros livros, a Igreja da Inglaterra (como a Igreja Luterana) segue Jerônimo ao sustentar que tais livros podem ser lidos “como exemplos de vida e instrução de costumes, ainda que não se apliquem para estabelecer qualquer doutrina” (Artigo VI). As outras igrejas da Reforma não conferem nenhum status canônico a esses livros. A Bíblia etiópica inclui 1 Enoque e o Livro dos Jubileus.
Nas comunidades romanas, gregas e outras igualmente antigas, a Bíblia, junto com a tradição viva da Igreja, considerada em certo sentido, constituem a autoridade máxima. Por outro lado, nas igrejas da Reforma, somente a Bíblia é a última corte de apelação em assuntos doutrinários e práticos. Assim, o Artigo VI da Igreja da Inglaterra, afirma: “A Sagrada Escritura contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo que não seja encontrado nela, ou que não possa ser provado por esse meio, não deve ser exigido de quem quer que seja, a fim de que deva ser crido como artigo de fé, ou ser considerado como requisito ou algo necessário à salvação”. Para os mesmos efeitos, a Confissão de Fé de Westminster (1.2) alista os 39 livros do Antigo Testamento e os 27 do Novo como “todos os livros... dados por inspiração de Deus, para servirem de regra de fé e vida”.
Os Dois Testamentos
A palavra “testamento”, nas designações “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”, para as duas divisões da Bíblia, remonta através do latim testamentum ao termo grego diathéke, o qual na maioria das suas ocorrências na Bíblia grega significa “concerto” em vez de “testamento”. Em Jeremias 31.31, foi profetizado um novo concerto que iria substituir aquele que Deus fez com Israel no deserto (cf. Êx 24.7,8). “Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro” (Hb 8.13). Os escritores do Novo Testamento vêem o cumprimento da profecia do novo concerto na nova ordem inaugurada pela obra de Cristo. Suas próprias palavras ao instituir esse concerto (1 Co 11.25) dão autoridade a esta interpretação. Portanto, os livros do Antigo Testamento são assim chamados por causa de sua estreita associação com a história do “antigo concerto”. E os livros do Novo Testamente são desse modo designados porque se tratam dos documentos do estabelecimento do “novo concerto”. Uma semelhança ao nosso uso comum do termo “Antigo Testamento” encontra-se em 2 Coríntios 3.14: “Na lição do Velho Testamento”, embora Paulo provavelmente queria aludir à lei, a base do antigo concerto, em vez de todo o volume da Escritura hebraica. Os termos “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”, nomeados para as duas coleções de livros, entraram no uso geral entre os cristãos na última parte do século II. Tertuliano traduziu diathéke para o latim por instrumentum (um documento legal) e também por testamentum. Infelizmente, foi a última palavra que vingou, considerando-se que as duas partes da Bíblia não são “testamentos” no sentido ordinário do termo.
O Antigo Testamento
Na Bíblia hebraica, os livros estão dispostos em três divisões: a Lei, os Profetas e os Escritos. A Lei abrange o Pentateuco, os cinco “livros de Moisés”. Os Profetas desdobram-se em duas subdivisões: os “Primeiros Profetas”, compreendendo Josué, Juízes, Samuel e Reis; e os “Últimos Profetas”, abarcando Isaías, Jeremias, Ezequiel, e “O Livro dos Doze Profetas”. Os Escritos contêm o restante dos livros: primeiro, Salmos, Provérbios e Jó; depois, os cinco “Rolos”, a saber, Cantares de Salomão, Rute, Lamentações de Jeremias, Eclesiastes e Ester; e, finalmente, Daniel, Esdras-Neemias e Crônicas. O total é tradicionalmente computado em 24, mas esses 24 correspondem exatamente ao nosso cômputo comum de 39, visto que no último cálculo os Profetas Menores são contados como 12 livros, e Samuel, Reis, Crônicas e Esdras-Neemias, como dois livros cada. Na Antiguidade, havia outras maneiras de contar os mesmos 24 livros. Em uma dessas maneiras (atestada por Josefo), o total descia para 22; em outra (conhecida por Jerônimo), subia para 27.
A origem da organização dos livros na Bíblia hebraica não pode ser rastreada. Acredita-se que a divisão em três partes corresponda às três etapas nas quais os livros receberam reconhecimento canônico, mas não há evidências diretas sobre isso.
Na Septuaginta, os livros estão arranjados de acordo com a similaridade de assuntos. O Pentateuco é seguido pelos livros históricos, que são sucedidos pelos livros poéticos e sapienciais, vindo por último os livros proféticos. É essa ordem que, em suas características essenciais, foi perpetuada (via Vulgata) na maioria das edições cristãs da Bíblia. Em certos aspetos, essa seqüência é mais condizente com a ordem cronológica dos conteúdos da narrativa do que com a da Bíblia Hebraica. Rute, por exemplo, aparece imediatamente depois de Juízes (visto que relata fatos ocorridos “nos dias em que os juízes julgavam”), e o trabalho do cronista aparece na seqüência Crônicas-Esdras-Neemias.
A divisão em três partes da Bíblia hebraica está refletida na redação de Lucas 24.44 (“na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos”). Mais comumente, o Novo Testamento refere-se à “Lei e os Profetas” (vide Mt 7.12) OU A “Moisés e os Profetas” (vide Lc 16.29).
A revelação divina desses registros do Antigo Testamento foi transmitida de duas maneiras principais – por obras poderosas e por palavras proféticas. Esses dois modos de revelação estão ligados indissoluvelmente entre si. Os atos de misericórdia e julgamento, pelos quais o Deus de Israel se fez conhecido ao povo do seu concerto, não teriam transmitido sua mensagem apropriada se não tivessem sido interpretadas pelos profetas – os “porta-vozes” de Deus, que receberam e comunicaram sua Palavra. Por exemplo, os acontecimentos do Êxodo não teriam adquirido seu permanente significado para os israelitas se Moisés não lhes tivesse dito que, por meio desses acontecimentos, o Deus de seus pais estavam agindo para libertá-los, de acordo com suas antigas promessas, de modo que eles podiam ser o seu povo e Ele, o seu Deus. Por outro lado, as palavras de Moisés teriam sido infrutíferas se não estivessem associadas à indicação do povo nos acontecimentos do Êxodo. Semelhantemente, podemos comparar a atuação significativa de Samuel na época da ameaça filistéia, no tempo dos grandes profetas do século VIII a.C., quando a Assíria vencia espetacularmente tudo o que havia pela frente, aos dias de Jeremias e Ezequiel, quando o reino de Judá deixou de existir, e assim por diante.
Essa interação de obras poderosas e palavras proféticas no Antigo Testamento explica por que a história e a profecia estão tão interligadas uma com a outra ao longo de todas as suas páginas. Não há o que duvidar que foi alguma percepção a esse respeito que levou os judeus a incluírem os principais livros históricos entre os Profetas. Mas, de fato, não apenas os escritos do Antigo Testamento registram ao mesmo tempo a resposta dos homens à revelação de Deus – uma resposta às vezes obediente, mas na grande maioria das vezes desobediente. No registro da resposta daqueles a quem veio a palavra de Deus no Antigo Testamento, o Novo Testamento proporciona instruções práticas para os cristãos. Sobre a rebelião dos israelitas no deserto e os eventos desastrosos que se seguiram, Paulo escreve: “Ora, tudo isso lhes sobreveio como figuras [exemplos], e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Co 10.11).
Com relação ao seu lugar na Bíblia cristã, o Antigo Testamento, em essência, é introdutório: o que Deus antigamente falou aos pais pelos profetas esperou por seu cumprimento naquilo que nos foi falado pelo Filho (Hb 2.1,2). Não obstante, nos primeiríssimos dias do Cristianismo, o Antigo Testamento era a Bíblia que os apóstolos e outros pregadores do Evangelho levavam consigo quando saíam para proclamar Jesus como o Messias, o Senhor e Salvador divinamente enviado: encontraram em suas páginas testemunho claro sobre Jesus (Jó 5.39) e uma descrição natural do modo de salvação mediante a fé nEle (Rm 3.21; 2 Tm 3.15). Para usar o Antigo Testamento, tinham a autoridade e o exemplo do próprio Jesus. E, desde então, a Igreja sempre tem obtido sucesso, quando segue o precedente estabelecido por Ele e seus apóstolos e reconhece o Antigo Testamento como Escritura cristã. “O que era indispensável para o Redentor, sempre deve ser indispensável para os redimidos” (G. A. Smith).
O Novo Testamento
O Novo Testamento está para o Antigo Testamento na mesma proporção que o cumprimento está para a promessa. Se o Antigo Testamento registra o que Deus falou no passado aos nossos pais pelos profetas, o Novo Testamento registra a palavra final que Ele falou por seu Filho, e em quem todas as mais antigas revelações foram resumidas, confirmadas e transcendidas. As obras poderosas da revelação do Antigo Testamento culminam na obra redentora de Cristo. As palavras dos profetas do Antigo Testamento recebem seu pleno cumprimento nEle. Mas Ele não é apenas a coroa da revelação de Deus aos homens; é também a resposta perfeita do homem a Deus – o apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão (Hb 3.1). Se o Antigo Testamento registra o testemunho daqueles que viram o dia de Jesus antes que começasse, o Novo Testamento registra o testemunho daqueles que o viram e o ouviram nos dias da sua carne, e que vieram a conhecer e proclamaram com maior profundidade o significado da sua vinda, pelo poder do seu Espírito, depois que ressuscitara dos mortos.
Nos últimos 1.600 anos, o Novo Testamento tem sido aceito pela grande maioria dos cristãos como tendo 27 livros, dispostos naturalmente em quatro divisões: (1) os quatro evangelhos, (2) os Atos dos Apóstolos, (3) as 21 cartas escritas pelos apóstolos e “homens apostólicos”, e (4) o Apocalipse. Essa ordem não é apenas lógica, mas quase cronológica, à medida que se leva em conta os assuntos expostos nos documentos. Contudo, não há correspondência com a ordem em que foram escritos.
Os primeiros documentos do Novo Testamento a serem escritos foram as primeiras epístolas de Paulo. Estas (junto, possivelmente, com a epístola de Tiago) foram compostas entre 48 e 60 d.C., antes mesmo que o mais antigo dos Evangelhos fosse escrito. Os quatro evangelhos pertencem às décadas entre 60 e 100 d.C., e é também a esse período que se atribui todos (ou quase todos) os outros escritos do Novo Testamento. Enquanto a composição dos livros do Antigo Testamento se estendeu por um período de mil anos ou mais, os livros do Novo Testamento foram escritos em menos de um século.
Os escritos neotestamentários não foram reunidos na forma como hoje o conhecemos, imediatamente após terem sido escritos. Em princípio, cada um dos evangelhos teve uma existência local e independente nas respectivas comunidades para as quais originalmente cada um foi composto. Entretanto, pelo início do século II, foram reunidos e começaram a circular como um registro quádruplo. Quando isso aconteceu, Atos foi separado de Lucas, com o qual fazia uma obra em dois volumes, e lançado em uma carreira solo, mas não desprovida de sua própria importância.
As epístolas de Paulo foram primeiramente preservadas pelas comunidades ou indivíduos aos quais foram enviadas. Mas encontramos evidência que, pelo fim do século I, sugerem que sua subsistente correspondência começou a ser reunida em um corpus paulino, o qual rapidamente passou a circular entre as igrejas – primeiro, como um corpus mais curto composto de dez epístolas e, logo a seguir, um maior, compreendendo 13 epístolas, aumentando pela inclusão das três epístolas pastorais. Dentro do corpus paulino, as epístolas parecem ter sido organizadas não em sua seqüência cronológica, mas na ordem decrescente em termos de tamanho. Esse princípio ainda hoje pode ser reconhecido na ordem encontrada na maioria das edições do Novo Testamento: as epístolas às igrejas vêm antes das epístolas pessoais, e dentro destas duas subdivisões estão arranjadas de maneira que as mais longas vêm por primeiro e as mais curtas por último (a única exceção a esse esquema é Gálatas, que vem antes de Efésios, embora Efésios seja a epístola ligeiramente mais longa entre as duas).
Com a reunião dos evangelhos e o corpus paulino, e servindo Atos como elo de ligação entre os dois, temos o início do cânon do Novo Testamento como hoje o conhecemos. A Igreja Primitiva, que herdou a Bíblia hebraica (ou a versão grega da Septuaginta) como Escrituras Sagradas, não tardou em colocar os novos escritos evangélicos e apostólicos ao lado da Lei e dos Profetas e usá-los para a propagação e defesa do Evangelho e no culto cristão. Desse modo, Justino Mártir, em meados do século II, descreve como os cristãos, em suas reuniões dominicais, liam “as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas” (Apologia 1.67). Foi natural, então, que quando o Cristianismo se espalhou entre os povos que falavam outros idiomas que não o grego, o Novo Testamento fosse traduzido do grego para aquelas línguas, em benefício dos novos convertidos. Por volta de 200 d.C., já havia versões latinas e siríacas do Novo Testamento e, no século que se seguiu, existia uma versão cóptica.
A Mensagem da Bíblia
A Bíblia tem desempenhado, e continua a desempenhar, uma função extraordinária na história da civilização. Muitas línguas foram postas pela primeira vez na forma escrita para que a Bíblia, no todo ou em parte, pudesse ser traduzida para essas línguas. E isso não é senão uma pequena amostra da missão civilizadora da Bíblia no mundo.
Essa missão civilizadora é o efeito direto da mensagem central da Bíblia. Pode parecer surpreendente que se fale em uma mensagem central numa coleção de escritos que reflete a história da civilização no Oriente Próximo ao longo de alguns milênios. Mas há uma mensagem central, e é o reconhecimento desse fato que tem levado a Bíblia a ser tratada comumente como um livro, e não como uma coleção de livros – assim como a palavra grega plural biblia (“livros”) tornou-se no termo latino singular biblia (“o livro”).
A mensagem central da Bíblia é a história da salvação e, ao longo de ambos os Testamentos, podem ser distinguidos três elementos comuns nessa história reveladora: aquEle que traz a salvação, o meio de salvação e os herdeiros da salvação. Isso poderia ser reformulado sob o aspecto da idéia do concerto, dizendo que a mensagem central da Bíblia é o concerto de Deus com os homens e que os elementos comuns são: o Mediador do concerto, a base do concerto e o povo do concerto. Deus mesmo é o Salvador do seu povo; é Ele que confirma seu concerto de misericórdia com o povo. Quem traz a salvação, o Mediador do concerto, é Jesus Cristo, o Filho de Deus. O meio de salvação, a base do concerto, é a graça de Deus, que exige de seu povo uma resposta de fé e obediência. Os herdeiros da salvação, o povo do concerto, são o Israel de Deus, a Igreja de Deus.
A continuidade do povo do concerto, proveniente do Antigo Testamento para o Novo, está oculta para o leitor comum da Bíblia em português, porque “igreja” é uma palavra exclusiva do Novo Testamento e, naturalmente, esse leitor considera que isso é algo que começou no período do Novo Testamento. Mas o leitor da Bíblia grega não foi confrontado por nenhuma palavra nova quando achou ekklesia no Novo Testamento. Já a havia encontrado na Septuaginta como uma das palavras usadas para indicar Israel como a “congregação” do povo do Senhor. Certamente há um novo e mais profundo significado no Novo Testamento. O povo do antigo concerto teve de morrer com Ele, a fim de ser ressuscitado com Ele para uma nova vida – uma nova vida na qual as restrições nacionais haviam desaparecido. Jesus fornece em si mesmo a continuidade vital entre o antigo e o novo Israel, e seus seguidores fiéis são não apenas o remanescente justo do antigo Israel, mas também o núcleo do novo. O Servo do Senhor e seus servos unem os dois Testamentos num só.
A mensagem da Bíblia é a mensagem de Deus para o homem, comunicada “muitas vezes e de muitas maneiras” (Hb 1.1) e finalmente encarnada em Jesus. Por conseguinte, “a autoridade da Santa Escritura, a qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de algum homem ou igreja, mas inteiramente de Deus (que é a própria verdade), e seu autor; e, portanto, deve ser recebida, porque é a Palavra de Deus” (Confissão de Fé de Westminster, 1.4).
O próximo artigo desta série é A AUTORIDADE DA BÍBLIA
A palavra “bíblia” é derivada do latim, proveniente da palavra grega biblia (livros), que diz respeito especificamente aos livros que são reconhecidos como canônicos pela Igreja cristã. Nesse sentido, acredita-se estar o uso cristão mais antigo da expressão ta bíblia (os livros) na epístola de 2 Clemente 2.14 (c. 150 d.C.); “Os livros e os apóstolos declaram que a Igreja... existe desde o princípio” (compare Dn. 9.2: ‘Eu, Daniel, entendi pelos livros...”, cuja referência é ao corpus dos escritos proféticos do Antigo Testamento). O vocábulo grego biblion (do qual bíblia é o plural) é o diminutivo de biblos, que na prática denota qualquer tipo de documento escrito, mas originalmente aquele que foi escrito em papiro.
Um termo sinônimo de “a Bíblia” é “os escritos” ou “as Escrituras” (em grego hai graphai, ta grammata), freqüentemente usado no Novo Testamento para designar, no todo ou em parte, os documentos do Antigo Testamento. Por Exemplo, Mateus 21.42 diz: “Nunca lestes nas Escrituras?” (em tais graphais). A passagem paralela, Marcos 12.10, traz o singular, referindo-se ao particular texto citado: “Ainda não lestes estas Escrituras?” (ten graphen tauten). Em 2 Timóteo 3.15, temos “as sagradas letras” (ta hiera grammata), e o versículo seguinte (ARA) diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus” (pasa graphe theopneutos). Em 2 Pedro 3.16, “todas” as epístolas de Paulo são incluídas junto com “as outras Escrituras” (tas loipas graphas), as quais presumem-se que sejam os escritos do Antigo Testamente e provavelmente os evangelhos também.
Conteúdo e Autoridade
Entre os cristãos para quem os Antigos e o Novo Testamento juntos constituem a Bíblia, não há pleno acordo quanto ao seu conteúdo. Algumas ramificações da igreja siríaca não incluem no Novo Testamento as epístolas de 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Além dos livros que formam a Bíblia hebraica, as comunidades Católicas Romanas e Ortodoxas Gregas inserem vários outros no Antigo Testamento. Esses livros adicionais fazem parte da Septuaginta cristã.
Embora sejam incluídos na completa Bíblia inglesa protestante, juntamente com um ou dois outros livros, a Igreja da Inglaterra (como a Igreja Luterana) segue Jerônimo ao sustentar que tais livros podem ser lidos “como exemplos de vida e instrução de costumes, ainda que não se apliquem para estabelecer qualquer doutrina” (Artigo VI). As outras igrejas da Reforma não conferem nenhum status canônico a esses livros. A Bíblia etiópica inclui 1 Enoque e o Livro dos Jubileus.
Nas comunidades romanas, gregas e outras igualmente antigas, a Bíblia, junto com a tradição viva da Igreja, considerada em certo sentido, constituem a autoridade máxima. Por outro lado, nas igrejas da Reforma, somente a Bíblia é a última corte de apelação em assuntos doutrinários e práticos. Assim, o Artigo VI da Igreja da Inglaterra, afirma: “A Sagrada Escritura contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo que não seja encontrado nela, ou que não possa ser provado por esse meio, não deve ser exigido de quem quer que seja, a fim de que deva ser crido como artigo de fé, ou ser considerado como requisito ou algo necessário à salvação”. Para os mesmos efeitos, a Confissão de Fé de Westminster (1.2) alista os 39 livros do Antigo Testamento e os 27 do Novo como “todos os livros... dados por inspiração de Deus, para servirem de regra de fé e vida”.
Os Dois Testamentos
A palavra “testamento”, nas designações “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”, para as duas divisões da Bíblia, remonta através do latim testamentum ao termo grego diathéke, o qual na maioria das suas ocorrências na Bíblia grega significa “concerto” em vez de “testamento”. Em Jeremias 31.31, foi profetizado um novo concerto que iria substituir aquele que Deus fez com Israel no deserto (cf. Êx 24.7,8). “Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro” (Hb 8.13). Os escritores do Novo Testamento vêem o cumprimento da profecia do novo concerto na nova ordem inaugurada pela obra de Cristo. Suas próprias palavras ao instituir esse concerto (1 Co 11.25) dão autoridade a esta interpretação. Portanto, os livros do Antigo Testamento são assim chamados por causa de sua estreita associação com a história do “antigo concerto”. E os livros do Novo Testamente são desse modo designados porque se tratam dos documentos do estabelecimento do “novo concerto”. Uma semelhança ao nosso uso comum do termo “Antigo Testamento” encontra-se em 2 Coríntios 3.14: “Na lição do Velho Testamento”, embora Paulo provavelmente queria aludir à lei, a base do antigo concerto, em vez de todo o volume da Escritura hebraica. Os termos “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”, nomeados para as duas coleções de livros, entraram no uso geral entre os cristãos na última parte do século II. Tertuliano traduziu diathéke para o latim por instrumentum (um documento legal) e também por testamentum. Infelizmente, foi a última palavra que vingou, considerando-se que as duas partes da Bíblia não são “testamentos” no sentido ordinário do termo.
O Antigo Testamento
Na Bíblia hebraica, os livros estão dispostos em três divisões: a Lei, os Profetas e os Escritos. A Lei abrange o Pentateuco, os cinco “livros de Moisés”. Os Profetas desdobram-se em duas subdivisões: os “Primeiros Profetas”, compreendendo Josué, Juízes, Samuel e Reis; e os “Últimos Profetas”, abarcando Isaías, Jeremias, Ezequiel, e “O Livro dos Doze Profetas”. Os Escritos contêm o restante dos livros: primeiro, Salmos, Provérbios e Jó; depois, os cinco “Rolos”, a saber, Cantares de Salomão, Rute, Lamentações de Jeremias, Eclesiastes e Ester; e, finalmente, Daniel, Esdras-Neemias e Crônicas. O total é tradicionalmente computado em 24, mas esses 24 correspondem exatamente ao nosso cômputo comum de 39, visto que no último cálculo os Profetas Menores são contados como 12 livros, e Samuel, Reis, Crônicas e Esdras-Neemias, como dois livros cada. Na Antiguidade, havia outras maneiras de contar os mesmos 24 livros. Em uma dessas maneiras (atestada por Josefo), o total descia para 22; em outra (conhecida por Jerônimo), subia para 27.
A origem da organização dos livros na Bíblia hebraica não pode ser rastreada. Acredita-se que a divisão em três partes corresponda às três etapas nas quais os livros receberam reconhecimento canônico, mas não há evidências diretas sobre isso.
Na Septuaginta, os livros estão arranjados de acordo com a similaridade de assuntos. O Pentateuco é seguido pelos livros históricos, que são sucedidos pelos livros poéticos e sapienciais, vindo por último os livros proféticos. É essa ordem que, em suas características essenciais, foi perpetuada (via Vulgata) na maioria das edições cristãs da Bíblia. Em certos aspetos, essa seqüência é mais condizente com a ordem cronológica dos conteúdos da narrativa do que com a da Bíblia Hebraica. Rute, por exemplo, aparece imediatamente depois de Juízes (visto que relata fatos ocorridos “nos dias em que os juízes julgavam”), e o trabalho do cronista aparece na seqüência Crônicas-Esdras-Neemias.
A divisão em três partes da Bíblia hebraica está refletida na redação de Lucas 24.44 (“na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos”). Mais comumente, o Novo Testamento refere-se à “Lei e os Profetas” (vide Mt 7.12) OU A “Moisés e os Profetas” (vide Lc 16.29).
A revelação divina desses registros do Antigo Testamento foi transmitida de duas maneiras principais – por obras poderosas e por palavras proféticas. Esses dois modos de revelação estão ligados indissoluvelmente entre si. Os atos de misericórdia e julgamento, pelos quais o Deus de Israel se fez conhecido ao povo do seu concerto, não teriam transmitido sua mensagem apropriada se não tivessem sido interpretadas pelos profetas – os “porta-vozes” de Deus, que receberam e comunicaram sua Palavra. Por exemplo, os acontecimentos do Êxodo não teriam adquirido seu permanente significado para os israelitas se Moisés não lhes tivesse dito que, por meio desses acontecimentos, o Deus de seus pais estavam agindo para libertá-los, de acordo com suas antigas promessas, de modo que eles podiam ser o seu povo e Ele, o seu Deus. Por outro lado, as palavras de Moisés teriam sido infrutíferas se não estivessem associadas à indicação do povo nos acontecimentos do Êxodo. Semelhantemente, podemos comparar a atuação significativa de Samuel na época da ameaça filistéia, no tempo dos grandes profetas do século VIII a.C., quando a Assíria vencia espetacularmente tudo o que havia pela frente, aos dias de Jeremias e Ezequiel, quando o reino de Judá deixou de existir, e assim por diante.
Essa interação de obras poderosas e palavras proféticas no Antigo Testamento explica por que a história e a profecia estão tão interligadas uma com a outra ao longo de todas as suas páginas. Não há o que duvidar que foi alguma percepção a esse respeito que levou os judeus a incluírem os principais livros históricos entre os Profetas. Mas, de fato, não apenas os escritos do Antigo Testamento registram ao mesmo tempo a resposta dos homens à revelação de Deus – uma resposta às vezes obediente, mas na grande maioria das vezes desobediente. No registro da resposta daqueles a quem veio a palavra de Deus no Antigo Testamento, o Novo Testamento proporciona instruções práticas para os cristãos. Sobre a rebelião dos israelitas no deserto e os eventos desastrosos que se seguiram, Paulo escreve: “Ora, tudo isso lhes sobreveio como figuras [exemplos], e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Co 10.11).
Com relação ao seu lugar na Bíblia cristã, o Antigo Testamento, em essência, é introdutório: o que Deus antigamente falou aos pais pelos profetas esperou por seu cumprimento naquilo que nos foi falado pelo Filho (Hb 2.1,2). Não obstante, nos primeiríssimos dias do Cristianismo, o Antigo Testamento era a Bíblia que os apóstolos e outros pregadores do Evangelho levavam consigo quando saíam para proclamar Jesus como o Messias, o Senhor e Salvador divinamente enviado: encontraram em suas páginas testemunho claro sobre Jesus (Jó 5.39) e uma descrição natural do modo de salvação mediante a fé nEle (Rm 3.21; 2 Tm 3.15). Para usar o Antigo Testamento, tinham a autoridade e o exemplo do próprio Jesus. E, desde então, a Igreja sempre tem obtido sucesso, quando segue o precedente estabelecido por Ele e seus apóstolos e reconhece o Antigo Testamento como Escritura cristã. “O que era indispensável para o Redentor, sempre deve ser indispensável para os redimidos” (G. A. Smith).
O Novo Testamento
O Novo Testamento está para o Antigo Testamento na mesma proporção que o cumprimento está para a promessa. Se o Antigo Testamento registra o que Deus falou no passado aos nossos pais pelos profetas, o Novo Testamento registra a palavra final que Ele falou por seu Filho, e em quem todas as mais antigas revelações foram resumidas, confirmadas e transcendidas. As obras poderosas da revelação do Antigo Testamento culminam na obra redentora de Cristo. As palavras dos profetas do Antigo Testamento recebem seu pleno cumprimento nEle. Mas Ele não é apenas a coroa da revelação de Deus aos homens; é também a resposta perfeita do homem a Deus – o apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão (Hb 3.1). Se o Antigo Testamento registra o testemunho daqueles que viram o dia de Jesus antes que começasse, o Novo Testamento registra o testemunho daqueles que o viram e o ouviram nos dias da sua carne, e que vieram a conhecer e proclamaram com maior profundidade o significado da sua vinda, pelo poder do seu Espírito, depois que ressuscitara dos mortos.
Nos últimos 1.600 anos, o Novo Testamento tem sido aceito pela grande maioria dos cristãos como tendo 27 livros, dispostos naturalmente em quatro divisões: (1) os quatro evangelhos, (2) os Atos dos Apóstolos, (3) as 21 cartas escritas pelos apóstolos e “homens apostólicos”, e (4) o Apocalipse. Essa ordem não é apenas lógica, mas quase cronológica, à medida que se leva em conta os assuntos expostos nos documentos. Contudo, não há correspondência com a ordem em que foram escritos.
Os primeiros documentos do Novo Testamento a serem escritos foram as primeiras epístolas de Paulo. Estas (junto, possivelmente, com a epístola de Tiago) foram compostas entre 48 e 60 d.C., antes mesmo que o mais antigo dos Evangelhos fosse escrito. Os quatro evangelhos pertencem às décadas entre 60 e 100 d.C., e é também a esse período que se atribui todos (ou quase todos) os outros escritos do Novo Testamento. Enquanto a composição dos livros do Antigo Testamento se estendeu por um período de mil anos ou mais, os livros do Novo Testamento foram escritos em menos de um século.
Os escritos neotestamentários não foram reunidos na forma como hoje o conhecemos, imediatamente após terem sido escritos. Em princípio, cada um dos evangelhos teve uma existência local e independente nas respectivas comunidades para as quais originalmente cada um foi composto. Entretanto, pelo início do século II, foram reunidos e começaram a circular como um registro quádruplo. Quando isso aconteceu, Atos foi separado de Lucas, com o qual fazia uma obra em dois volumes, e lançado em uma carreira solo, mas não desprovida de sua própria importância.
As epístolas de Paulo foram primeiramente preservadas pelas comunidades ou indivíduos aos quais foram enviadas. Mas encontramos evidência que, pelo fim do século I, sugerem que sua subsistente correspondência começou a ser reunida em um corpus paulino, o qual rapidamente passou a circular entre as igrejas – primeiro, como um corpus mais curto composto de dez epístolas e, logo a seguir, um maior, compreendendo 13 epístolas, aumentando pela inclusão das três epístolas pastorais. Dentro do corpus paulino, as epístolas parecem ter sido organizadas não em sua seqüência cronológica, mas na ordem decrescente em termos de tamanho. Esse princípio ainda hoje pode ser reconhecido na ordem encontrada na maioria das edições do Novo Testamento: as epístolas às igrejas vêm antes das epístolas pessoais, e dentro destas duas subdivisões estão arranjadas de maneira que as mais longas vêm por primeiro e as mais curtas por último (a única exceção a esse esquema é Gálatas, que vem antes de Efésios, embora Efésios seja a epístola ligeiramente mais longa entre as duas).
Com a reunião dos evangelhos e o corpus paulino, e servindo Atos como elo de ligação entre os dois, temos o início do cânon do Novo Testamento como hoje o conhecemos. A Igreja Primitiva, que herdou a Bíblia hebraica (ou a versão grega da Septuaginta) como Escrituras Sagradas, não tardou em colocar os novos escritos evangélicos e apostólicos ao lado da Lei e dos Profetas e usá-los para a propagação e defesa do Evangelho e no culto cristão. Desse modo, Justino Mártir, em meados do século II, descreve como os cristãos, em suas reuniões dominicais, liam “as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas” (Apologia 1.67). Foi natural, então, que quando o Cristianismo se espalhou entre os povos que falavam outros idiomas que não o grego, o Novo Testamento fosse traduzido do grego para aquelas línguas, em benefício dos novos convertidos. Por volta de 200 d.C., já havia versões latinas e siríacas do Novo Testamento e, no século que se seguiu, existia uma versão cóptica.
A Mensagem da Bíblia
A Bíblia tem desempenhado, e continua a desempenhar, uma função extraordinária na história da civilização. Muitas línguas foram postas pela primeira vez na forma escrita para que a Bíblia, no todo ou em parte, pudesse ser traduzida para essas línguas. E isso não é senão uma pequena amostra da missão civilizadora da Bíblia no mundo.
Essa missão civilizadora é o efeito direto da mensagem central da Bíblia. Pode parecer surpreendente que se fale em uma mensagem central numa coleção de escritos que reflete a história da civilização no Oriente Próximo ao longo de alguns milênios. Mas há uma mensagem central, e é o reconhecimento desse fato que tem levado a Bíblia a ser tratada comumente como um livro, e não como uma coleção de livros – assim como a palavra grega plural biblia (“livros”) tornou-se no termo latino singular biblia (“o livro”).
A mensagem central da Bíblia é a história da salvação e, ao longo de ambos os Testamentos, podem ser distinguidos três elementos comuns nessa história reveladora: aquEle que traz a salvação, o meio de salvação e os herdeiros da salvação. Isso poderia ser reformulado sob o aspecto da idéia do concerto, dizendo que a mensagem central da Bíblia é o concerto de Deus com os homens e que os elementos comuns são: o Mediador do concerto, a base do concerto e o povo do concerto. Deus mesmo é o Salvador do seu povo; é Ele que confirma seu concerto de misericórdia com o povo. Quem traz a salvação, o Mediador do concerto, é Jesus Cristo, o Filho de Deus. O meio de salvação, a base do concerto, é a graça de Deus, que exige de seu povo uma resposta de fé e obediência. Os herdeiros da salvação, o povo do concerto, são o Israel de Deus, a Igreja de Deus.
A continuidade do povo do concerto, proveniente do Antigo Testamento para o Novo, está oculta para o leitor comum da Bíblia em português, porque “igreja” é uma palavra exclusiva do Novo Testamento e, naturalmente, esse leitor considera que isso é algo que começou no período do Novo Testamento. Mas o leitor da Bíblia grega não foi confrontado por nenhuma palavra nova quando achou ekklesia no Novo Testamento. Já a havia encontrado na Septuaginta como uma das palavras usadas para indicar Israel como a “congregação” do povo do Senhor. Certamente há um novo e mais profundo significado no Novo Testamento. O povo do antigo concerto teve de morrer com Ele, a fim de ser ressuscitado com Ele para uma nova vida – uma nova vida na qual as restrições nacionais haviam desaparecido. Jesus fornece em si mesmo a continuidade vital entre o antigo e o novo Israel, e seus seguidores fiéis são não apenas o remanescente justo do antigo Israel, mas também o núcleo do novo. O Servo do Senhor e seus servos unem os dois Testamentos num só.
A mensagem da Bíblia é a mensagem de Deus para o homem, comunicada “muitas vezes e de muitas maneiras” (Hb 1.1) e finalmente encarnada em Jesus. Por conseguinte, “a autoridade da Santa Escritura, a qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de algum homem ou igreja, mas inteiramente de Deus (que é a própria verdade), e seu autor; e, portanto, deve ser recebida, porque é a Palavra de Deus” (Confissão de Fé de Westminster, 1.4).
O próximo artigo desta série é A AUTORIDADE DA BÍBLIA
Sábado, Julho 29, 2006
A Bíblia - A Autoridade da Bíblia
Este é o 2º artigo da série A Bíblia. O primeiro é:
A Autoridade da Bíblia
A civilização ocidental atravessa uma severa “crise de autoridade”, não se restringindo apenas ao campo da fé nem ameaçando especial ou unicamente os crentes. A autoridade paterna, a autoridade conjugal, a autoridade política, a autoridade acadêmica e a autoridade eclesiástica estão sendo impiedosamente questionadas. Não somente determinados tipos de autoridade – a autoridade das Escrituras, do papa, dos governantes etc. -, mas o próprio conceito de autoridade está sendo fortemente desafiado. Assim, a crise dos dias de hoje relacionada à autoridade bíblica espelha um escasso consenso civilizacional em assuntos que dizem respeito à soberania e submissão.
Em certos aspectos, o contemporâneo questionamento da autoridade tem uma legítima base moral e é altamente louvável. O século XX testemunhou a ascensão de déspotas cruéis e arbitrários, que impuseram ditames totalitários em cidadãos politicamente escravizados. Nos Estados Unidos, o poder político foi mal empregado durante e assim chamada era Watergate. O poder das corporações foi manipulado para se obter vantagens institucionais, não só por enormes conglomerados, mas também por grandes sindicatos trabalhistas.
Revolta contra a Autoridade Bíblica
Juiz de homens e nações, o Deus que a si mesmo se revelou exerce ilimitada autoridade e poder. Toda autoridade e poder dos seres criados provém de Deus. Como Criador soberano de tudo, o Deus da Bíblia deseja e tem o direito de ser obedecido. O poder que Deus outorga é uma confiança divina, uma mordomia. Os seres criados por Deus são moralmente responsáveis pelo uso ou abuso dessa outorga. Na sociedade de seres humanos caídos, Deus controla o governo civil para a promoção da justiça e da ordem. Ele aprova uma ordem de relacionamentos autoritários e criativos nas famílias, estipulando certas responsabilidades aos maridos, esposas e filhos. Também determina um padrão de prioridade para a Igreja: Jesus Cristo, o cabeça, profetas e apóstolos, pelos quais veio a revelação da redenção, e assim por diante. As inspiradas Escrituras, revelando a vontade transcendente de Deus em forma escrita e objetiva, são a regra da fé e conduta através da qual Jesus exerce sua autoridade divina na vida do crente.
Em nossos dias, a revolta contra determinadas autoridades tem se expandido para uma rebeldia contra toda autoridade transcendente externa. O atual questionamento de autoridade é tolerado e promovido em muitos círculos acadêmicos. Filósofos com uma perspectiva radicalmente secular afirmam que Deus e o sobrenatural são concepções míticas, que os processos e eventos naturais abrangem somente a realidade final. Dizem que toda existência é temporal e mutável; declaram que todas as crenças e ideais são relativos à época e cultura nas quais surgem. Asseveram, portanto, que a religião cristã, como todas as outras, é meramente um fenômeno cultural. As afirmações bíblicas de autoridade divina são rejeitadas por tais pensadores. A revelação transcendente, as verdades estabelecidas e os mandamentos imutáveis são descartados como ficção devota.
Em nome da suposta “idade madura” do homem, o secularismo radical advoga a autonomia humana e a individualidade criativa. Dizem que o homem é senhor de si mesmo e o inventor dos seus próprios ideais e valores. Habita em um universo que supostamente foi feito sem objetivo, que se presume tenha se engendrado a si mesmo por meio de um acidente cósmico. Portanto, declara-se que os seres humanos são inteiramente livres para impor na natureza e na História qualquer critério moral que preferirem. Sob tal ótica, insistir em verdades e valores concedidos por Deus, em princípios transcendentes, seria reprimir a realização pessoal e retardar o desenvolvimento criativo de cada ser. Desse modo, a visão radicalmente secular vai além do opor-se a determinadas autoridades externas, cujas reivindicações são consideradas arbitrárias ou imorais. O secularismo radical é agressivamente hostil e toda autoridade externa e objetiva, encarando-a como intrinsecamente restritiva ao espírito humano autônomo.
Qualquer leitor da Bíblia reconhece a rejeição da autoridade divina e a recusa de uma revelação definitiva do que é certo e bom como um fenômeno antiqüíssimo. Absolutamente não é peculiar ao homem contemporâneo o ímpeto de querer “atingir a maioridade”. Tal impulso já se encontrava no Éden. Adão e Eva se revoltaram contra a vontade de Deus em busca da preferência individual e do interesse pessoal. Mas sua revolta foi reconhecida como pecado, e não racionalizada como “gnosis” filosófica à beira de um avanço evolutivo.
Se alguém aceita um ponto de vista estritamente evolucionário, o qual considera toda realidade contingente e mutável, que base resta para o papel decisivamente criativo da humanidade no Universo? De que forma um cosmos sem objetivo serve de instrumento à própria realização pessoal? Somente a alternativa bíblica de um Deus Criador e Redentor, que talhou os seres humanos para a obediência moral e um elevado destino espiritual, preserva de fato a dignidade permanente e universal da espécie humana. Não obstante, a Bíblia proporciona tal possibilidade mediante a exigente convocação a uma decisão pessoal e espiritual. A Bíblia declara a superioridade do homem em relação aos animais, sua posição superior (“por um pouco, menor do que Deus”, Sl 8.5, ARA [Almeida Revista e Atualizada]), por causa da imagem divina, racional e moral, que tem por criação. No contexto do envolvimento universal da humanidade do pecado de Adão, a Bíblia profere um misericordioso chamamento divino à renovação redentora, mediante a pessoa e a obra conciliatória de Cristo. A humanidade caída é convidada a experimentar a obra de restauração do Espírito Santo, para ser conformada à imagem de Jesus Cristo e antecipar um destino definitivo na eterna presença do Deus da justiça e justificação.
A rejeição contemporânea dos princípios bíblicos não se apóia em qualquer demonstração lógica, a fim de que os argumentos para o teísmo bíblico sejam falsos. Antes, gira em torno de uma preferência subjetiva por pontos de vista alternativos do que seja “a boa vida”.
A Bíblia não é o único lembrete importante que afirma que os seres humanos encontram-se diariamente em posição de relacionamento responsável para com o Deus soberano. O Criador exibe sua autoridade no cosmos, na História e na consciência interior, uma revelação do Deus vivo que permeia a mente de todo ser humano (Rm 1.18-20; 2.12-15). A supressão rebelde dessa “genérica revelação divina” não é bem-sucedida em fazer cessar por completo o senso de temor da derradeira responsabilidade divina (Rm 1.32). Contudo, é a Bíblia, como “revelação especial”, que de modo mais claro confronta nossa corrida espiritualmente rebelde com a realidade e autoridade de Deus. Nas Escrituras, o caráter e a vontade de Deus, o significado da existência humana, a natureza do reino espiritual e os propósitos de Deus para os seres humanos de todas as épocas estão expostos de forma propositadamente inteligível, de sorte que todos podem compreender. A Bíblia proclama de maneira objetiva os critérios pelos quais Deus julga as pessoas e as nações, e os meios para a recuperação moral e a restauração à comunhão pessoal com Ele.
Levar a Bíblia em consideração é, portanto, decisivo para o curso da cultura ocidental e, com o decorrer do tempo, para a civilização humana em geral. A revelação divina inteligível – a base da crença na autoridade soberana do Deus Criador e Redentor sobre toda vida humana – jaz na confiabilidade do que a Escritura diz acerca de Deus e seus propósitos. O naturalismo moderno refuta a autoridade bíblica e ataca a afirmação de que a Bíblia é a Palavra escrita de Deus, ou seja, que é uma revelação transcendente da mente e vontade de Deus em uma forma objetiva de literatura. A autoridade escriturística é o foco da polêmica tanto na controvérsia a respeito da religião revelada quanto no conflito moderno relacionado com os valores civilizacionais.
A Alta Crítica
No século XX, a discussão da autoridade bíblica tem sido toldada por afirmações impetuosas feitas por críticos não evangélicos em favor da alta crítica e por declarações extravagantes promulgadas por polemistas evangélicos sobre o que a autoridade escriturística exige e em que ela implica.
O ceticismo em relação à confiabilidade das Escrituras parece ainda subsistir em muitos círculos acadêmicos, a despeito dos repetidos colapsos das teorias críticas. Ainda há quem esteja disposto a confiar nos escritores seculares, cujas credenciais em fornecer testemunho histórico são, freqüentemente, menos adequadas que as dos escritores bíblicos. Não faz muito tempo que vários eruditos rejeitavam a historicidade das narrativas patriarcais, negavam que os escritos existissem nos dias de Moisés e atribuíam os evangelhos e as epístolas a escritores do século II. Mas a alta crítica proporcionou alguns reversos espetaculares e até mesmo atordoantes, principalmente através de achados arqueológicos. Já não há mais sustentação para afirmar que as glórias da época do rei Salomão sejam uma fabricação literária, que “Jeová”, o Deus redentor dos hebreus, fosse desconhecido antes dos profetas do século VIII, ou que a exposição de fatos feita por Esdras acerca do cativeiro babilônico seja imaginária. Os arqueólogos localizaram as minas de cobre dos dias de Salomão que há muito estavam perdias. Tabuinhas de argila encontradas em Ebla, perto de Alepo, confirmam que nomes parecidos com os dos patriarcas eram comuns entre os povos que viviam em Ebla pouco tempo antes que acontecessem os eventos registrados nos últimos capítulos de Gênesis.
John T. Robinson, crítico do Novo Testamento, admitiu em Redating the New Testament (1906), que a última datação dos livros do Novo Testamento feita pelos críticos não é nem um pouco convincente. Robinson argumentou que o fato de os evangelhos e as epístolas não mencionarem a destruição do templo em 70 d.C., é prova de que os escritos foram feitos antes, pois do contrário essa reviravolta nos acontecimentos teria sido usada apologeticamente pelos escritores. Entretanto, seria melhor chegar a datas de composição partindo daquilo que os escritores ensinam e de quem eles são, em vez de se basear no que os escritos não contêm. Também não é de bom tom ser guiado primariamente por uma suposta motivação apologética que sustente tais composições.
Há muito que o ponto de vista “documentário” das Escrituras é considerado pelos eruditos não-evangélicos como a conquista mais firmemente estabelecida da crítica literária e histórica. A teoria de que as narrativas do Antigo Testamento são produto da “redação” de editores que combinaram relatos distintos em uma única narrativa tem tido – até recentemente – apoio de quase todos os prestimosos eruditos do Antigo Testamento fora dos círculos evangélicos. Mas a teoria também conhecida como “hipótese documentária” ou “J-E-P-D” (cada letra representando um suposto documento), tem estado sob contestação em termos de montagem. Umberto Casuto (1883-1951), que mantinha a cátedra da Bíblia na Universidade Hebraica de Jerusalém, repudiou a prevalecente noção dos críticos de que as narrativas bíblicas obtiveram sua unidade através da redação literária (edição), mas reteve as datas relativamente tardias para a completação do Pentateuco e do livro de Isaías (Biblical and Oriental Studies, publicado postumamente, 1973). Em entrevista concedida à revista Christianity Today, em 1959, Cyrus H. Gordon, destacado erudito judaico, rejeitou a idéia de que o uso de Elohim e Jeová, como nomes divergentes para Deus implica em diferentes fontes literárias (“Higher Critics and Forbidden Fruit”).
Recentes pesquisas lingüísticas apóiam o argumento de que variações no estilo refletem o andamento e a disposição de espírito das narrativas, sendo menos provável que sejam identificadoras de supostos redatores. Robert Longacre arrazoou que “a suposição de divergentes fontes documentárias”, como por exemplo na história do dilúvio, é desnecessária e “obscurece em muito a estrutura verdadeiramente elegante da história”. Assim, pontos de vista críticos mais antigos que atribuem os ensinamentos das Escrituras não aos beneficiários originalmente nomeados da revelação divina, mas a redatores editoriais tardios, estão se colocando a si próprios sob nova crítica. Além disso, Bernard Childs argumentou persuasivamente contra a interpretação de que existem por detrás dos escritos canônicos fontes mais antigas e mais confiáveis, que os escritores bíblicos mitificaram no interesse do culto hebraico.
A Interpretação Bíblica de Si Mesma
A natureza inteligível da revelação divina – a pressuposição de que a vontade de Deus é revelada na forma de verdades válidas – é a pressuposição central da autoridade bíblica. Grande parte da recente teologia neoprotestante degradou a tradicional ênfase evangélica, tachando-a de visionária e estática. Antes, insistiu que a autoridade da Escritura deve ser experimentada internamente como testemunha da graça divina que engendra fé e obediência, desconhecendo desse modo seu caráter objetivo como verdade universalmente válida. Um tanto quanto inconsistentemente, a quase totalidade dos teólogos neoprotestantes apela para o registro, a fim de apoiar cognitivamente quaisquer fragmentos do todo que pareçam coincidir com suas opiniões divergentes, apesar de rejeitarem a Bíblia como corpus especialmente revelado dos autoritários ensinamentos divinos. Para a ortodoxia evangélica, se a revelação de Deus a profetas e apóstolos escolhidos tem de ser considerada significativa e real deve ser dada não meramente em conceitos isolados capazes de significados diversos, mas também em orações ou proposições. Uma proposição – isto é, um sujeito, predicado e verbo de ligação (ou “cópula”) – constitui a menor unidade lógica da comunicação inteligível. Caracteristicamente, a fórmula profética veterotestamentária “Assim diz o Senhor”, introduzia uma verdade relativa à proposição revelada. Jesus Cristo empregava a fórmula distintiva “Eu, porém, vos digo” para apresentar sentenças logicamente formadas, as quais afirmam ser palavras ou doutrinas verdadeiras de Deus.
A Bíblia é autoritária, porque é divinamente autorizada; nas suas palavras: “Toda Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3.16, ARA). De acordo com essa passagem, todo o Antigo Testamento (ou qualquer trecho dele) é inspirado por Deus. A validade dessa reivindicação para o Novo Testamento não é expressamente declarada, mas também não é implicada de forma clara. O Novo Testamento contém indicações de que seu conteúdo deve ser encarado, e de fato o era, como não tendo menos autoridade do que o Antigo Testamento. Os escritos do Apóstolo Paulo são catalogados com “as outras Escrituras” (2 Pe 15, 16). Sob o título “Escrituras”, 1 Timóteo 5.18 cita Lucas 10.7 ao lado de Deuteronômio 25.4 (compare 1 Co 9.9). Além disso, o Apocalipse reivindica origem divina (Ap 1.1-3) e emprega o termo “profecia” no sentido do Antigo Testamento (Ap 22.9, 10, 18). Os apóstolos não faziam distinção entre seus ensinamentos falados e escritos, mas expressamente declaravam sua proclamação inspirada como Palavra de Deus (1 Co 4.1; 2 Co 5.20; 1 Ts 2.13). (Vide artigo “A Inspiração da Bíblia” a ser publicando na próxima semana).
A Questão da Inerrância
A doutrina da autoridade bíblica tem sido subvertida por ataques em sua confiabilidade histórica e científica e por presumivelmente delinear seus ensinamentos de acordo com falíveis fontes humanas. Além disso, vez por outra, a doutrina é desnecessariamente toldada por radicais apologistas conservadores, que exageram o que a autoridade bíblica pressupõe e demanda. Alguns eruditos conservadores repudiam toda crítica histórica como hostil à autoridade bíblica e distinguem os cristãos “verdadeiros” dos “falsos” baseando-se no compromisso à “inerrância bíblica”. Se alguém aceita a “plena” inspiração divina da Escritura – isto é, a superintendência de Deus no todo -, então, indubitavelmente, a doutrina da autoridade bíblica implica em “inerrância” de conteúdo. Mas a fé cristã mal pode esperar para expor suas declarações mediante o repúdio à crítica histórica. Fazer isso implicaria que, a fim de sustentar sua posição, teria de recorrer a interpretações não-críticas da história. À “alta crítica”, a qual é por muitíssimas vezes perseguida com pressuposições arbitrárias que promovem conclusões injustificáveis, o crente deve responder com crítica sã, que seja bem-sucedida em legitimar as suposições e conceder vereditos defensíveis.
O cristianismo evangélico deveria advogar a inerrância das Escrituras como um compromisso teológico sadio, algo que seja consistente com o que a Bíblia diz acerca de si mesma. Mas não precisa repudiar a integridade cristã de todos os que não compartilhem desse compromisso, nem considerá-los como desesperadamente apóstatas. J. Gresham Machen, brilhante apologista evangélico das décadas de 1920 e 1930 e fiel defensor da inerrância escriturística, escreveu que a doutrina da inspiração plenária “é negada não apenas pelos adversários liberais do Cristianismo, como também por muitos cristãos verdadeiros... por muitos da igreja moderna... que aceitam a mensagem central da Bíblia e, não obstante, acreditam que a mensagem chegou até nós tão-somente pela autoridade de testemunhas fidedignas, que não foram ajudadas em sua obra literária por alguma direção sobrenatural do Espírito de Deus. Há muitos que crêem que a Bíblia é verdadeira em seu tema central, em sua narrativa da obra de redenção de Cristo, e ao mesmo tempo acreditam que ela contém muitos erros. Tais pessoas não são na verdade liberais, mas cristãos, porque aceitam como verdadeira a mensagem sobre a qual o Cristianismo se apóia” (Christianity and Liberalism, p. 75).
Contudo, o próprio Machen nunca titubeou em sua convicção de que a Bíblia inteira deve ser considerada “o âmago da autoridade”. Estava convencido de que a doutrina da inerrância evita a instabilidade no expor a doutrina autoritária e os princípios morais. Insistia que uma interpretação “conciliatória” da Bíblia não é sustentável. Os “modernistas”, que afirmam honrar a autoridade de Jesus Cristo em vez da autoridade das Escrituras, contradizem os ensinamentos de Jesus, visto que Jesus sustentava uma alta opinião a respeito das Escrituras. Além disso, a completa explanação da vida e obra de Jesus dependia de sua crucificação, ressurreição e ministério celestial, e era atribuída à inspiração do Espírito Santo nos apóstolos. É ilógico selecionar e escolher entre os ensinamentos efetuados por Jesus durante seu ministério terreno, somente aqueles elementos que servem às pressuposições de quem quer que seja. No final das contas, a rejeição da plena fidedignidade das Escrituras pode levar alguém a atribuir a Jesus um propósito de vida diferente do exposto na Bíblia, qual seja, que Ele morreu e ressuscitou corporeamente, a fim de ser a fonte do perdão divino para os pecadores.
A posição evangélica histórica é resumida nas palavras de Frank E. Gaebelein, editor geral de The Expositors’ Bible Commentary. No prefácio desse comentário, Gaebelein fala sobre um “evangelicismo erudito, [que foi] comissionado à inspiração divina, à completa fidedignidade e à plena autoridade da Bíblia”. A Escritura é autoritária e completamente digna de confiança, porque é divinamente inspirada. O teólogo luterano Francis Pieper correlaciona diretamente a autoridade da Bíblia com sua inspiração: “A autoridade divina das Escrituras baseia-se somente em sua natureza, em seu theopneustos”, isto é, em sua característica como “inspirada por Deus”. J. I. Packer comenta que todo compromisso com a autenticidade da Bíblia deve, ao mesmo tempo, ser considerado como um compromisso com sua autoridade. “Afirmar a inerrância e infalibilidade da Bíblia é o mesmo que confessar fé (i) na origem divina da Bíblia e (ii) na autenticidade e fidedignidade de Deus. O valor desses termos está em que conservam os princípios da autoridade bíblica; pois declarações que não são absolutamente verdadeiras e confiáveis também não podem ser absolutamente autoritárias”. Packer reforça esse argumento ao demonstrar que Jesus, os apóstolos e a Igreja Primitiva concordavam que o Antigo Testamento era não apenas totalmente digno de confiança, mas também autoritário. Sendo um comprimento do Antigo Testamento, o Novo Testamento não tinha menos autoridade. Jesus delegou aos discípulos a sua própria autoridade nos ensinamentos que faziam, de modo que a Igreja Primitiva aceitou o que ensinavam. Como revelação de Deus, a Escritura permanece acima dos limites da afirmação humana.
Novos Desafios
Em recentes debates, a autoridade das Escrituras é comprometida por alguns eruditos, mediante sua disposição em fazer concessões à infiltração de ensinamentos culturalmente dependentes. Algumas das declarações do apóstolo Paulo acerca das mulheres e suas interpretações sobre o reajuntamento de Israel na Palestina são rejeitadas como reflexos de ensinamentos rabínicos da época e, por conseguinte, como provas da visão culturalmente limitada de Paulo. Em alguns pontos, os ensinamentos bíblicos obviamente coincidem com a tradição judaica. Mas, onde a tradição hebraica foi elevada a uma norma considerada superior às Escrituras ou as modificou e violou, Jesus foi crítico com essa tradição. Que Paulo possa em alguns pontos ter ensinado o que também era ensinado pela tradição historicamente enraizada no Antigo Testamento não prova nada; em outros pontos, verificamos que o apóstolo foi crítico ferrenho da tradição rabínica.
O ponto de vista evangélico sempre foi que aquilo que os inspirados escritores bíblicos ensinavam era conhecido não como proveniente da mera tradição, mas como inspirado por Deus. Na proclamação que faziam, tinham a mente do Espírito para distinguir o que era divinamente aprovado ou desaprovado na tradição vigente. É, portanto, uma perspectiva mais do que sadia falar de elementos sobre os quais a tradição judaica retratou a revelação profética e de elementos sobre os quais se afastou dela. Uma vez que o princípio da “dependência da cultura” é introduzida no conteúdo dos ensinamentos escriturísticos, é difícil estabelecer critérios objetivos para distinguir entre o que é supostamente autoritário e o que não é autoritário na doutrina apostólica. Por isso, as interpretações de Paulo sobre homossexualismo poderiam ser consideradas como culturalmente nocivas, assim como suas interpretações da autoridade hierárquica ou em relação à autoridade das Escrituras.
Em um desenvolvimento mais abrangente, alguns eruditos modernos procuram atribuir às Escrituras somente uma autoridade “funcional”, como um estimulante que transforma a vida interior, descartando sua autoridade conceptual e proposicional. Recentes teólogos neoprotestantes – por exemplo, Karl Barth, Rudolf Bultmann, Paul Tillich e Fritz Buri – associam o suposto aspecto autoritário das Escrituras a elementos radicalmente divergentes e até mesmo contraditórios. Todos eles partem do histórico ponto de vista evangélico (exposto, por exemplo, por B. B. Warfield, em The Inspirantion and Authority for the Bible, 1948), de que a autoridade das Escrituras está concentrada em sua exposição das verdades divinamente reveladas, as quais constituem a regra da fé e dos princípios morais. A perspectiva “funcional”, considerada por David H. Kelsey em The Uses of Scripture in Recent Theology (1975), rejeita a finalidade de qualquer uma das perspectivas divergentes e as aceita igualmente (não importando o quão conflitantes e contraditórias possam ser). Alegações em favor da autoridade externa estão subordinadas em uma suposta autoridade interna, que dinamicamente altera a vida da comunidade da fé. A despeito de sua declaração de não discriminar as perspectivas divergentes, é claro que tal teoria tem de explicitamente excluir a tradicional ênfase evangélica nas verdades objetivas da Bíblia. Mas, considerando que a validade dos ensinamentos bíblicos se perdeu no todo e em parte, nenhuma razão persuasiva permanece pelo qual uma vida pessoal possa ser absolutamente transformada. Uma vida pode ser transformada em padrões alternativos e até mesmo expressamente opostos, ou conformada às vezes de uma forma e às vezes de outra, ou ainda transformada em correlação a idéias derivadas de fontes não-cristãs ou anticristãs tão prontamente quanto em correlação a idéias provenientes da Bíblia.
O tema da autoridade bíblica mal pode ser divorciado do interesse na validade racional e na realidade histórica das Escrituras. Mas os evangélicos asseveram que a autoridade da Bíblia é divina; nem todas as verdades e declarações historicamente precisas enquadram-se nessa categoria. A Escritura é autoritária, porque é a Palavra de Deus. Os profetas e apóstolos escolhidos, alguns deles chamados por Deus a despeito de suas próprias indiferenças ou mesmo hostilidade – por exemplo, o profeta Jeremias e o apóstolo Paulo -, testificam que a verdade de Deus tornou-se possessão deles por inspiração divina. A religião judaico-cristã está baseada na revelação e redenção históricas. Ao invés de demonstrar indiferença aos problemas históricos, a Bíblia sustenta uma nítida visão da história linear, alienígena às antigas religiões e filosofias.
Algumas Conseqüências da Rejeição
As suposições básicas do secularismo moderno embotam, antes de tudo, a força pessoal de muitas das históricas reivindicações cristãs. Como conseqüência, a juventude é tentada, sobretudo na idade moralmente permissiva, a descartar como superstição as declarações especiais em favor das Escrituras. Mesmo os cristãos mais velhos às vezes mostram um certo desconforto no que diz respeito à Bíblia: pode ser que se submetam a muitos de seus perspicazes julgamentos éticos, mas estão culturalmente condicionados a encarar alguma de suas afirmações de autoridade com grande reserva. A linguagem bíblica pode soar estranha aos ouvidos modernos, e a própria idéia de escritos revelados ou inspirados sobrenaturalmente pode parecer um eco historicamente condicionado. Vivendo quase dois mil anos depois dos dias de Jesus de Nazaré, alguns pensadores contemporâneos tendem a rejeitar as ousadas afirmações de autoridade das Escrituras encontradas nas históricas confissões cristãs como pré-críticas, não críticas ou arcaicas. Para eles, pode parecer contrário ao modo contemporâneo ou até mesmo repulsivo reconhecer as Escrituras como regra divina de fé e conduta. Nenhum dogma da tradição religiosa herdada sofre mais abusos do que a afirmação da autoridade plena da Bíblia. Não é incrível que uma literatura traduzível em algo em torno de 770 mil palavras, publicável em mil páginas pequenas e reduzível fotograficamente a um minúsculo negativo possa ser considerado pelos cristãos como a Palavra de Deus?
Contudo, é evidente, pela história da teologia e da filosofia, que os esforços em preservar a realidade do Deus vivo, Criador e Redentor, desvinculada da autoridade da palavra escriturística sempre irão titubear. Mesmo a teologia neo-ortodoxa do “embate divino”, que deu ênfase real à distintiva e interpessoal auto-revelação de Deus, logo se esvaziou em alternativas existencialistas e, por fim, na especulação da morte de Deus. O Deus trino é na verdade a “premissa ontológica”, na qual se fundamenta a histórica fé cristã; porém, os argumentos em favor do teísmo bíblico parecem requerer sua revelação definitiva na Palavra inspirada das Escrituras.
A autoridade das Escrituras é freqüente e desnecessariamente enodoada por acréscimos à Bíblia, advindas de todo o tipo de autoridades secundárias e terciárias – livros apócrifos, tradição eclesiástica e interpretação de rituais. Nos primeiros séculos, eruditos conciliatórios às vezes revisavam certas doutrinas bíblicas e críticos mais radicais rejeitavam completamente qualquer artigo de fé que colidisse com o feitio da época em que viviam. Em nosso próprio século, tais alterações cumulativas, correlacionadas com uma perspectiva naturalística da realidade, atingiram um clímax. Em alguns lugares, a histórica ênfase cristã na autoridade bíblica foi totalmente repudiada. Regimes oficialmente ateístas em países comunistas, por exemplo, alistam todos os recursos políticos e acadêmicos a fim de solapar uma visão teísta. Mesmo após terem assinado a Declaração de Direitos Humanos das Nações Unidas, continuam a reprimir o testemunho e o evangelismo cristãos, penalizando aqueles que, sem fazer críticas, não apóiam o estado de absolutismo e, na melhor das hipóteses, permitindo apenas uma distribuição simbólica da Bíblia. Em outras partes do mundo, ataques contra a autoridade bíblica feitos por eruditos críticos desencadearam dúvidas em muitas influentes comunidades acadêmicas.
O Poder da Palavra de Deus
Não obstante, a Bíblia continua sendo o livro mais extensivamente impresso, o mais largamente traduzido e o mais freqüentemente lido em todo o mundo. Suas palavras são entesouradas nos corações de multidões como nenhumas outras. Todos aqueles que recebem seus dons de sabedoria e promessas de nova vida e poder eram, em princípio, estranhos à sua mensagem de redenção, sendo que muitos eram hostis aos seus ensinamentos e exigências espirituais. Em todas as gerações, evidencia-se seu poder de desafiar as pessoas de todas as raças e nações. Aqueles que apreciam a Bíblia – porque sustenta a esperança futura, dá sentido e poder para o presente e correlaciona um passado mal vivido com a graça perdoadora de Deus – não estariam experimentando tais recompensas interiores se as Escrituras não fossem aceitas por eles como a verdade autoritária e divinamente revelada. Para o crente, a Escritura é a Palavra de Deus dada na forma objetiva das verdades proposicionais por meio de profetas e apóstolos divinamente inspirados, e o Espírito Santo é o Doador da fé mediante essa Palavra.
Carl F. H. Henry
A Inspiração da Bíblia
BÍBLIA – ORIGENS, INSPIRAÇÃO E CANONICIDADE
A Inspiração da Bíblia
A palavra “inspiração” vem do latim e é a tradução do termo grego theópneustos de 2 Timóteo 3.16, que na ARC (Almeida Revista e Corrigida), temos assim traduzido: “Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”. “Inspirado por Deus”, conforme consta na ARA (Almeida Revista e Atualizada), não é um texto melhorado em relação a ARC, pois theópneustos significa respirado por Deus para fora em vez de para dentro – divinamente ex-pirado, em vez de ins-pirado. No século passado, Ewald e Cremer argumentaram que o adjetivo traz consigo um sentido ativo, “inspirando o Espírito”, e Barth parece concordar. Sua explicação é que significa não apenas “dado, enchido e guiado pelo Espírito de Deus”, mas também “manifestando, alastrando-se para fora e revelando ativamente o Espírito de Deus” (Church Dogmatics, 1.2). Mas, em 1900, B. B. Warfield provou decisivamente que o sentido da palavra somente pode ser usado no passivo. A idéia não é Deus respirando Deus para fora, mas Deus tendo respirado a Escritura para fora. As palavras de Paulo significam, não que a Escritura seja inspiradora (embora isto seja verdade), mas que a Escritura é um produto divino, devendo ser encarada e avaliada com tal.
A “respiração” ou “espírito” de Deus no Antigo Testamento denota a saída ativa do poder de Deus, seja na criação (Sl 33.6; Jó 33.4; cf. Gn 1.2; 2.7), na preservação da vida (Jó 34.14), na revelação aos profetas e por meio deles (Is 48.16; 61.1; Mq 3.8; Jl 2.28, 29), na regeneração (Ez 36.27) ou no julgamento (Is 30.28, 33). O Novo Testamento revela esta “respiração” divina (grego pneuma) como sendo uma Pessoa da Divindade. A “respiração” de Deus (o Espírito Santo) produziu a Escritura, como um meio de transporte ao entendimento espiritual. Quer traduzamos a expressão grega pasa graphe como “toda Escritura” ou “cada texto”, quer sigamos outra versão na construção da sentença, a intenção de Paulo é evidente, indo além de qualquer dúvida. O apóstolo está afirmando que tudo o que entra na categoria da Escritura, tudo o que tem um lugar entre as “sagradas letras” (hiera grammata, 2 Tm 3.15), só porque é inspirado por Deus, é proveitosos como norma de fé e vida.
Baseando-se nesse texto paulino, a teologia usa regularmente a palavra “inspiração” para expressar a idéia da origem e qualidade divina das Sagradas Escrituras. De modo ativo, o substantivo indica a operação da respiração de Deus para fora, a qual produziu a Escritura; de modo passivo, a inspiração das Escrituras foi assim produzida. A palavra também é usada em termos mais genéricos em relação à influência divina, a qual habilitou os instrumentos humanos da revelação – profetas, salmistas, sábios e apóstolos – a falar, bem como a escrever, as palavras de Deus.
A Inspiração da Bíblia
A palavra “inspiração” vem do latim e é a tradução do termo grego theópneustos de 2 Timóteo 3.16, que na ARC (Almeida Revista e Corrigida), temos assim traduzido: “Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”. “Inspirado por Deus”, conforme consta na ARA (Almeida Revista e Atualizada), não é um texto melhorado em relação a ARC, pois theópneustos significa respirado por Deus para fora em vez de para dentro – divinamente ex-pirado, em vez de ins-pirado. No século passado, Ewald e Cremer argumentaram que o adjetivo traz consigo um sentido ativo, “inspirando o Espírito”, e Barth parece concordar. Sua explicação é que significa não apenas “dado, enchido e guiado pelo Espírito de Deus”, mas também “manifestando, alastrando-se para fora e revelando ativamente o Espírito de Deus” (Church Dogmatics, 1.2). Mas, em 1900, B. B. Warfield provou decisivamente que o sentido da palavra somente pode ser usado no passivo. A idéia não é Deus respirando Deus para fora, mas Deus tendo respirado a Escritura para fora. As palavras de Paulo significam, não que a Escritura seja inspiradora (embora isto seja verdade), mas que a Escritura é um produto divino, devendo ser encarada e avaliada com tal.
A “respiração” ou “espírito” de Deus no Antigo Testamento denota a saída ativa do poder de Deus, seja na criação (Sl 33.6; Jó 33.4; cf. Gn 1.2; 2.7), na preservação da vida (Jó 34.14), na revelação aos profetas e por meio deles (Is 48.16; 61.1; Mq 3.8; Jl 2.28, 29), na regeneração (Ez 36.27) ou no julgamento (Is 30.28, 33). O Novo Testamento revela esta “respiração” divina (grego pneuma) como sendo uma Pessoa da Divindade. A “respiração” de Deus (o Espírito Santo) produziu a Escritura, como um meio de transporte ao entendimento espiritual. Quer traduzamos a expressão grega pasa graphe como “toda Escritura” ou “cada texto”, quer sigamos outra versão na construção da sentença, a intenção de Paulo é evidente, indo além de qualquer dúvida. O apóstolo está afirmando que tudo o que entra na categoria da Escritura, tudo o que tem um lugar entre as “sagradas letras” (hiera grammata, 2 Tm 3.15), só porque é inspirado por Deus, é proveitosos como norma de fé e vida.
Baseando-se nesse texto paulino, a teologia usa regularmente a palavra “inspiração” para expressar a idéia da origem e qualidade divina das Sagradas Escrituras. De modo ativo, o substantivo indica a operação da respiração de Deus para fora, a qual produziu a Escritura; de modo passivo, a inspiração das Escrituras foi assim produzida. A palavra também é usada em termos mais genéricos em relação à influência divina, a qual habilitou os instrumentos humanos da revelação – profetas, salmistas, sábios e apóstolos – a falar, bem como a escrever, as palavras de Deus.
A Idéia da Inspiração Bíblica
De acordo com 2 Timóteo 3.16, são precisamente os escritos bíblicos o material inspirado. A inspiração é um trabalho de Deus concluído não nos homens que tinham de escrever a Escritura (como se, havendo-lhes dado uma idéia do que dizer, Deus os deixou entregues a si mesmos para encontrarem uma maneira de dizê-lo), mas no próprio produto escrito. É a Escritura – graphé, o texto escrito – que é inspirado por Deus. A idéia essencial aqui é que a Escritura inteira tem as mesmas características que tinham os sermões dos profetas, não só quando pregavam, mas também quando escreviam (cf. 2 Pe 1.19-21, sobre a origem divina de toda “profecia da Escritura”). Isso significa que a Escritura não é apenas a palavra do homem – fruto de seu pensamento, premeditação e habilidade, mas também e de igual forma é a Palavra de Deus, falada através da boca do homem ou escrita com o instrumento de registro do homem. Em outras palavras, a Escritura tem uma autoria dupla, sendo que o homem é apenas o autor secundário; o autor primário, através de cuja iniciativa, presteza e esclarecimento, e sob cuja superintendência cada escritor humano fez seu trabalho, é o Deus Espírito Santo.
A revelação aos profetas era essencialmente verbal. Na maioria das vezes, havia um aspecto visionário, mas até mesmo a “revelação em visões é também revelação verbal” (L. Koehler, Old Testament Theology, E. T., 1957). Brunner observa que nas “palavras de Deus, as quais os profetas proclamam como havendo-as recebido diretamente de Deus e tendo sido comissionados a repeti-las, quando as receberam... talvez encontremos a analogia mais próxima do significado da teoria da inspiração verbal” (Revelation and Reason). E, de fato, encontramos. Entretanto, não encontramos meramente uma analogia, mas o paradigma; sendo que aqui “teoria” é uma palavra inadequada, pois estamos tratando da própria doutrina bíblica em si. A inspiração bíblica deveria ser definida nos mesmo termos teológicos que definem a inspiração profética: a saber, como o processo inteiro (multiforme, não há dúvida, em sua forma psicológica, como o foi a inspiração profética), por meio do qual Deus moveu os homens que havia escolhido e preparado (cf. Jr 1.5, Gl 1.1.15) para escrever exatamente o que Ele queria que fosse escrito, a fim de comunicar a instrução de salvação ao seu povo e, através dele, ao mundo. Assim, a inspiração bíblica é verbal por sua própria natureza, pois a Escritura respirada por Deus é constituída pelas palavras dadas por Ele.
Desse modo, a Escritura inspirada é a revelação escrita, assim como os sermões dos profetas eram revelação falada. O registro bíblico da auto-revelação de Deus na história da redenção não é meramente testemunho humano à revelação, mas a própria revelação. A inspiração das Escrituras era uma parte integral no processo de revelação, pois nelas Deus deu à Igreja sua obra de salvação na História e sua interpretação autoritária do lugar da Igreja no plano eterno. “Assim diz o Senhor” poderia ser o prefixo de cada livro das Escrituras com não menos propriedade do que aparece (359 vezes, de acordo com Koehler) nas declarações proféticas individuais contidas na Palavra. Portanto, a inspiração garante a verdade de tudo o que a Bíblia afirma, assim como a inspiração dos profetas garantiu a verdade da apresentação que faziam da mente de Deus. (“Verdade” aqui denota correspondência entre as palavras do homem e os pensamentos de Deus, seja no campo dos fatos, seja no campo do significado). Como verdade proveniente de Deus, Criador dos homens e legítimo Rei, as instruções bíblicas, assim como as palavras proféticas, trazem em si a autoridade divina.
Apresentação Bíblica
A idéia da Escritura canônica (isto é, de um documento ou corpus de documentos contendo um registro permanente e autoritário da revelação divina) remonta aos escritos de Moisés sobre a lei de Deus no deserto (Êx 34.27, 28; Dt 31.9,10, 24,25). A verdade de todas as declarações – histórias ou teológicas – que as Escrituras fazem e sua autoridade como palavras de Deus são aceitas sem questionamento ou discussões em ambos os Testamentos. O cânon aumentou, mas ao conceito de inspiração, o qual pressupõe a idéia de canonicidade, foi plenamente desenvolvido desde o início e é imutável ao longo das Sagradas Escrituras. Como apresentado na Bíblia, compreende duas convicções.
1 – As palavras da Escritura são as próprias palavras de Deus – Passagens do Antigo Testamento identificam a lei mosaica e as palavras dos profetas, tanto faladas quanto escritas, com o discurso do próprio Deus (cf. 1 Rs 22.8-16; Ne 8; Sl 119; Jr 25.1-13; 36 etc.).
Os escritores do Novo Testamento viam todo o Antigo Testamento como “os oráculos de Deus” (Rm 3.2, ARA), como profético em essência (Rm 16.26; cf. Rm 1.2; 3.21), como havendo sido escrito por homens que foram movidos e ensinados pelo Espírito Santo (2 Pe 1.20; cf. 1 Pe 1.10-12). Jesus e seus apóstolos citam textos do Antigo Testamento não meramente como aquilo que homens como Moisés, Davi ou Isaías disseram (vide Mc 7.6, 10; 12.36; Rm 10.5,20; 11.9), mas também como o que Deus disse através desses homens (vide At 4.25; 28.25) ou, às vezes, simplesmente como o que “Ele” (Deus) diz (1 Co 6.16; Hb 8.5,8), ou o que o Espírito Santo diz (Hb 3.7; 10.15). Além disso, as declarações do Antigo Testamento que em seus contextos não foram feitas por Deus são citadas como expressões vocais divinas (Mt. 19.4,5; Hb 3.7; At. 13.34, citando Gn 2.24, Sl 95.7; Is 55.2, respectivamente). Paulo também identifica a promessa de Deus a Abraão e sua ameaça a Faraó, ambas faladas muito tempo antes que fosse feito o registro bíblico desses fatos, com as palavras que a Escritura falou a esses dois homens (Gl 3.8; Rm 9.17), o que mostra o quão completamente se igualaram às declarações das Escrituras com a expressão vocal de Deus.
2 – A parte dos homens na produção das Escrituras foi meramente transmitir o que haviam recebido. Psicologicamente, do ponto de vista da forma, é evidente que os escritores humanos contribuíram em muito para o feitio das Escrituras – pesquisa histórica, meditação teológica, estilo lingüístico etc.
Cada livro bíblico é, em certo sentido, a criação literária de seu autor. Mas, teologicamente falando, do pondo de vista do conteúdo, a Bíblia considera que os escritores humanos não contribuíram em nada para sua composição e que a Escritura é de inteira criação de Deus. Essa convicção está enraizada na autoconsciência dos fundadores da religião bíblica, os quais todos reivindicaram proferir – e, no caso dos profetas e apóstolos, escrever – o que, no sentido mais literal, eram as palavras de outra pessoa: o próprio Deus. Os profetas (entre os quais Moisés deve ser incluído: Dt 18.15; 34.10) professaram que falaram as palavras do Senhor, colocando diante de Israel o que o Senhor lhes havia mostrado (Jr 1.7; Ez 2.7; Am 3.7). Jesus de Nazaré declarou ter falado as palavras que lhe foram dadas pelo Pai (Jo 7.16; 12.49). Os apóstolos ensinaram e deram ordens em nome de Jesus (2 Ts 3.6), reivindicando assim sua autoridade e sanção (q Co 14.37), e afirmaram que não só o assunto, mas também as palavras que diziam haver sido ensinadas pelo Espírito de Deus (1 Co 2.9-13; cf. as promessas de Jesus em Jo 14.26; 15.26, 27; 16.13, 14). Essas são reivindicações em favor da inspiração. À luz dessas reivindicações, a avaliação dos escritos proféticos e apostólicos como a completa Palavra de Deus, exatamente da mesma maneira em que as duas tábuas da Lei, “escritas pelo dedo de Deus” (Êx 31.18; cf. Êx 24.12; 32.16), eram a completa palavra de Deus, naturalmente tornou-se parte da fé bíblica.
Jesus e os apóstolos dão grande destaque ao fato da inspiração ao se valerem da autoridade do Antigo Testamento. Na verdade, consideram as Escrituras judaicas como a Bíblia cristã: um conjunto de escritos literários dando testemunho profético de Cristo (Lc 24.25,44; Jo 5.39; 2 Co 3.14,15) e designado por Deus para a instrução dos crentes (Rm 15.4; 1 Co 10.11; 2 Tm 3.14, 15; cf. a explicação dos Sl 95.7-11 em Hb 3-4, e, de fato, a totalidade do livro de Hebreus, no qual cada ponto importante é feito pela recorrência a textos do Antigo Testamento). Jesus insistiu que o que foi escrito no Antigo Testamento não pode ser anulado (Jo 10.35). Ele não veio, conforme disse aos judeus, para ab-rogar a Lei ou os Profetas (Mt 5.17). Se pensavam que Ele estava fazendo isso, enganavam-se. Jesus veio para fazer o oposto – prestar testemunho à autoridade divina da Lei e dos Profetas ao cumpri-los. A Lei permanece para sempre, porque é a palavra de Deus (Mt 5.18; Lc 16.17); as profecias, particularmente aquelas que dizem respeito a Ele, devem ser cumpridas pela mesma razão (Mt 26.54; Lc 22.37; cf. Mc 8.31; Lc 18.31). Para Jesus e seus apóstolos, a evocação das Escrituras era sempre decisiva (cf. Mt. 4.4,7, 10; Rm 12.19; 1 Pe 1.16).
A liberdade com a qual os escritores do Novo Testamento citam o Antigo Testamento (seguindo a Septuaginta, os targuns ou uma tradução livre do hebraico, como melhor lhes convinha) é considerada prova de que eles não acreditavam na inspiração das palavras originais. Mas seu interesse não estava nas palavras como tais, mas em seu significado. Além disso, estudos recentes têm comprovado que essas citações são interpretativas e explicativas – uma maneira de citação muito comum usada entre os judeus. Nesse método, os escritores procuram mostrar o verdadeiro significado e aplicação (isto é, o significado e aplicação cristãos) do texto pela forma como o citam. Na maioria das vezes, esse significado é alcançado de maneira óbvia pela aplicação estrita dos princípios teológicos bem definidos acerca da relação de Jesus e a Igreja com o Antigo Testamento.
Declaração Teológica
1 – A idéia não é a do ditado mecânico, ou escrita automática, ou qualquer outro processo que envolva a suspensão da ação da mente humana do escritor. Tais conceitos de inspiração são encontrados no Talmude, em Filo e nos pais da Igreja, mas não na Bíblia. A direção e controle divinos, sob os quais os autores bíblicos escreverem, não eram uma força física ou psicológica, e não diminuía – antes, pelo contrário, aumentava – a liberdade, a espontaneidade e a criatividade daquilo que escreviam.
2 – O fato de que, na inspiração, Deus não obliterou a personalidade, estilo, perspectiva e condicionamento cultural do escritor não significa que seu controle sobre eles fosse imperfeito ou que, no processo de registrar por escrito a verdade que tinham recebido para transmitir, inevitavelmente a distorcessem. B. B. Warfield faz uma suave troça da noção de que Deus, quando quis que as epístolas de Paulo fossem escritas, foi compelido à necessidade de descer à Terra e árdua e minuciosamente examinar as pessoas que ia encontrando, na procura ansiosa por alguém que, de modo geral, prometesse o melhor segundo seus propósitos. Então, depois de encontrar quem melhor o satisfizesse, forçou violentamente o material que desejava manifestar através dessa pessoa, indo contra sua tendência natural e com a menor perda possível de suas características obstinadas. É claro que nada desse tipo de coisas aconteceu. Se Deus quis dar ao seu povo um conjunto de epístolas como as de Paulo, Ele preparou um Paulo para escrevê-lo e o Paulo que Ele trouxe para fazer o serviço foi um Paulo que espontaneamente escreveria tal conjunto de epístolas (The Inspiration and Authority of the Bible).
3 – A inspiração não é uma qualidade ligada às alterações que foram se introduzindo à força no curso da transmissão do texto, mas está vinculada apenas ao texto como originalmente produzido pelos escritores inspirados. Desse modo, o reconhecimento da inspiração bíblica torna mais premente a tarefa da crítica meticulosa do texto, a fim de eliminar tais alterações e determinar o que nesse texto é original.
4 – A inspiração dos escritos bíblicos não deve ser igualada com a inspiração das grandes obras da literatura, nem mesmo (como freqüentemente é verdadeiro) quando o escrito bíblico for, de fato, uma obra de literatura. A idéia bíblica da inspiração não se relaciona com a qualidade literária do que é escrito, mas com sua característica de ser revelação divina escrita.
J. I. Packer
O próximo artigo desta série é A INERRÂNCIA E A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA
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A Inerrância e a Infalibilidade da Bíblia
BÍBLIA – ORIGENS, INSPIRAÇÃO E CANONICIDADEA Inerrância e a Infalibilidade da Bíblia
“Inerrância” e “infalibilidade” são termos teológicos usados por muitos cristãos para definir a singularidade da Bíblia. Os cristãos acreditam que Deus comunicou as Boas Novas de salvação não só “em pessoa”, através de Jesus Cristo, mas também “por escrito”, através da Bíblia. Por conseguinte, os cristãos sempre consideram a Bíblia uma obra incomparável e qualitativamente diferente em relação aos outros livros.
Pano de Fundo Histórico
O povo de Deus sempre teve um relacionamento intenso com as Escrituras: os judeus como Antigo Testamento, a Igreja cristã com o Antigo e o Novo Testamento. Tantos cristãos quanto os judeus têm-se caracterizado como “o povo da Bíblia”. Desde o início da Igreja, os cristãos reconheceram as Escrituras (primeiro o Antigo Testamento, depois o Novo) como inspiradas por Deus. A palavra grega para “inspirado” significa literalmente “respirado por Deus para fora” (2 Tm 3.16). Os conceitos de inerrância e infalibilidade surgiram em discussões teológicas concernentes à inspiração das Escrituras. Os teólogos se perguntavam de que maneira exatamente um livro que foi “respirado por Deus” poderia diferir de outros livros.
Em data remota, compreendeu-se que a inspiração de Deus estendia-se não apenas aos escritores das Escrituras ou aos conceitos nela expressos, mas também às próprias palavras nelas registradas. Esse entendimento, conhecido como a doutrina “verbal” ou “plenária” (completa) da inspiração, foi exposto por Irineu (século II), bispo de Lion, na Gália (moderna França), em sua obra Contra Todas as Heresias. Agostinho (do século IV), bispo de Hipona, África do Norte, manifestou a mesma crença – a saber, que inspiração significava ditado pelo Espírito Santo. Para Irineu e Agostinho, inspiração não era uma posse do Espírito Santo feita em transe irresistível da consciência humana do escritor, mas antes um alto grau de iluminação e uma tranqüila percepção da revelação de Deus. Clemente de Alexandria, Orígenes, seu discípulo, e Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim, falaram sobre a inspiração como sendo extensiva a cada palavra das Escrituras. Os primeiros eruditos cristãos, confiando em Deus como o Deus da verdade e considerando-o como incapaz de engano ou confusão, reputavam sua Escritura verbalmente inspirada como sendo igualmente digna de confiança.
Significado dos Termos
“Infalibilidade” pode ser chamada de conseqüência subjetiva da inspiração divina, isto é, define a Escritura como confiável e fidedigna para aquele que se voltam para ela em busca da verdade de Deus. Como fonte da verdade, a Bíblia é “indefectível” (ou seja, não pode falhar ou insurgir-se contra o padrão da verdade). Conseqüentemente, nunca falhará ou decepcionará qualquer um que confie nela.
“Inerrância” trata-se de um conceito estreitamente relacionado, mas é um termo mais recente e menos largamente aceito. Traz a conotação de que a Bíblia não contém nenhum erro de ação (erros materiais), nem contradições internas (erros formais). O conceito de infalibilidade volta-se ao conhecimento pessoal que alguém tenha de Deus e à segurança de salvação. A inerrância ocupa-se mais especificamente com a transmissão precisa dos detalhes da revelação.
Embora em muitas composições teológicas os dois termos sejam usados intercambiavelmente, infalibilidade é o termo mais abrangente. Quem crê numa Bíblia inerrante também crê numa Bíblia infalível. O inverso não é necessariamente verdadeiro. Ainda que muito se dependa de qual seja a definição de “erro”, alguns eruditos argumentam que a Bíblia pode ser infalível (no cumprimento do propósito de Deus) sem ter de ser livre de erros. Eles propõem uma doutrina mais “dinâmica” da infalibilidade, que continuaria a agir mesmo que fossem descobertos erros bíblicos.
Vários escritores evangélicos contemporâneos, como o falecido Francis A Schaeffer e John D. Woodbridge, têm levantado objeções a qualquer doutrina da “infalibilidade dinâmica”, classificando-a como não-bíblica, dualista ou mesmo absurda. Não obstante, muitos respeitados evangélicos acreditam que podemos considerar a Bíblia como “a única regra perfeita de fé e conduta”, sem exigir ou implicar em inerrância estrita.
Os evangélicos reconhecem que a Bíblia é humana tanto quanto é divina. O erudito neo-ortodoxo, Karl Barth (1886-1968), foi mais longe, afirmando que, visto que “errar é humano”, um livro humano (ainda que também seja divino) deve conter erros. Barth foi cauteloso em atribuir quaisquer erros específicos à Bíblia, ainda que em princípio tenha argumentado que a existência de erros não possa ser desconsiderada. A maioria dos eruditos não-evangélicos rejeita tanto a infalibilidade quanto a inerrância, e não vêem valor algum na tentativa de tratá-las separadamente.
Controvérsia Recente
O autor acusou diversos líderes evangélicos proeminentes, inclusive alguns de seus antigos colegas, de terem começado a se afastar de uma visão ortodoxa da Bíblia. Muitos que compartilham da preocupação de Lindsell lamentam qualquer tipo de divisão ente os evangélicos, mas consideram a inerrância um tema importante. Outros lastimam a atenção que a inerrância tem recebido e preocupam-se com a inerrância mais como uma ameaça à unidade evangélica do que como um significativo tema teológico.
Um grupo, representado pelo Congresso Internacional sobre Inerrância Bíblica (fundado em 1977), considera a doutrina da inerrância um tema que divide a ortodoxia cristã. Um segundo grupo parece reivindicar que, embora a inerrância seja verdadeira, não deveria ser um tipo de “teste de lealdade”. Um terceiro grupo, representado por Jack Rogers, do Fuller Theologiacal Seminary, Estados Unidos, ainda que não negue explicitamente que a inerrância seja verdadeira, afirma que é uma formulação tardia e historicamente condicionada da posição cristã.
A posição de Rogers surgiu em sua contribuição a um livro que editou, Biblical Authority (1977). Rogers encarava a doutrina da inerrância como proveniente de origens aristotélicas e tomísticas. Seu argumento era que a inerrância entrava em conflito com uma posição mais normativa, baseada em Platão e Agostinho e sustentada por Lutero e Calvino. Rogers demonstrou que a doutrina da inerrância não recebeu formulação explícita até o século XVII.
De acordo com seus críticos, Rogers tentou sem sucesso comprovar que Lutero e Calvino, visto que falaram do elemento humano das Escrituras, também aceitaram a existência de erros humanos nelas. Para tais críticos, uma perspectiva mais plausível é que Lutero e Calvino nem assumiram nem admitiram haver erros nas Escrituras, ou seja, não chegaram a considerar o tema da inerrância. Além disso, não fizeram da inerrância uma norma da ortodoxia, porque a questão ainda não havia sido formulada nesses termos.
Aqueles que asseveram a infalibilidade ou inerrância, encaram sua posição como uma conclusão teológica das doutrinas bíblicas de Deus e da inspiração. Os que contestam essa perspectiva, como Karl Barth, quase sempre concluem que, visto ser a Bíblia um livro humano, deve necessariamente conter erros Em outras palavras, o assunto não é primariamente uma questão de interpretação bíblica, mas de teologia e epistemologia (ramo da filosofia que trata da teoria da ciência). É claro que tentativas para provar que a Bíblia está totalmente isenta de erros materiais ou contradições internas requerem interpretação bíblica.
Muitas declarações bíblicas dizem respeito a assuntos que não podem ser nem provados nem refutados. Por outro lado, muitas alegadas contradições forma resolvidas ou consideravelmente diminuídas por uma exegese competente. Isso se aplicaria, por exemplo, a aparentes discrepâncias nas genealogias de Jesus (Mt 1; Lc 3), às diversas narrativas da conversão do apóstolo Paulo (At 9, 22; 26) e a supostos erros de fatos – como a referência ao coelho como um animal ruminante (Lv 11.6) e ao Sol ter parado sobre a cidade de Gideão (Js 10.12-14). Embora ainda haja dificuldades lógicas e científicas, é impossível dizer se tais dificuldades são, estritamente falando, erros ou apenas contradições aparentes, falhas do copista ou tradutor, ou um problema de intervalo cultura, histórico e retórico entre o escritor e o leitor.
A Inerrância e os Autógrafos
Para ser exato, a inerrância é atribuída somente aos escritos originais ou “autógrafos” das Escrituras, os quais não mais existem. Em geral, os estudiosos da Palavra concordam que os subsistentes manuscritos da Bíblia contêm alguns erros de copistas, usualmente detectáveis ao se comparar manuscritos mais recentes com os mais antigos e ao se aplicar a crítica textual. Os críticos da inerrância e infalibilidade às vezes argumentam que, visto que a doutrina diz respeito somente aos autógrafos, é essencialmente irrelevante para a atualidade.
De um ponto de vista negativo, se os manuscritos originais continham erros, então naturalmente as cópias e traduções disponíveis hoje em dia também os contêm. De um ponto de vista positivo, os defensores da inerrância, como Francis Pieper, que no início deste século era presidente do Concórdia Theological Seminary (em St. Louis, Estados Unidos), fizeram uma inferência importante do status infalível e inerrante dos autógrafos. Insistem que, para todos os propósitos práticos (isto é, para as questões de fé e vida), os atuais textos e as boas traduções também podem ser considerados inerrantes. Os defensores da inerrância sustentam que a confiança dos crentes nas traduções modernas da Bíblia apóia-se firmemente na crença da infalibilidade dos escritos originais.
Se os erros de alguns copistas foram detectados nos manuscritos bíblicos existentes, outros mais difíceis de detectar também podem existir. Aqueles que afirmam a inerrância dos autógrafos devem compartilhar da preocupação de outros eruditos bíblicos, a fim de reconheceram e lidarem com os problemas textuais nas cópias subsistentes.
Inspiração e Inerrância Verbais
Jesus, como os judeus da época do Antigo Testamento, criam que a fidedignidade das Escrituras não abrangia apenas os seus ensinamentos mais importantes, mas também detalhes mais insignificantes: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido” (Mt 5.18). Essa perspectiva foi reiterada pelo apóstolo Paulo (At 24.14; 2 Tm 3.16). Desse modo, a autoridade de Jesus e de Paulo apóiam a crença em tudo o que a Escritura assevera. Espera-se daqueles que chamam Jesus de Senhor e aceitam seus ensinamentos, que tenham as Escrituras em alta conta, como Jesus as tinha.
Os conceitos de inspiração e infalibilidade verbais podem ser delimitados à época dos pais da Igreja Primitiva. Não são idéias novas. A inspiração verbal parece implicar em inerrância, visto que, caso contrário, o Espírito Santo seria o autor do erro. A Igreja medieval, embora outorgasse autoridade de tradição ao lado da Palavra, continuava a afirmar a inspiração e infalibilidade verbais, e até mesmo (em princípio) a suficiência das Escrituras.
Martinho Lutero e outros reformadores protestantes não tinham necessidade de exaltar a autoridade e infalibilidade das Escrituras, porque a Igreja Católica Romana também as aceitava. Antes, tentaram combater a elevação católica da tradição a um status igual ou até mesmo superior às Escrituras. Por isso, a Reforma não faz declarações explícitas retificando a inerrância ou infalibilidade das Escrituras. Entretanto, os sucessores de Martinho Lutero e João Calvino realmente fizeram tais declarações explícitas.
Depois da Reforma, surgiu o racionalismo. No século XVIII, o racionalismo foi caracterizado por uma confiança otimista na razão crítica humana e por um desdém pela influência sobrenatural nos assuntos humanos. Os racionalistas fizeram as primeiras reivindicações sérias de que a Bíblia era como qualquer outro livro humano e por isso falível. Essa pressuposição levou a repetidos mal-entendidos (e, às vezes, a falsificações) sobre a natureza e conteúdo das Escrituras.
Dúvidas contemporâneas acerca da inerrância ou da infalibilidade das Escrituras levantadas por eruditos evangélicos, originam-se muitas vezes de um desejo de reconhecer ou chegar a algum tipo de acomodação ao método histórico e crítico de estudar a Bíblia. Contudo, muitos pensam que o método começa com a suposição de que a Bíblia não pode ser o que afirma ser. Entre as principais denominações americanas, a Lutheran Church Missouri Synod, presidida por Jacob A. O. Preus, tomou uma posição definida sobre a inerrância bíblica. Essa posição identifica e repudia todo método histórico e crítico, com suas suposições, como a origem de onde surgiram as controvérsias contemporâneas acerca da inerrância. Esses luteranos argumentam que a rejeição ao método não implicava em rejeição à pesquisa dos eruditos. O que rejeitam é qualquer “pesquisa” na qual as pressuposições impeçam que se aceite a Bíblia como algo mais que um livro humano. Os partidários da inerrância freqüentemente afirmam que os argumentos contra ela advêm de um preconceito anti-sobrenatural, o qual, em princípio, não apenas repudiará a inerrância, mas qualquer superintendência ou inspiração divina.
Dois teólogos evangélicos ortodoxos, Benjamim B. Warfield e Clark Pinnock, ao argumentarem em favor da inerrância, usam a mesma expressão gráfica acerca da inspiração, a saber, que uma “avalanche de textos” das Escrituras a apóiam. Entretanto, ao examinarmos essa “avalanche”, verificamos que parece consistir principalmente em alguns poucos seixos grandes (Mt 5.18; Jo 10.35; 2 Tm 3.16; 2 Pe 1.21). A Escritura pressupõe sua própria inerrância sem explicitamente declará-la. Para muitos cristãos, um argumento insuperável em favor da inerrância jaz na simples ordem de Jesus de aprendermos dEle (Mt 11.29; cf. Jo 13.13), combinado com o fato de que Jesus aceitava as Escrituras do Antigo Testamento como completamente fidedigna, até mesmo em seus mínimos detalhes (Mt 5.18; Jo 10.35).
Posições Confessionais
Muitas das principais confissões de fé afirmam a essência da inerrância. Essa foi a posição oficial da Igreja Católica Romana até que, sob influência de protestantes liberais, tal posição afrouxou-se um pouco no Concílio Vaticano II (1962-1965). Entre as declarações reformistas, a Confissão Belga (1561) e a Confissão de Westminster asseveram a perfeição das Escrituras. Afirmações similares são encontradas na Confissão de Augsburg (1530) do luteranismo e nos Trinta e Nove Artigos, da Igreja da Inglaterra (1563). Confissões mais recentes, como a Confissão Batista de New Hampshire, de 1832, aludem à Bíblia como contendo “a verdade sem qualquer mistura de erro em seus assuntos”.
Problemas ou Erros?
Qualquer leitor atento das Escrituras se conscientizará dos problemas no texto, embora muitas das evidentes discrepâncias ou possíveis erros desapareçam sob um escrutínio imparcial. Entretanto, mesmo após cuidadoso estudo, alguns problemas permanecem. O debate sobre a inerrância freqüentemente se resume na escolha entre tolerar tias problemas como “questões sem resposta” ou transferi-las à categoria dos “erros comprovados”. Freqüentemente, essa decisão reflete a atitude inicial que se toma em relação às Escrituras e aos métodos críticos. Se a Escritura é aceita como a Palavra inspirada de Deus, como “o padrão que estabelece o padrão”, ter-se-á relutância em acusá-la de erros – visto que para se fazer isso, deve-se ter alguma outra norma, talvez superior, pela qual se avalie a Escritura. Historicamente, dúvidas acerca da inerrância são acompanhadas – em vez de produzidas – pela convicção de que a Bíblia é meramente um livro humano falível. Por isso, dever-se-ia considerar a possibilidade de que o reconhecimento de um erro nas Escrituras é a conseqüência lógica de uma decisão anterior de julgar a Bíblia, ao invés de aceitá-la como norma para todos os julgamentos.
Alguns sustentam que as variações na ordem cronológica constituem erros – por exemplo, a seqüência das tentações de Jesus (cf. Mt 4.1-11 e Lc 4.1-13). Mas, já no século II, um escritor cristão chamado Papias explicou que os escritores dos evangelhos não pretendiam registrar em ordem os eventos da vida de Jesus, o que implica que seus contemporâneos não acharam em nada estranha ou imprecisa a utilização dessa prática.
Os números nas Escrituras, os quais propõem freqüentes problemas, são às vezes explicáveis como base no hábito tradicional de dar valores aproximados ou arredondados. Por exemplo, o valor da constante trigonométrica P calculado pela descrição do mar de fundição feito pelo rei Salomão (1 Rs 7.23) é exato, mas, como diria um matemático, apenas para “um algarismo significativo”. Foi predito que a duração do cativeiro de Israel no Egito seria de aproximadamente quatrocentos anos (Gn 15.13) e relatado com mais precisão como sendo de 430 (Êx 12.40,41). Os supostos erros científicos provêm muitas vezes de uma compreensão inadequada do verdadeiro significado dos enigmáticos textos hebraicos e gregos. Certas dificuldades permanecem, contudo algumas que pareciam descomunais há cinqüenta anos, ou até mesmo vinte anos atrás, foram devidamente resolvidas quando novos dados arqueológicos, textuais ou científicos vieram à tona. Nenhuma teoria, seja da teologia seja da ciência, é sempre inteiramente destituída de dificuldades. J. C. Ryle, bispo evangélico de Liverpool (Inglaterra), disse: “As dificuldades que cercam quaisquer outras teorias da inspiração são dez vezes maiores que qualquer dificuldade que cerque a nossa”.
POSIÇÕES EVANGÉLICAS DIVERGENTES
Entre os evangélicos, é grande o número dos que demonstram pouco interesse na doutrina da inerrância, e alguns, na verdade, chegam a rejeitá-la. Muitos evangélicos, britânicos e alemães, por exemplo, mantém de maneira uniforme um alto pondo de vista sobre a fidedignidade das Escrituras sem adotar a terminologia da inerrância. Preferem termos como “infalibilidade” ou “fidedignidade absoluta”, e assim por diante. Alguns evangélicos europeus reconhecem a presença de pequenos erros na Bíblia; outros, que não fariam tal concessão, ainda não desejam advogar a inerrância.
Nos Estados Unidos, a publicação do livro de Lindsell levou a questão da inerrância ao centro das atenções do público evangélico. Muitos teólogos evangélicos, que prefeririam dedicar suas energias a outro tema, sentem-se obrigados a tomar posição em relação à inerrância. Às vezes, líderes evangélicos “separatistas” expressam suspeitas de que outros evangélicos (como o teólogo canadense Clark S. Pinnock) tomaram uma posição “conciliatória” sobre a inerrância, a fim de ganhar ou manter aceitação nos círculos liberais teológicos. Para muito cristãos de crenças liberais, como também para os não-cristãos em geral, uma desavença sobre a inerrância parece ser um sofisma entre as duas perspectivas da Escritura igualmente inaceitáveis. O conceito de um livro que traz em si a autoridade sobrenatural é alienígena ao espírito secular de nossos dias. Mesmo Karl Barth, talvez a mente teológica mais impressionante do século XX, teve dificuldades em ganhar receptividade à sua perspectiva basicamente conservadora (mas não “inerrantista”) das Escrituras. Os evangélicos que propõem uma perspectiva “dinâmica” da autoridade bíblica, estão provavelmente mais próximos da “neo-ortodoxia” de Barth que da “ortodoxia de Princeton”, de B. B. Warfield. Como Barth, pode ser que se sintam tolhidos em evitar que seus discípulos e sucessores mudem para uma perspectiva mais relativista e transigente das Escrituras.
Conclusão
Não pode haver dúvidas de que, ao longo de sua história, a Igreja do Senhor Jesus Cristo foi comissionada a manter um ponto de vista sobre a inspiração que, para a maioria dos cristãos, implicava em inerrância, mesmo quando o termo não era usado. Recentes debates sobre a doutrina da inerrância concentram-se não só no problema dos detalhes, mas também na questão fundamental da fonte suprema da autoridade cristã. Os cristãos afirmam que Jesus Cristo – e não a doutrina das Escrituras ou da infalibilidade bíblica – é a realidade central da fé cristã.
Embora a inerrância, formulada para explicar a doutrina da inspiração, tenha sido descrita como uma “doutrina tardia e derivada”, muitos cristãos evangélicos a aceitam com base no testemunho que a Bíblia dá de si mesma. Outros cristãos que também se consideram evangélicos não aceitam a doutrina da inerrância. Uma advertência contra a transigência da infalibilidade e da inerrância escriturística ecoou no século XIX pela instrumentalidade do bispo Pole: “Uma vez que permitamos que o verme corroa a raiz, não devemos ficar surpresos se os galhos, as folhas e os frutos, pouco a pouco, apodrecerem”.
O próximo artigo desta série é O CÂNON DA BÍBLIA
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Quinta-feira, Julho 27, 2006
Cenário do NOVO TESTAMENTO - Introdução
Introdução
O Mundo do Novo Testamento proporciona informação acerca dos tempos em que a igreja nasceu e cresceu, e da situação em que foi escrita a segunda parte do cânon sagrado. Esta não foi produzida num vácuo, mas após longa história das lidas de Deus com Israel. O conhecimento dessa história ajuda-nos a interpretar com maior clareza os primeiros eventos bíblicos da era cristã. Por exemplo, não se pode entender o ensino acerca da salvação a menos que se esteja familiarizado com a criação e com a queda do homem. Também compreende-se melhor o ensino acerca de Cristo na lei de Moisés, bem como a pessoa do Messias em relação com Davi e com as promessas que lhe foram feitas.
Nesta série, a história do período apostólico é vista da perspectiva de como ela influenciou os acontecimentos do Novo Testamento, inclusive recuada à era intertestamentária, uma vez que seus eventos afetaram o mundo em que viveram Cristo e os apóstolos.
O estudo da cronologia – a determinação de datas e a seqüência apropriada dos acontecimentos – também é vital a uma interpretação adequada da Palavra de Deus. Este assunto é considerado com algum pormenor nesta série. Os gregos e seu programa de helenização lançaram a base para a cultura da era do Novo Testamento. Muitos dos conflitos e das lutas existentes nos dias de Jesus e da Igreja foram conseqüências do governo de Alexandre e seus sucessores. Os romanos exerceram influência sobre a situação imediata, ao mesmo tempo em que controlavam o governo e as rédeas econômicas da nação, afetando as práticas culturais e religiosas da época.
O conhecimento dos costumes e práticas judaicos ajuda-nos a entender os conflitos que Jesus enfrentou no seu ministério. Visto que os conflitos de Jesus com os fariseus desempenham papel tão proeminente nos Evangelhos, alguns se surpreendem ao descobrir que muitas das facções e seitas do Judaísmo eram bem diferentes dos fariseus legalistas e tinham compreensão espiritual da Lei.
Os artigos dedicados a Jesus, aos apóstolos, a Paulo e à Igreja primitiva reúnem os fatos históricos registrados no Novo Testamento. Visto que esses fatos se acham, freqüentemente, espalhados em suas páginas, cremos que muitos leitores da Bíblia achariam mais proveitosa a sua apresentação em forma ordenada.
O Mundo do Novo Testamento proporciona informação acerca dos tempos em que a igreja nasceu e cresceu, e da situação em que foi escrita a segunda parte do cânon sagrado. Esta não foi produzida num vácuo, mas após longa história das lidas de Deus com Israel. O conhecimento dessa história ajuda-nos a interpretar com maior clareza os primeiros eventos bíblicos da era cristã. Por exemplo, não se pode entender o ensino acerca da salvação a menos que se esteja familiarizado com a criação e com a queda do homem. Também compreende-se melhor o ensino acerca de Cristo na lei de Moisés, bem como a pessoa do Messias em relação com Davi e com as promessas que lhe foram feitas.
Nesta série, a história do período apostólico é vista da perspectiva de como ela influenciou os acontecimentos do Novo Testamento, inclusive recuada à era intertestamentária, uma vez que seus eventos afetaram o mundo em que viveram Cristo e os apóstolos.
O estudo da cronologia – a determinação de datas e a seqüência apropriada dos acontecimentos – também é vital a uma interpretação adequada da Palavra de Deus. Este assunto é considerado com algum pormenor nesta série. Os gregos e seu programa de helenização lançaram a base para a cultura da era do Novo Testamento. Muitos dos conflitos e das lutas existentes nos dias de Jesus e da Igreja foram conseqüências do governo de Alexandre e seus sucessores. Os romanos exerceram influência sobre a situação imediata, ao mesmo tempo em que controlavam o governo e as rédeas econômicas da nação, afetando as práticas culturais e religiosas da época.
O conhecimento dos costumes e práticas judaicos ajuda-nos a entender os conflitos que Jesus enfrentou no seu ministério. Visto que os conflitos de Jesus com os fariseus desempenham papel tão proeminente nos Evangelhos, alguns se surpreendem ao descobrir que muitas das facções e seitas do Judaísmo eram bem diferentes dos fariseus legalistas e tinham compreensão espiritual da Lei.
Os artigos dedicados a Jesus, aos apóstolos, a Paulo e à Igreja primitiva reúnem os fatos históricos registrados no Novo Testamento. Visto que esses fatos se acham, freqüentemente, espalhados em suas páginas, cremos que muitos leitores da Bíblia achariam mais proveitosa a sua apresentação em forma ordenada.
A história do Novo Testamento
A história do Novo Testamento começou muito tempo antes do nascimento de Jesus. Em realidade, só podemos entender bem muitos dos incidentes narrados no Novo Testamento quando conhecemos essa longa história. Ela começa com a criação do mundo – incluindo Adão e Eva, o primeiro homem e a primeira mulher. Havendo eles pecado e desobedecido à ordem de Deus, deteriorou-se o meio ambiente perfeito em que foram criados. E assim tem início a história da redenção da raça humana, operada por Deus – que culminou na vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré.
A história continua com Deus chamando a Abraão por volta do ano 2000 a.C. Deus chamou Abraão para deixar o lar, dirigir-se a uma nova terra, e tornar-se o pai de “uma grande nação” (Gênesis 12:2-3) - Israel.
Dentro, porém, de tempo relativamente curto, os descendentes de Abraão acharam-se no Egito. Logo o número desses descendentes tornou-se em ameaça ao faraó - o governante do Egito - e ele ordenou que fossem escravizados.
Foi nessa época que Moisés – o personagem mais decisivo na história do Antigo Testamento – recebeu o chamado para tirar Israel da escravidão do Egito e conduzi-lo à Terra Prometida de Canaã. Em seguida ao êxodo do Egito (c. 1450 a.C.) Israel recebeu a Lei – as leis e as instituições sociais que a nova nação devia observar, incluindo os Dez Mandamentos. Recusando-se os temerosos israelitas a entrar na Terra Prometida conforme Deus lhes ordenara, o Senhor os condenou a peregrinar no deserto, ao sul de Canaã, por mais quarenta anos.
Josué, sucessor de Moisés, foi quem introduziu Israel na Terra Prometida. Esta conquista se fez com violência – o livro de Josué conta a história em pormenores.
Após a morte de Josué, “...cada um fazia o que achava mais reto” (Juízes 21:25), e foi necessário que Deus suscitasse juízes. Essas figuras pitorescas chamaram o povo ao arrependimento e derrotaram os opressores de Israel – o livro dos Juízes conta a história deles.
Saul foi o primeiro rei de Israel. Davi, seu sucessor, escolheu Jerusalém como capital, fazendo-a ao mesmo tempo o centro político e espiritual da nação. A Davi sucedeu seu filho Salomão; este consolidou o reino recebido do pai e construiu o grande templo de Jerusalém. Conhecido por sua sabedoria, foi também um dirigente insensato; seu amor ao luxo, às mulheres bonitas e às alianças políticas tiveram efeitos desastrosos para a nação.
Após a morte de Salomão seguiu-se uma guerra civil sangrenta, e a nação dividiu-se em Israel ao norte e Judá ao sul. Tanto Israel como Judá caíram na idolatria e no pecado, e Deus suscitou profetas – homens que declaravam a vontade do Senhor ao seu povo – para chamá-los ao arrependimento. Ambas as nações ignoraram as advertências dos profetas, e finalmente os inimigos destruíram a ambas – Israel foi destruído pela Assíria em 723 a.C. e Judá pela Babilônia em 586 a.C. Os dirigentes de ambas as nações foram tomados cativos e enviados para o exílio.
Mais tarde, muitos dos descendentes dos exilados regressaram à Palestina. Um grupo retornou em 538 a.C. e reconstruiu o templo; outro voltou em 444 e reconstruiu os muros de Jerusalém sob a liderança de Esdras e Neemias. Reapareceu o velho padrão de Israel de escorregar para práticas pecaminosas e indiferença; e com o término do período do Antigo Testamento, ouvimos a voz do profeta Malaquias condenando os caminhos pecaminosos do povo.
Período Intertestamentário
PERÍODO INTERTESTAMENTÁRIO
Os quatrocentos anos decorridos desde a profecia de Malaquias até à vinda de Cristo são conhecidos como Período Intertestamentário. Os livros dos Macabeus, que descrevem a revolta macabéia e o caos na Palestina, e os escritos de Josefo, historiador do primeiro século da era cristã, são as principais fontes de informação sobre esse período.
O livro de Daniel deu uma visão prévia desses anos. Através do olho da profecia Daniel esboçou os principais acontecimentos políticos dessa época. Daniel viveu durante a ascensão da Babilônia como potência mundial. Ele viu o reino desaparecer e ser substituído pelo governo medo-persa. Em sua visão profética Daniel viu, portanto, a ascensão de outras grandes forças que dominariam o período intermediário dos Testamentos: Alexandre, os Ptolomeus do Egito, os Selêucidas da Síria, os Macabeus e os Romanos.
A – O Último Período Persa (até 331 a.C.) – O Antigo Testamento encerra-se com o Império Persa ainda no poder. Ciro havia permitido aos judeus voltar à terra para reconstruir o templo (538 a.C.). Ester, judia, havia ascendido à proeminência no palácio do rei persa (470 a.C.). Esdras (456 a.C.) e Neemias (443 a.C.) haviam voltado ao país e instituído reformas.
Nada aconteceu na Palestina de muito interesse internacional no restante do governo persa. O sumo sacerdote judeu governava o país, e o ofício passou a ser altamente cobiçado. Ocorreram diversas disputas infames pelo posto. Numa ocasião um sumo sacerdote matou o irmão quando este buscava o posto para si. O governador persa ficou tão estarrecido por este ato que impôs uma pesada multa sobre a população.
B – O Período de Alexandre, o Grande (335-323 a.C.) – Ao governo persa segui-se a ascensão de Alexandre ao poder sobre um vasto império, incluindo a Palestina. Filipe da Macedônia, seu pai, havia estendido o governo sobre toda a Grécia e se preparava para uma grande guerra com a Pérsia, quando foi assassinado. Sucedeu-o seu filho Alexandre, então com apenas vinte anos de idade, e dentro de pouco tempo acabou com o poder da Pérsia.
Em 335 a.C., Alexandre deu início a seu memorável reinado de doze anos. Depois de consolidar o governo em sua terra natal, ele rumou para o leste conquistando a Síria, a Palestina, o Egito e, finalmente a própria Pérsia. Ele buscou conquistar terras mais ao leste, porém suas tropas se recusaram a fazê-lo. Morreu na Babilônia em 323 a.C. Em seus trinta e três anos de vida ele deixou um marco indelével na história.
C – A Era dos Ptolomeus (323-204 a.C.) – Ninguém sucedeu a Alexandre. Finalmente, quatro de seus generais dividiram o império. Dois deles, Ptolomeu e Seleuco I, envolver-se-iam no governo da Palestina.
Depois de algumas lutas entre esses generais, o Egito caiu nas mãos de Ptolomeu Sóter. A Palestina também foi acrescentada ao seu quinhão. No início Ptolomeu Sóter foi duro com os judeus. Mais tarde ele os empregou em várias partes de seu reino, muitas vezes em altos postos.
Seu sucesso, Ptolomeu Filadelfo, foi um dos mais eminentes deles. Amável para com os judeus, promoveu as artes e desenvolveu o império em todos os aspectos. As Escrituras Hebraicas foram traduzidas para o grego durante seu reinado na cidade egípcia de Alexandria. A Septuaginta, como se denominou essa versão, podia ser lida, portanto, em todo o império.
Com o passar do tempo, cresceram as rivalidades entre os reis do Egito (os ptolomeus) e os reis da Síria (os selêucidas). A rivalidade atingiu o clímax nos reinados de Ptolomeu Filópater (222-204 a.C.) e Antíoco o Grande, da Síria (223-187 a.C.). Filópater venceu a Antíoco numa batalha nas proximidades de Gaza. Em sua volta da batalha, Filópater visitou Jerusalém e decidiu entrar no Santo dos Santos no templo. Embora o sumo sacerdote tentasse dissuadi-lo, ele fez a tentativa. Relata Josefo que ao aproximar-se do Santo Lugar, foi tomado de tal terror que saiu do templo.
Visto que os judeus lhe faziam oposição, Filópater retirou-lhes os privilégios, multou-os, e começou a persegui-los sem dó nem piedade. Capturando em Alexandria todos os judeus que pôde, trancafiou-nos num hipódromo cheio de elefantes embriagados. Esperava que os elefantes caíssem sobre os judeus, esmagando-os. Não foi o que aconteceu. Enfurecidos, os elefantes escaparam, matando muitos dos espectadores. Filópater interpretou isso como um sinal de Deus a favor dos judeus e parou de persegui-los. Ao morrer, em 204 a.C., sucedeu-o seu filho Ptolomeu Epifânio, com apenas cinco anos de idade.
Antíoco o Grande, de Síria, aproveitou a oportunidade para arrebatar do Egito o controle da Palestina.
D – O Período Sírio (204-166 a.C.) – Os egípcios enviaram uma embaixada a Roma pedindo-lhe ajuda contra Antíoco. Acedendo ao pedido, Roma mandou um exército, que a princípio não obteve êxito. Finalmente, porém, eles obrigaram Antíoco a evacuar toda a região ao ocidente e ao norte das montanhas do Taurus. Numa incursão ao oriente para financiar a guerra, Antíoco foi morto pelos habitantes da província de Elimais enquanto saqueava um templo de Júpiter.
O reinado de seu sucessor Seleuco Filópater não apresentou nenhum fato de relevo. Mas com a ascensão de Antíoco Epifânio (“a manifestação de Deus”), teve início uma das mais sombrias épocas da história judaica.
Onias, homem digno, exercia o sacerdócio em Jerusalém quando Epifânio começou a reinar. Visto que os gregos desejavam helenizar os judeus, Epifânio vendeu o cargo de sumo sacerdote ao irmão de Onias, por trezentos e sessenta talentos. Onias fugiu da cidade. O usurpador mudou de nome; de Jesus passou a chamar-se Jasão, colaborando dessa maneira com Antíoco em seu esforço de impor a cultura e a religião gregas aos judeus. Os velhos costumes hebreus e suas práticas religiosas foram desestimulados; judeus foram enviados a Tiro a fim de tomar parte nos jogos em homenagem ao deus pagão Hércules, e em seu altar eram oferecidos sacrifícios. Finalmente, Menelau, outro irmão, fez oferta maior que a de Jasão pelo sacerdócio e intensificou o ataque ao judaísmo.
Com a ida de Antíoco Epifânio ao Egito para sufocar um levante, correu o boato de que ele fora morto e os judeus começaram a celebrar o fato com grande alegria. Sabedor disso, ele voltou a Jerusalém, sitiou e tomou a cidade, e massacrou quarenta mil judeus. Para mostrar seu desprezo pela religião judaica, entrou no Santo dos Santos, sacrificou uma porca sobre o altar, e espargiu o sangue sobre o edifício. Por sua ordem o templo passou a ser templo do Zeus olímpio; proibiram-se o culto e os sacrifícios judaicos que foram substituídos pelos ritos pagãos. Proibiu-se a circuncisão, e a mera posse de uma cópia da Lei se tornou ofensa punível com a morte.
Os judeus resistiram. Um homem chamado Eleazar, idoso escriba de elevada posição, foi morto porque se recusou a comer carne de porco. Um após outro, a mãe e seus sete filhos tiveram a língua cortada, os dedos das mãos e dos pés amputados, e lançados num tacho fervente. Um grupo de resistentes, em número aproximado de mil pessoas, foi atacado no sábado. Recusando-se a quebrar as proibições sabáticas, foram mortos sem luta.
Uma família da classe sacerdotal, chamada asmoneus, resistiu vigorosamente aos éditos. Quando os emissários da Síria tentaram fazer cumprir os decretos de Epifânio, Matatias, pai da família chamada macabeus, recusou-se a adorar os deuses pagãos. Havendo-se apresentado outro cidadão para oferecer sacrifícios no altar aos deuses pagãos, Matatias matou-o. Então ele conduziu um bando à região desértica onde Davi havia, por tantos anos, eludido a Saul.
Aos poucos cresceu o número dos que se puseram ao lado dos macabeus. Os sírios lançaram três campanhas contra esses fiéis judeus, uma pelo próprio Antíoco Epifânio; mas nenhuma teve êxito. Algum tempo depois morreu Epifânio e irrompeu a guerra civil. Judas Macabeu, que sucedera a seu pia Matatias, estendeu seu controle sobre grande parte da Palestina, incluindo partes de Jerusalém. Três anos após o dia de sua profanação, o templo foi purificado e os sírios estabeleceram a paz com os judeus.
E – A Era Macabéia (166-137 a.C.) – Judas Macabeu não gozou de paz por muito tempo, e sem mais delongas apelou para os romanos, pedindo assistência contra a Síria. Judas morreu em combate antes de chegar a ajuda, e seu irmão Jônatas tomou-lhe o lugar. Por causa da fraqueza da Síria, Jônatas tornou-se o comandante da Judéia. Ao morrer, foi sucedido por outro irmão, Simão, que também apelou para Roma em busca de socorro. Os romanos fizeram Simão governador da Judéia, e seu trono passou a ser hereditário.
Por esse tempo os partidos dos fariseus e dos saduceus eram rivais. Simão teve como sucessor seu filho João Hircano, que primeiro se filiou a uma e depois a outra das seitas oponentes. Não demorou o estouro da guerra civil quando seus dois netos, Hircano e Aristóbulo lutavam pelo trono vago por sua morte. Os romanos preferiram Hircano, e Pompeu, general romano, tomou Jerusalém de Aristóbulo.
Os cercos, as batalhas, os homicídios e os massacres que se seguiram marcaram um período de turbulência na história judaica. Embora presenteados com a oportunidade de restaurar Israel a uma posição de grande poder e influência, desperdiçaram-na com lutas entre famílias.
F – A Dominação Romana (De 37 a.C. até ao período do Novo Testamento) – Pompeu, Crasso e Júlio César reinaram sobre Roma como o primeiro triunvirato, mas Júlio César logo se tornou o governante único. Ele recolocou Hircano no trono em Jerusalém e nomeou a Antípatro, cidadão da Iduméia, como procurador sob as ordens de Hircano. Os dois filhos de Antípatro, Faselo e Herodes tornaram-se governadores da Judéia e da Galiléia. No ano seguinte Antípatro foi envenenado; três anos mais tarde, Júlio César foi assassinado em Roma.
Um novo triunvirato – Otávio (sobrinho de César), Marco Antônio e Lépido – passou a governar Roma. Antônio governava a Síria e o Oriente. Favoreceu a Herodes, e esta amizade levou essa família edomita à ascensão ao poder. Herodes casou-se com Mariana, neta de Hircano, e tornou-se parte da família macabéia.
Mais ou menos por esse tempo surgiu um novo distúrbio no país. Antígono, filho de Aristóbulo, conquistou sucesso passageiro ao cortar as orelhas de Hircano, o sumo sacerdote, impossibilitando-o de exercer o ofício. Na luta seguinte Herodes foi pressionado por Antígono, a ter de fugir para a fortaleza chamada Masada em busca de segurança. Depois ele foi a Roma, descreveu aos romanos a desordem dominante, e foi nomeado rei. Antígono foi morto, e isso acabou para sempre com o governo dos macabeus ou asmoneus.
Pouco tempo depois do suicídio de Antônio no Egito, Herodes estendeu seu poder na Judéia. Vivia sob o pavor de que um descendente dos macabeus subisse em poder para tomar-lhe o trono. Tendo Aristóbulo, irmão de Mariana, sido nomeado sumo sacerdote, sua popularidade fez com que Herodes mandasse afogá-lo. Mariana ficou enfurecida, e Herodes mandou executá-la. Nos anos seguintes ele tornou-se cada vez mais vingativo, e seus atos sangrentos provocaram a ira dos judeus.
Para acalmar a hostilidade dos judeus, ele deu início a um programa de obras públicas. Seu principal empreendimento foi a reconstrução do templo. Mas com isso não terminaram os problemas de Herodes, nem os da nação. Ele estava cercado por um grupo de homens que exploravam sua paranóia. Seus dois filhos, à semelhança de sua mãe Mariana, vítimas da ira paterna, foram estrangulados. Em certa ocasião um grande número de fariseus tiveram o mesmo destino. Outros atos igualmente sangrentos continuaram durante e seu reinado. Perto do fim da vida, esse governante dominado pelo medo ordenou o massacre dos infantes de Belém quando nasceu Jesus, o rival Rei dos judeus.
Os quatrocentos anos decorridos desde a profecia de Malaquias até à vinda de Cristo são conhecidos como Período Intertestamentário. Os livros dos Macabeus, que descrevem a revolta macabéia e o caos na Palestina, e os escritos de Josefo, historiador do primeiro século da era cristã, são as principais fontes de informação sobre esse período.
O livro de Daniel deu uma visão prévia desses anos. Através do olho da profecia Daniel esboçou os principais acontecimentos políticos dessa época. Daniel viveu durante a ascensão da Babilônia como potência mundial. Ele viu o reino desaparecer e ser substituído pelo governo medo-persa. Em sua visão profética Daniel viu, portanto, a ascensão de outras grandes forças que dominariam o período intermediário dos Testamentos: Alexandre, os Ptolomeus do Egito, os Selêucidas da Síria, os Macabeus e os Romanos.
A – O Último Período Persa (até 331 a.C.) – O Antigo Testamento encerra-se com o Império Persa ainda no poder. Ciro havia permitido aos judeus voltar à terra para reconstruir o templo (538 a.C.). Ester, judia, havia ascendido à proeminência no palácio do rei persa (470 a.C.). Esdras (456 a.C.) e Neemias (443 a.C.) haviam voltado ao país e instituído reformas.
Nada aconteceu na Palestina de muito interesse internacional no restante do governo persa. O sumo sacerdote judeu governava o país, e o ofício passou a ser altamente cobiçado. Ocorreram diversas disputas infames pelo posto. Numa ocasião um sumo sacerdote matou o irmão quando este buscava o posto para si. O governador persa ficou tão estarrecido por este ato que impôs uma pesada multa sobre a população.
B – O Período de Alexandre, o Grande (335-323 a.C.) – Ao governo persa segui-se a ascensão de Alexandre ao poder sobre um vasto império, incluindo a Palestina. Filipe da Macedônia, seu pai, havia estendido o governo sobre toda a Grécia e se preparava para uma grande guerra com a Pérsia, quando foi assassinado. Sucedeu-o seu filho Alexandre, então com apenas vinte anos de idade, e dentro de pouco tempo acabou com o poder da Pérsia.
Em 335 a.C., Alexandre deu início a seu memorável reinado de doze anos. Depois de consolidar o governo em sua terra natal, ele rumou para o leste conquistando a Síria, a Palestina, o Egito e, finalmente a própria Pérsia. Ele buscou conquistar terras mais ao leste, porém suas tropas se recusaram a fazê-lo. Morreu na Babilônia em 323 a.C. Em seus trinta e três anos de vida ele deixou um marco indelével na história.
C – A Era dos Ptolomeus (323-204 a.C.) – Ninguém sucedeu a Alexandre. Finalmente, quatro de seus generais dividiram o império. Dois deles, Ptolomeu e Seleuco I, envolver-se-iam no governo da Palestina.
Depois de algumas lutas entre esses generais, o Egito caiu nas mãos de Ptolomeu Sóter. A Palestina também foi acrescentada ao seu quinhão. No início Ptolomeu Sóter foi duro com os judeus. Mais tarde ele os empregou em várias partes de seu reino, muitas vezes em altos postos.
Seu sucesso, Ptolomeu Filadelfo, foi um dos mais eminentes deles. Amável para com os judeus, promoveu as artes e desenvolveu o império em todos os aspectos. As Escrituras Hebraicas foram traduzidas para o grego durante seu reinado na cidade egípcia de Alexandria. A Septuaginta, como se denominou essa versão, podia ser lida, portanto, em todo o império.
Com o passar do tempo, cresceram as rivalidades entre os reis do Egito (os ptolomeus) e os reis da Síria (os selêucidas). A rivalidade atingiu o clímax nos reinados de Ptolomeu Filópater (222-204 a.C.) e Antíoco o Grande, da Síria (223-187 a.C.). Filópater venceu a Antíoco numa batalha nas proximidades de Gaza. Em sua volta da batalha, Filópater visitou Jerusalém e decidiu entrar no Santo dos Santos no templo. Embora o sumo sacerdote tentasse dissuadi-lo, ele fez a tentativa. Relata Josefo que ao aproximar-se do Santo Lugar, foi tomado de tal terror que saiu do templo.
Visto que os judeus lhe faziam oposição, Filópater retirou-lhes os privilégios, multou-os, e começou a persegui-los sem dó nem piedade. Capturando em Alexandria todos os judeus que pôde, trancafiou-nos num hipódromo cheio de elefantes embriagados. Esperava que os elefantes caíssem sobre os judeus, esmagando-os. Não foi o que aconteceu. Enfurecidos, os elefantes escaparam, matando muitos dos espectadores. Filópater interpretou isso como um sinal de Deus a favor dos judeus e parou de persegui-los. Ao morrer, em 204 a.C., sucedeu-o seu filho Ptolomeu Epifânio, com apenas cinco anos de idade.
Antíoco o Grande, de Síria, aproveitou a oportunidade para arrebatar do Egito o controle da Palestina.
D – O Período Sírio (204-166 a.C.) – Os egípcios enviaram uma embaixada a Roma pedindo-lhe ajuda contra Antíoco. Acedendo ao pedido, Roma mandou um exército, que a princípio não obteve êxito. Finalmente, porém, eles obrigaram Antíoco a evacuar toda a região ao ocidente e ao norte das montanhas do Taurus. Numa incursão ao oriente para financiar a guerra, Antíoco foi morto pelos habitantes da província de Elimais enquanto saqueava um templo de Júpiter.
O reinado de seu sucessor Seleuco Filópater não apresentou nenhum fato de relevo. Mas com a ascensão de Antíoco Epifânio (“a manifestação de Deus”), teve início uma das mais sombrias épocas da história judaica.
Onias, homem digno, exercia o sacerdócio em Jerusalém quando Epifânio começou a reinar. Visto que os gregos desejavam helenizar os judeus, Epifânio vendeu o cargo de sumo sacerdote ao irmão de Onias, por trezentos e sessenta talentos. Onias fugiu da cidade. O usurpador mudou de nome; de Jesus passou a chamar-se Jasão, colaborando dessa maneira com Antíoco em seu esforço de impor a cultura e a religião gregas aos judeus. Os velhos costumes hebreus e suas práticas religiosas foram desestimulados; judeus foram enviados a Tiro a fim de tomar parte nos jogos em homenagem ao deus pagão Hércules, e em seu altar eram oferecidos sacrifícios. Finalmente, Menelau, outro irmão, fez oferta maior que a de Jasão pelo sacerdócio e intensificou o ataque ao judaísmo.
Com a ida de Antíoco Epifânio ao Egito para sufocar um levante, correu o boato de que ele fora morto e os judeus começaram a celebrar o fato com grande alegria. Sabedor disso, ele voltou a Jerusalém, sitiou e tomou a cidade, e massacrou quarenta mil judeus. Para mostrar seu desprezo pela religião judaica, entrou no Santo dos Santos, sacrificou uma porca sobre o altar, e espargiu o sangue sobre o edifício. Por sua ordem o templo passou a ser templo do Zeus olímpio; proibiram-se o culto e os sacrifícios judaicos que foram substituídos pelos ritos pagãos. Proibiu-se a circuncisão, e a mera posse de uma cópia da Lei se tornou ofensa punível com a morte.
Os judeus resistiram. Um homem chamado Eleazar, idoso escriba de elevada posição, foi morto porque se recusou a comer carne de porco. Um após outro, a mãe e seus sete filhos tiveram a língua cortada, os dedos das mãos e dos pés amputados, e lançados num tacho fervente. Um grupo de resistentes, em número aproximado de mil pessoas, foi atacado no sábado. Recusando-se a quebrar as proibições sabáticas, foram mortos sem luta.
Uma família da classe sacerdotal, chamada asmoneus, resistiu vigorosamente aos éditos. Quando os emissários da Síria tentaram fazer cumprir os decretos de Epifânio, Matatias, pai da família chamada macabeus, recusou-se a adorar os deuses pagãos. Havendo-se apresentado outro cidadão para oferecer sacrifícios no altar aos deuses pagãos, Matatias matou-o. Então ele conduziu um bando à região desértica onde Davi havia, por tantos anos, eludido a Saul.
Aos poucos cresceu o número dos que se puseram ao lado dos macabeus. Os sírios lançaram três campanhas contra esses fiéis judeus, uma pelo próprio Antíoco Epifânio; mas nenhuma teve êxito. Algum tempo depois morreu Epifânio e irrompeu a guerra civil. Judas Macabeu, que sucedera a seu pia Matatias, estendeu seu controle sobre grande parte da Palestina, incluindo partes de Jerusalém. Três anos após o dia de sua profanação, o templo foi purificado e os sírios estabeleceram a paz com os judeus.
E – A Era Macabéia (166-137 a.C.) – Judas Macabeu não gozou de paz por muito tempo, e sem mais delongas apelou para os romanos, pedindo assistência contra a Síria. Judas morreu em combate antes de chegar a ajuda, e seu irmão Jônatas tomou-lhe o lugar. Por causa da fraqueza da Síria, Jônatas tornou-se o comandante da Judéia. Ao morrer, foi sucedido por outro irmão, Simão, que também apelou para Roma em busca de socorro. Os romanos fizeram Simão governador da Judéia, e seu trono passou a ser hereditário.
Por esse tempo os partidos dos fariseus e dos saduceus eram rivais. Simão teve como sucessor seu filho João Hircano, que primeiro se filiou a uma e depois a outra das seitas oponentes. Não demorou o estouro da guerra civil quando seus dois netos, Hircano e Aristóbulo lutavam pelo trono vago por sua morte. Os romanos preferiram Hircano, e Pompeu, general romano, tomou Jerusalém de Aristóbulo.
Os cercos, as batalhas, os homicídios e os massacres que se seguiram marcaram um período de turbulência na história judaica. Embora presenteados com a oportunidade de restaurar Israel a uma posição de grande poder e influência, desperdiçaram-na com lutas entre famílias.
F – A Dominação Romana (De 37 a.C. até ao período do Novo Testamento) – Pompeu, Crasso e Júlio César reinaram sobre Roma como o primeiro triunvirato, mas Júlio César logo se tornou o governante único. Ele recolocou Hircano no trono em Jerusalém e nomeou a Antípatro, cidadão da Iduméia, como procurador sob as ordens de Hircano. Os dois filhos de Antípatro, Faselo e Herodes tornaram-se governadores da Judéia e da Galiléia. No ano seguinte Antípatro foi envenenado; três anos mais tarde, Júlio César foi assassinado em Roma.
Um novo triunvirato – Otávio (sobrinho de César), Marco Antônio e Lépido – passou a governar Roma. Antônio governava a Síria e o Oriente. Favoreceu a Herodes, e esta amizade levou essa família edomita à ascensão ao poder. Herodes casou-se com Mariana, neta de Hircano, e tornou-se parte da família macabéia.
Mais ou menos por esse tempo surgiu um novo distúrbio no país. Antígono, filho de Aristóbulo, conquistou sucesso passageiro ao cortar as orelhas de Hircano, o sumo sacerdote, impossibilitando-o de exercer o ofício. Na luta seguinte Herodes foi pressionado por Antígono, a ter de fugir para a fortaleza chamada Masada em busca de segurança. Depois ele foi a Roma, descreveu aos romanos a desordem dominante, e foi nomeado rei. Antígono foi morto, e isso acabou para sempre com o governo dos macabeus ou asmoneus.
Pouco tempo depois do suicídio de Antônio no Egito, Herodes estendeu seu poder na Judéia. Vivia sob o pavor de que um descendente dos macabeus subisse em poder para tomar-lhe o trono. Tendo Aristóbulo, irmão de Mariana, sido nomeado sumo sacerdote, sua popularidade fez com que Herodes mandasse afogá-lo. Mariana ficou enfurecida, e Herodes mandou executá-la. Nos anos seguintes ele tornou-se cada vez mais vingativo, e seus atos sangrentos provocaram a ira dos judeus.
Para acalmar a hostilidade dos judeus, ele deu início a um programa de obras públicas. Seu principal empreendimento foi a reconstrução do templo. Mas com isso não terminaram os problemas de Herodes, nem os da nação. Ele estava cercado por um grupo de homens que exploravam sua paranóia. Seus dois filhos, à semelhança de sua mãe Mariana, vítimas da ira paterna, foram estrangulados. Em certa ocasião um grande número de fariseus tiveram o mesmo destino. Outros atos igualmente sangrentos continuaram durante e seu reinado. Perto do fim da vida, esse governante dominado pelo medo ordenou o massacre dos infantes de Belém quando nasceu Jesus, o rival Rei dos judeus.
O Período do Novo Testamento
CENÁRIO DO NOVO TESTAMENTO
O Período do Novo Testamento
Quatro capítulos mais adiante relatarão os fatos bíblicos da história do Novo Testamento (Jesus Cristo, Os Apóstolos, A Igreja Primitiva, e Paulo e Suas Viagens). Esta seção examinará a história política da era neotestamentária.
Os romanos permaneceram como governantes supremos da Palestina durante os tempos do Novo Testamento. A família de Herodes, juntamente com os procuradores romanos nomeados, governava sob a autoridade de Roma.
O Novo Testamento inicia-se com o nascimento de Jesus. Herodes o Grande era rei, mas seu governo aproximava-se do fim. Os últimos anos de seu reinado foram cheios de conspiração e contraconspiração enquanto os membros de sua família disputavam o poder. Pouco antes do nascimento de Cristo ele havia executado os dois filhos que tivera com Mariana. Outro filho, Antípatro, conspirou contra Herodes e foi executado apenas cinco dias antes da morte do pai, no ano 4 a.C. Para os romanos Herodes foi um rei vassalo digno de confiança e capaz, mas para os judeus ele foi um tirano egoísta.
Sucederam-no seus filhos. Arquelau (4 a.C. – 6 d.C.) governou na Judéia. O menos estimado dos filhos de Herodes, ele foi cruel e despótico. As queixas dos judeus contra ele finalmente o levaram ao exílio. Herodes Antipas (4 a.C. – 39 d.C.) foi nomeado tetrarca da Galiléia e da Peréia. Este orgulhoso e hábil governante foi menos brutal que Arquelau, mas assassinou João Batista que denunciara seu casamento com Herodias. Favorecido pelo imperador romano Tibério (14-37 d.C.), foi exilado no ano 39 d.C., por ordem de Calígula (37-41 d.C.).
Filipe (4 a.C. – 34 d.C.), terceiro filho de Herodes, foi tetrarca das regiões da Ituréia e Traconites (Lucas 3.1). Filipe parece ter sido um governante relativamente justo e benevolente. Sua capital era Cesaréia de Filipe (Mateus 16.13; Marcos 8.27), e as moedas que ele cunhou foram as primeiras moedas judaicas a trazer efígie humana (a de Augusto ou de Tibério). Morreu no ano 34 d.C. e seu território foi afinal acrescentado ao de Herodes Agripa I.
Após o exílio de Arquelau, sua tetrarquia (Judéia, Samaria e Iduméia) foi governada por procuradores romanos (6 – 41 d.C.). Quirino, governador da Síria, chegou à Judéia no ano 6 d.C. a fim de alistar o povo para efeitos de tributação. Este ato provocou os patriotas da Judéia, mas as autoridades judaicas os acalmaram por algum tempo. Contudo, Judas, o galileu, liderou o povo na revolta contra os romanos e contra Herodes. Logo foi morto (Atos 5.37) é possível que seus seguidores constituíssem o partido dos zelotes (Lucas 6.15; Atos 1.13).
Os procuradores da Judéia eram diretamente responsáveis perante Roma. Morando em Cesaréia, eles só vinham a Jerusalém em ocasiões especiais, como as festas anuais. Augusto dava aos seus procuradores prazos curtos, mas Tibério os deixava no cargo por mais tempo, para que o povo não fosse explorado com tanta freqüência pelos recém chegados. Pilatos foi o quinto procurador e também o mais conhecido por causa da crucificação de Jesus. Governante inflexível e severo, ele foi brutal para os judeus. Seu massacre sem justificativa dos adoradores samaritanos e outras execuções causaram-lhe a queda em 36 d.C.
Herodes Agripa I alcançou a proeminência em 37-44 d.C. e despojou os procuradores de seus poderes. Como herdeiro da família dos macabeus, ou asmoneus, e em virtude de sua observância da Lei, ele era estimado entre os fariseus. Esta estima ou popularidade era realçada por sua hostilidade aos cristãos (Atos 12). Morreu repentinamente no ano 44 d.C., e seu reino voltou a ser governado pelos procuradores. As condições pioraram sob os procuradores até que precipitaram a rebelião judaica contra o governo romano em 66-70 d.C.
Fadus (44-46 d.C.) cometeu o engano de reclamar a custódia das vestes dos sumos sacerdotes, o que resultou num breve levante. As vestes estiveram nas mãos dos romanos desde 6-36 d.C., mas haviam estado nas mãos dos judeus desde 36 d.C. até ao tempo de Fadus. Alexandre (46-48 d.C.) crucificou os dois filhos de Judas, o galileu, Tiago e Simão, por se haverem rebelado. Cumanus (48-52 d.C.) governou uma era até mais tumultuosa. Havendo um soldado romano feito um gesto indecente durante a Páscoa, irromperam levantes e diversas pessoas foram mortas. Noutra ocasião, um soldado fez em pedaços um rolo da Lei e Cumanus foi obrigado a executá-lo depois que uma multidão de judeus chegou a Cesaréia para protestar. Tais incidentes levaram-no, afinal, ao exílio.
Félix (52-60 d.C.) era francamente hostil aos judeus, e suas ações finalmente degeneraram em guerra. Suas drásticas providências para frear os zelotes, grupo de patriotas judeus favoráveis à guerra conta os romanos, não fizeram outra coisa senão aumentar a popularidade do grupo entre o povo. Foi dentre eles que surgiram os sicários, ou assassinos. Esses judeus fanáticos assassinaram muita gente, incluindo o sumo sacerdote Jônatas. O método de Félix de governar pelo terror e assassínio uniu os fanáticos com as massas e isto fez com que fosse chamado de volta a Roma.
Festo (60-62 d.C.) herdou uma situação descontrolada. Ele tentou pacificar o interior, a zona rural, mas o fervor dos fanáticos religiosos e políticos crescia. Festo morreu durante seu mandato, e em Jerusalém a anarquia predominou por completo. Foi nessa ocasião que mataram Tiago, irmão de Jesus. Levantaram-se sumos sacerdotes rivais, competindo pela autoridade; e seus adeptos travaram batalhas campais nas ruas. Quando Albino (62-64 d.C.) chegou a Jerusalém, deliberadamente agravou o problema para promover-se a si próprio em vez de tentar restaurar a ordem. Prendeu muitos , mas pôs em liberdade os que lhe dessem um suborno bastante grande.
Relata Josefo que seu sucessor, Floro (64-66 d.C.), era tão mau e violento que fazia Albino parecer um benfeitor público. Floro saqueava cidades inteiras. Permitia aos ladrões que pagassem suborno para o livre exercício de sua profissão. Por conseguinte, a nação judaica caiu numa situação intolerável. Desde 68 até 70 d.C. eles travaram uma guerra heróica que terminou em trágica derrota em 70 d.C., quando a cidade e o templo foram invadidos e destruídos.
A Vida de Jesus Cristo
O Novo Testamento conduz-nos ao clímax da obra redentora de Deus, porque nos apresenta o Messias, Jesus Cristo, e nos fala do começo da sua igreja. Os escritos de Mateus, Marcos, Lucas e João falam-nos do ministério de Jesus. Esses escritores foram testemunhas oculares da vida do Mestre, ou registraram o que testemunhas oculares lhes contaram, todavia não escreveram dele uma biografia completa. Tudo quando registraram, realmente aconteceu, porém concentraram-se no ministério de Jesus, e deixaram aqui e acolá algumas lacunas na história da vida do Divino Mestre.
Imaginemos alguém escrevendo uma carta a um amigo para apresentar-lhe uma pessoa importante. Estaria o autor da carta em condições de descrever tudo acerca da vida dessa pessoa? Claro que não. Ele só podia escrever acerca daquilo que conhecia – e provavelmente não tentaria, também, escrever tudo o que soubesse. Ele se concentraria no que, a seu ver, o amigo deseja e precisa conhecer.
Os homens que escreveram os Evangelhos fizeram a mesma coisa. Eles tinham em mira explicar a pessoa e a obra de Jesus, registrando o que ele fez e disse. E cada autor apresenta uma perspectiva ligeiramente diferente acerca de Jesus e de suas obras. Os autores dos Evangelhos não tentaram relatar todos os eventos da meninice de Jesus, porque não era esse o motivo de escreverem. Não procuravam dar-nos, tampouco, registro da vida cotidiana de Jesus. Eles se ativeram ao que é pertinente à salvação e ao discipulado.
Nesta seção seguiremos o exemplo dos Evangelistas. Simplesmente esboçaremos os principais acontecimentos da vida de Jesus e faremos um resumo de como ele levou ao clímax a história da redenção. Mais informação sobre a vida do Mestre o leitor encontrará no capítulo “Jesus Cristo”.
Muitos sabem algo a respeito do nascimento e da infância de Jesus Cristo. Por ocasião do Natal, ouvimos as alegres e tão conhecidas canções acerca da Virgem Maria (a mãe de Jesus), de sua viagem a Belém, decerto montada no lombo de um burro, e do nascimento do bebê Jesus Cristo – verdadeiro homem e verdadeiro Deus, que veio à terra para salvar o povo de Deus. Ouvimos a tão familiar história de como Jesus nasceu em Belém, da manjedoura em que ele estava deitado, e dos anjos que anunciaram que Jesus era o rei da descendência de Davi, de longa data esperado.
Os sábios (magos) que trouxeram presentes para o menino Jesus são figuras misteriosas. Não sabemos de que país (ou países) vieram; só sabemos que eram “do oriente” (Mateus 2.1). Bem podem ter vindo dos grandes impérios orientais da Mesopotâmia, Babilônia, ou Pérsia. Eles estudavam as estrelas e viram que nascia entre os judeus um novo rei, por isso vieram a Jerusalém, a capital judaica, para prestar as suas homenagens. Quão surpresos devem ter ficado ao saber que o rei Herodes não tinha novos filhos! Então seguiram uma clara profecia de Miquéias 5.2, que os levou a Belém onde encontraram o menino Jesus.
A Bíblia não diz que eram três os magos, mas os pintores geralmente têm retratado três para mostrar as três dádivas que trouxeram – ouro, incenso e mirra (Mateus 2.11). Evidentemente os magos vieram ver Jesus diversos meses depois do seu nascimento, e alguns estudiosos pensam que Jesus já devia estar com dois anos de idade.
Depois que Jesus nasceu, os pais o levaram ao templo em Jerusalém para ser consagrado (Lucas 2.22.28). Começaram a prepará-lo para viver “em graça, diante de Deus e dos homens” (Lucas 2.52).
O rei Herodes desejava assegurar-se de que as pessoas não se congregassem em torno do rei menino para dar início a uma rebelião, por isso ordenou aos seus soldados que matassem todos os meninos em Belém e dos arredores (Mateus 2.16). A família de Jesus fugiu para o Egito a fim de escapar ao perverso decreto. Morto Herodes, eles voltaram para a Palestina e se estabeleceram na cidade de Nazaré.
Nada mais diz a Bíblia acerca de Jesus até ele estar com doze ou treze anos. Então, para assumir seu próprio papel na congregação judaica, ele tinha de fazer uma visita especial a Jerusalém e oferecer sacrifício no templo. Enquanto estava ali, Jesus conversou com os dirigentes religiosos sobre a fé judaica. Ele revelou extraordinária compreensão do verdadeiro Deus, e suas respostas deixaram-nos admirados. Mais tarde, de volta para casa, os pais de Jesus notaram a sua ausência. Encontraram-no no templo, ainda conversando com os especialistas judaicos.
De novo, a Bíblia se cala até ao ponto em que nos apresenta os acontecimentos que deram início ao ministério de Jesus, tendo ele cerca de trinta anos. Primeiro vemos João Batista deixando o deserto e pregando nas cidades ao longo do rio Jordão, instando com o povo a que se preparasse para receber o Messias (Lucas 3.3-9). João nasceu no seio de uma família piedosa e cresceu para amar e servir fielmente a Deus. Deus falava por intermédio de João, e multidões acudiam para ouvi-lo pregar. Dizia-lhes que se voltassem para Deus e começassem a obedecer-lhe. Ao ver Jesus, ele anunciou que este homem era o “...Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29). João batizou a Jesus; e ao sair Jesus da água, Deus enviou o Espírito Santo em forma de pomba, que pousou sobre ele.
O Espírito Santo guiou Jesus ao deserto, e aí ele permaneceu sem alimentar-se durante quarenta dias. Enquanto ele se encontrava nessa situação de enfraquecimento, o diabo veio e procurou tentá-lo de vários modos. Jesus recusou as propostas do diabo e ordenou que ele se retirasse. Então vieram anjos que o alimentarem e confortaram.
A princípio Jesus tinha a estima do povo. Na região do mar da Galiléia ele foi a uma festa de casamento e transformou água em vinho. Este foi o primeiro de seus milagres que a Bíblia menciona. Este milagre, da mesma forma que os últimos, demonstrou que ele era verdadeiramente Deus. Da Galiléia ele foi para Jerusalém onde expulsou do templo um grupo de religiosos vendedores ambulantes. Pela primeira vez ele asseverou de público sua autoridade sobre a vida religiosa do povo, o que fez que muitos dos dirigentes religiosos voltassem contra ele.
Um desses dirigentes, Nicodemos, viu que Jesus ensinava a verdade acerca de Deus. Certa noite ele foi ter com Jesus e lhe pergunto como poderia entrar no reino de Deus, que é o reino de redenção e salvação. Jesus disse a Nicodemos que ele devia “nascer de novo” (João 3.3); em outras palavras, ele tinha de tornar-se uma nova pessoa. Desta conversa de Jesus com Nicodemos aprendemos que o cristão é uma pessoa que “nasceu de novo”.
Quando João Batista começou a pregar e atrair grandes multidões na Judéia, Jesus voltou para a Galiléia. Aí ele operou muitos milagres e grandes multidões o cercavam. Infelizmente, as multidões estavam mais interessadas nos seus milagres do que nos seus ensinos.
Não obstante, Jesus continuou ensinando. Ele entrava nos lares, participava das festas públicas, e adorava com outros judeus em suas sinagogas. Denunciou os dirigentes religiosos do seu tempo porque exibiam uma fé hipócrita. Ele não rejeitou a religião formal deles; pelo contrário, Jesus respeitava o templo e a adoração que aí se prestava (cf. Mateus 5.17-18). Mas os fariseus e outros dirigentes não viram nele o Messias e não cuidaram de ser salvos do pecado. Além do mais, não satisfeitos com o que Deus lhes revelara no Antigo Testamento, continuaram fazendo-lhe acréscimo e revisando-o. Acreditavam que sua versão das Escrituras, examinada nos seus mínimos detalhes, dava-lhes a única religião verdadeira. Jesus chamou-os de volta às primitivas palavras de Deus. Ele era cuidadoso na sua forma de citar as Escrituras, e incitava seus seguidores a entendê-las melhor. Ensinava que o conhecimento básico das Escrituras mostraria que a vontade de Deus era que as pessoas fossem salvas mediante a fé nele.
Perto da Galiléia, Jesus operou seu mais surpreendente milagre até então. Tomou sete pães e dois peixes, abençoou-os e partiu-os em pedaços suficientes para alimentar quatro mil pessoas! Mas este milagre não atraiu mais gente à fé em Jesus; na verdade, as pessoas se retiraram porque não podiam imaginar por que e como ele queria que elas “comessem” seu corpo e “bebessem” seu sangue (João 6.52-66).
Os doze discípulos, porém, permaneceram fiéis, e ele começou a concentrar seus esforços em prepará-los. Cada vez mais ensinava-lhes acerca de sua futura morte e ressurreição, explicando-lhes que eles também sofreriam a morte se continuassem a segui-lo.
Essa atitude de Jesus o leva ao fim da sua vida na terra. Judas Iscariotes, um dos doze, traiu-o, entregando-o aos líderes de Jerusalém, que lhe eram hostis, e eles pregaram Jesus numa cruz de madeira entre criminosos comuns. Mas ele ressuscitou e apareceu a muitos de seus seguidores, exatamente como havia prometido, e deu instruções finais aos seus discípulos mais íntimos. Enquanto o observavam subir ao céu, apareceu um anjo e disse que eles os veriam voltar do mesmo modo. Em outras palavras, ele voltaria de modo visível e em seu corpo físico.
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O Período do Novo Testamento
Quatro capítulos mais adiante relatarão os fatos bíblicos da história do Novo Testamento (Jesus Cristo, Os Apóstolos, A Igreja Primitiva, e Paulo e Suas Viagens). Esta seção examinará a história política da era neotestamentária.
Os romanos permaneceram como governantes supremos da Palestina durante os tempos do Novo Testamento. A família de Herodes, juntamente com os procuradores romanos nomeados, governava sob a autoridade de Roma.
O Novo Testamento inicia-se com o nascimento de Jesus. Herodes o Grande era rei, mas seu governo aproximava-se do fim. Os últimos anos de seu reinado foram cheios de conspiração e contraconspiração enquanto os membros de sua família disputavam o poder. Pouco antes do nascimento de Cristo ele havia executado os dois filhos que tivera com Mariana. Outro filho, Antípatro, conspirou contra Herodes e foi executado apenas cinco dias antes da morte do pai, no ano 4 a.C. Para os romanos Herodes foi um rei vassalo digno de confiança e capaz, mas para os judeus ele foi um tirano egoísta.
Sucederam-no seus filhos. Arquelau (4 a.C. – 6 d.C.) governou na Judéia. O menos estimado dos filhos de Herodes, ele foi cruel e despótico. As queixas dos judeus contra ele finalmente o levaram ao exílio. Herodes Antipas (4 a.C. – 39 d.C.) foi nomeado tetrarca da Galiléia e da Peréia. Este orgulhoso e hábil governante foi menos brutal que Arquelau, mas assassinou João Batista que denunciara seu casamento com Herodias. Favorecido pelo imperador romano Tibério (14-37 d.C.), foi exilado no ano 39 d.C., por ordem de Calígula (37-41 d.C.).
Filipe (4 a.C. – 34 d.C.), terceiro filho de Herodes, foi tetrarca das regiões da Ituréia e Traconites (Lucas 3.1). Filipe parece ter sido um governante relativamente justo e benevolente. Sua capital era Cesaréia de Filipe (Mateus 16.13; Marcos 8.27), e as moedas que ele cunhou foram as primeiras moedas judaicas a trazer efígie humana (a de Augusto ou de Tibério). Morreu no ano 34 d.C. e seu território foi afinal acrescentado ao de Herodes Agripa I.
Após o exílio de Arquelau, sua tetrarquia (Judéia, Samaria e Iduméia) foi governada por procuradores romanos (6 – 41 d.C.). Quirino, governador da Síria, chegou à Judéia no ano 6 d.C. a fim de alistar o povo para efeitos de tributação. Este ato provocou os patriotas da Judéia, mas as autoridades judaicas os acalmaram por algum tempo. Contudo, Judas, o galileu, liderou o povo na revolta contra os romanos e contra Herodes. Logo foi morto (Atos 5.37) é possível que seus seguidores constituíssem o partido dos zelotes (Lucas 6.15; Atos 1.13).
Os procuradores da Judéia eram diretamente responsáveis perante Roma. Morando em Cesaréia, eles só vinham a Jerusalém em ocasiões especiais, como as festas anuais. Augusto dava aos seus procuradores prazos curtos, mas Tibério os deixava no cargo por mais tempo, para que o povo não fosse explorado com tanta freqüência pelos recém chegados. Pilatos foi o quinto procurador e também o mais conhecido por causa da crucificação de Jesus. Governante inflexível e severo, ele foi brutal para os judeus. Seu massacre sem justificativa dos adoradores samaritanos e outras execuções causaram-lhe a queda em 36 d.C.
Herodes Agripa I alcançou a proeminência em 37-44 d.C. e despojou os procuradores de seus poderes. Como herdeiro da família dos macabeus, ou asmoneus, e em virtude de sua observância da Lei, ele era estimado entre os fariseus. Esta estima ou popularidade era realçada por sua hostilidade aos cristãos (Atos 12). Morreu repentinamente no ano 44 d.C., e seu reino voltou a ser governado pelos procuradores. As condições pioraram sob os procuradores até que precipitaram a rebelião judaica contra o governo romano em 66-70 d.C.
Fadus (44-46 d.C.) cometeu o engano de reclamar a custódia das vestes dos sumos sacerdotes, o que resultou num breve levante. As vestes estiveram nas mãos dos romanos desde 6-36 d.C., mas haviam estado nas mãos dos judeus desde 36 d.C. até ao tempo de Fadus. Alexandre (46-48 d.C.) crucificou os dois filhos de Judas, o galileu, Tiago e Simão, por se haverem rebelado. Cumanus (48-52 d.C.) governou uma era até mais tumultuosa. Havendo um soldado romano feito um gesto indecente durante a Páscoa, irromperam levantes e diversas pessoas foram mortas. Noutra ocasião, um soldado fez em pedaços um rolo da Lei e Cumanus foi obrigado a executá-lo depois que uma multidão de judeus chegou a Cesaréia para protestar. Tais incidentes levaram-no, afinal, ao exílio.
Félix (52-60 d.C.) era francamente hostil aos judeus, e suas ações finalmente degeneraram em guerra. Suas drásticas providências para frear os zelotes, grupo de patriotas judeus favoráveis à guerra conta os romanos, não fizeram outra coisa senão aumentar a popularidade do grupo entre o povo. Foi dentre eles que surgiram os sicários, ou assassinos. Esses judeus fanáticos assassinaram muita gente, incluindo o sumo sacerdote Jônatas. O método de Félix de governar pelo terror e assassínio uniu os fanáticos com as massas e isto fez com que fosse chamado de volta a Roma.
Festo (60-62 d.C.) herdou uma situação descontrolada. Ele tentou pacificar o interior, a zona rural, mas o fervor dos fanáticos religiosos e políticos crescia. Festo morreu durante seu mandato, e em Jerusalém a anarquia predominou por completo. Foi nessa ocasião que mataram Tiago, irmão de Jesus. Levantaram-se sumos sacerdotes rivais, competindo pela autoridade; e seus adeptos travaram batalhas campais nas ruas. Quando Albino (62-64 d.C.) chegou a Jerusalém, deliberadamente agravou o problema para promover-se a si próprio em vez de tentar restaurar a ordem. Prendeu muitos , mas pôs em liberdade os que lhe dessem um suborno bastante grande.
Relata Josefo que seu sucessor, Floro (64-66 d.C.), era tão mau e violento que fazia Albino parecer um benfeitor público. Floro saqueava cidades inteiras. Permitia aos ladrões que pagassem suborno para o livre exercício de sua profissão. Por conseguinte, a nação judaica caiu numa situação intolerável. Desde 68 até 70 d.C. eles travaram uma guerra heróica que terminou em trágica derrota em 70 d.C., quando a cidade e o templo foram invadidos e destruídos.
A Vida de Jesus Cristo
O Novo Testamento conduz-nos ao clímax da obra redentora de Deus, porque nos apresenta o Messias, Jesus Cristo, e nos fala do começo da sua igreja. Os escritos de Mateus, Marcos, Lucas e João falam-nos do ministério de Jesus. Esses escritores foram testemunhas oculares da vida do Mestre, ou registraram o que testemunhas oculares lhes contaram, todavia não escreveram dele uma biografia completa. Tudo quando registraram, realmente aconteceu, porém concentraram-se no ministério de Jesus, e deixaram aqui e acolá algumas lacunas na história da vida do Divino Mestre.
Imaginemos alguém escrevendo uma carta a um amigo para apresentar-lhe uma pessoa importante. Estaria o autor da carta em condições de descrever tudo acerca da vida dessa pessoa? Claro que não. Ele só podia escrever acerca daquilo que conhecia – e provavelmente não tentaria, também, escrever tudo o que soubesse. Ele se concentraria no que, a seu ver, o amigo deseja e precisa conhecer.
Os homens que escreveram os Evangelhos fizeram a mesma coisa. Eles tinham em mira explicar a pessoa e a obra de Jesus, registrando o que ele fez e disse. E cada autor apresenta uma perspectiva ligeiramente diferente acerca de Jesus e de suas obras. Os autores dos Evangelhos não tentaram relatar todos os eventos da meninice de Jesus, porque não era esse o motivo de escreverem. Não procuravam dar-nos, tampouco, registro da vida cotidiana de Jesus. Eles se ativeram ao que é pertinente à salvação e ao discipulado.
Nesta seção seguiremos o exemplo dos Evangelistas. Simplesmente esboçaremos os principais acontecimentos da vida de Jesus e faremos um resumo de como ele levou ao clímax a história da redenção. Mais informação sobre a vida do Mestre o leitor encontrará no capítulo “Jesus Cristo”.
Muitos sabem algo a respeito do nascimento e da infância de Jesus Cristo. Por ocasião do Natal, ouvimos as alegres e tão conhecidas canções acerca da Virgem Maria (a mãe de Jesus), de sua viagem a Belém, decerto montada no lombo de um burro, e do nascimento do bebê Jesus Cristo – verdadeiro homem e verdadeiro Deus, que veio à terra para salvar o povo de Deus. Ouvimos a tão familiar história de como Jesus nasceu em Belém, da manjedoura em que ele estava deitado, e dos anjos que anunciaram que Jesus era o rei da descendência de Davi, de longa data esperado.
Os sábios (magos) que trouxeram presentes para o menino Jesus são figuras misteriosas. Não sabemos de que país (ou países) vieram; só sabemos que eram “do oriente” (Mateus 2.1). Bem podem ter vindo dos grandes impérios orientais da Mesopotâmia, Babilônia, ou Pérsia. Eles estudavam as estrelas e viram que nascia entre os judeus um novo rei, por isso vieram a Jerusalém, a capital judaica, para prestar as suas homenagens. Quão surpresos devem ter ficado ao saber que o rei Herodes não tinha novos filhos! Então seguiram uma clara profecia de Miquéias 5.2, que os levou a Belém onde encontraram o menino Jesus.
A Bíblia não diz que eram três os magos, mas os pintores geralmente têm retratado três para mostrar as três dádivas que trouxeram – ouro, incenso e mirra (Mateus 2.11). Evidentemente os magos vieram ver Jesus diversos meses depois do seu nascimento, e alguns estudiosos pensam que Jesus já devia estar com dois anos de idade.
Depois que Jesus nasceu, os pais o levaram ao templo em Jerusalém para ser consagrado (Lucas 2.22.28). Começaram a prepará-lo para viver “em graça, diante de Deus e dos homens” (Lucas 2.52).
O rei Herodes desejava assegurar-se de que as pessoas não se congregassem em torno do rei menino para dar início a uma rebelião, por isso ordenou aos seus soldados que matassem todos os meninos em Belém e dos arredores (Mateus 2.16). A família de Jesus fugiu para o Egito a fim de escapar ao perverso decreto. Morto Herodes, eles voltaram para a Palestina e se estabeleceram na cidade de Nazaré.
Nada mais diz a Bíblia acerca de Jesus até ele estar com doze ou treze anos. Então, para assumir seu próprio papel na congregação judaica, ele tinha de fazer uma visita especial a Jerusalém e oferecer sacrifício no templo. Enquanto estava ali, Jesus conversou com os dirigentes religiosos sobre a fé judaica. Ele revelou extraordinária compreensão do verdadeiro Deus, e suas respostas deixaram-nos admirados. Mais tarde, de volta para casa, os pais de Jesus notaram a sua ausência. Encontraram-no no templo, ainda conversando com os especialistas judaicos.
De novo, a Bíblia se cala até ao ponto em que nos apresenta os acontecimentos que deram início ao ministério de Jesus, tendo ele cerca de trinta anos. Primeiro vemos João Batista deixando o deserto e pregando nas cidades ao longo do rio Jordão, instando com o povo a que se preparasse para receber o Messias (Lucas 3.3-9). João nasceu no seio de uma família piedosa e cresceu para amar e servir fielmente a Deus. Deus falava por intermédio de João, e multidões acudiam para ouvi-lo pregar. Dizia-lhes que se voltassem para Deus e começassem a obedecer-lhe. Ao ver Jesus, ele anunciou que este homem era o “...Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29). João batizou a Jesus; e ao sair Jesus da água, Deus enviou o Espírito Santo em forma de pomba, que pousou sobre ele.
O Espírito Santo guiou Jesus ao deserto, e aí ele permaneceu sem alimentar-se durante quarenta dias. Enquanto ele se encontrava nessa situação de enfraquecimento, o diabo veio e procurou tentá-lo de vários modos. Jesus recusou as propostas do diabo e ordenou que ele se retirasse. Então vieram anjos que o alimentarem e confortaram.
A princípio Jesus tinha a estima do povo. Na região do mar da Galiléia ele foi a uma festa de casamento e transformou água em vinho. Este foi o primeiro de seus milagres que a Bíblia menciona. Este milagre, da mesma forma que os últimos, demonstrou que ele era verdadeiramente Deus. Da Galiléia ele foi para Jerusalém onde expulsou do templo um grupo de religiosos vendedores ambulantes. Pela primeira vez ele asseverou de público sua autoridade sobre a vida religiosa do povo, o que fez que muitos dos dirigentes religiosos voltassem contra ele.
Um desses dirigentes, Nicodemos, viu que Jesus ensinava a verdade acerca de Deus. Certa noite ele foi ter com Jesus e lhe pergunto como poderia entrar no reino de Deus, que é o reino de redenção e salvação. Jesus disse a Nicodemos que ele devia “nascer de novo” (João 3.3); em outras palavras, ele tinha de tornar-se uma nova pessoa. Desta conversa de Jesus com Nicodemos aprendemos que o cristão é uma pessoa que “nasceu de novo”.
Quando João Batista começou a pregar e atrair grandes multidões na Judéia, Jesus voltou para a Galiléia. Aí ele operou muitos milagres e grandes multidões o cercavam. Infelizmente, as multidões estavam mais interessadas nos seus milagres do que nos seus ensinos.
Não obstante, Jesus continuou ensinando. Ele entrava nos lares, participava das festas públicas, e adorava com outros judeus em suas sinagogas. Denunciou os dirigentes religiosos do seu tempo porque exibiam uma fé hipócrita. Ele não rejeitou a religião formal deles; pelo contrário, Jesus respeitava o templo e a adoração que aí se prestava (cf. Mateus 5.17-18). Mas os fariseus e outros dirigentes não viram nele o Messias e não cuidaram de ser salvos do pecado. Além do mais, não satisfeitos com o que Deus lhes revelara no Antigo Testamento, continuaram fazendo-lhe acréscimo e revisando-o. Acreditavam que sua versão das Escrituras, examinada nos seus mínimos detalhes, dava-lhes a única religião verdadeira. Jesus chamou-os de volta às primitivas palavras de Deus. Ele era cuidadoso na sua forma de citar as Escrituras, e incitava seus seguidores a entendê-las melhor. Ensinava que o conhecimento básico das Escrituras mostraria que a vontade de Deus era que as pessoas fossem salvas mediante a fé nele.
Perto da Galiléia, Jesus operou seu mais surpreendente milagre até então. Tomou sete pães e dois peixes, abençoou-os e partiu-os em pedaços suficientes para alimentar quatro mil pessoas! Mas este milagre não atraiu mais gente à fé em Jesus; na verdade, as pessoas se retiraram porque não podiam imaginar por que e como ele queria que elas “comessem” seu corpo e “bebessem” seu sangue (João 6.52-66).
Os doze discípulos, porém, permaneceram fiéis, e ele começou a concentrar seus esforços em prepará-los. Cada vez mais ensinava-lhes acerca de sua futura morte e ressurreição, explicando-lhes que eles também sofreriam a morte se continuassem a segui-lo.
Essa atitude de Jesus o leva ao fim da sua vida na terra. Judas Iscariotes, um dos doze, traiu-o, entregando-o aos líderes de Jerusalém, que lhe eram hostis, e eles pregaram Jesus numa cruz de madeira entre criminosos comuns. Mas ele ressuscitou e apareceu a muitos de seus seguidores, exatamente como havia prometido, e deu instruções finais aos seus discípulos mais íntimos. Enquanto o observavam subir ao céu, apareceu um anjo e disse que eles os veriam voltar do mesmo modo. Em outras palavras, ele voltaria de modo visível e em seu corpo físico.
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Quarta-feira, Julho 26, 2006
Cenário do VELHO TESTAMENTO - Introdução

Introdução
O mundo do Antigo Testamento apresenta-nos os povos que influenciaram a história de Israel durante o período do Antigo Testamento. Além disso, traz ao conhecimento daquele que estuda a Bíblia, acontecimentos da história de Israel e o significado destes à luz da revelação completa que Deus faz de si próprio na Bíblia.
O Antigo Testamento descreve um mundo que é, a um só tempo, semelhante e dessemelhante ao nosso. Por certo conservamos em comum com aquele mundo os elementos básicos da vida – nascimento, crescimento, morte, a família, a nação, o lavrador, o soldado, o magistrado, o professor, o médico, mas a falta de qualquer dos inventos mecânicos e elétricos com os quais nos acostumamos coloca o mundo do Antigo Testamento a uma grande distância do nosso.
À medida que estudamos os povos e os acontecimentos do Antigo Testamento, estamos mais bem preparados para julgar nossas próprias vidas e sociedades segundo os padrões da lei de Deus. Nosso estudo pode ajudar-nos, também, a ver a demonstração clara da obra poderosa de Deus na história, porque cada um dos povos que influenciaram a vida de Israel foi um ator no grande palco da civilização. Ao considerar o drama desses povos, podemos ver os intermináveis conflitos de feudos de sangue entre pequenos clãs polígamos, observar o desmoronamento de sociedades que se entregaram ao hedonismo desenfreado, e regozijar-nos com o triunfo eterno dos que foram fiéis a Deus quando não o era a vasta maioria da humanidade.
Além de todos os valores e lições que possam advir do conhecimento dessa história, os povos e os acontecimentos do Antigo Testamento apontaram para a vinda do Messias, Jesus Cristo, e para o seu cumprimento nele. O tema subjacente do Antigo Testamento – e também do Novo – é Criação-Queda-Redenção-Restauração. É na vida das pessoas e das nações que enchem as suas páginas que vemos este drama encaminhando-se para o seu cumprimento.
Nesta seqüências de artigos, o estudioso do Velho Testamento verá que esses povos realmente viveram as experiências registradas, as quais não foram criações literárias de algum escritor imaginativo. Quanto mais conhecermos esse mundo, tanto melhor compreenderemos os seus acontecimentos. Esperamos, também que nossa imaginação seja estimulada e nossos apetites despertados para estudar a Palavra de Deus e permitir que ela nos ilumine o coração.
O mundo do Antigo Testamento apresenta-nos os povos que influenciaram a história de Israel durante o período do Antigo Testamento. Além disso, traz ao conhecimento daquele que estuda a Bíblia, acontecimentos da história de Israel e o significado destes à luz da revelação completa que Deus faz de si próprio na Bíblia.
O Antigo Testamento descreve um mundo que é, a um só tempo, semelhante e dessemelhante ao nosso. Por certo conservamos em comum com aquele mundo os elementos básicos da vida – nascimento, crescimento, morte, a família, a nação, o lavrador, o soldado, o magistrado, o professor, o médico, mas a falta de qualquer dos inventos mecânicos e elétricos com os quais nos acostumamos coloca o mundo do Antigo Testamento a uma grande distância do nosso.
À medida que estudamos os povos e os acontecimentos do Antigo Testamento, estamos mais bem preparados para julgar nossas próprias vidas e sociedades segundo os padrões da lei de Deus. Nosso estudo pode ajudar-nos, também, a ver a demonstração clara da obra poderosa de Deus na história, porque cada um dos povos que influenciaram a vida de Israel foi um ator no grande palco da civilização. Ao considerar o drama desses povos, podemos ver os intermináveis conflitos de feudos de sangue entre pequenos clãs polígamos, observar o desmoronamento de sociedades que se entregaram ao hedonismo desenfreado, e regozijar-nos com o triunfo eterno dos que foram fiéis a Deus quando não o era a vasta maioria da humanidade.
Além de todos os valores e lições que possam advir do conhecimento dessa história, os povos e os acontecimentos do Antigo Testamento apontaram para a vinda do Messias, Jesus Cristo, e para o seu cumprimento nele. O tema subjacente do Antigo Testamento – e também do Novo – é Criação-Queda-Redenção-Restauração. É na vida das pessoas e das nações que enchem as suas páginas que vemos este drama encaminhando-se para o seu cumprimento.
Nesta seqüências de artigos, o estudioso do Velho Testamento verá que esses povos realmente viveram as experiências registradas, as quais não foram criações literárias de algum escritor imaginativo. Quanto mais conhecermos esse mundo, tanto melhor compreenderemos os seus acontecimentos. Esperamos, também que nossa imaginação seja estimulada e nossos apetites despertados para estudar a Palavra de Deus e permitir que ela nos ilumine o coração.
O Mundo Antigo
A Bíblia nos proporciona informação confiável sobre povos, lugares e acontecimentos que outros livros antigos não mencionam. Ela fala até de reinos que desapareceram da face da terra. Em realidade, ela penetra uma época que muitos eruditos chamam de “pré-história”. Um simples exemplo sugerirá a grande extensão de tempo que a Bíblia cobre.
Digamos que um dia representa uma geração (cerca de 25 anos). Nessa base, a Segunda Guerra Mundial terminou anteontem, a Guerra Civil norte-americana foi travada faz apenas quatro dias, e os Estados Unidos declararam sua independência na semana passada! Nessa mesma base, Jesus nasceu em Belém há questão de três meses, e Moisés conduziu os israelitas para fora do Egito apenas dois meses antes disso. Os mais antigos livros do Oriente Próximo foram escritos há, mais ou menos, sete meses.
Tomando por base este calendário que só existe na imaginação, a história humana teria começado há uns dez meses, mais ou menos. E a Bíblia cobre todo esse período! Ela começa com Deus criando o mundo; conduz-nos através de muitos séculos de história antiga e clássica, e aponta-nos o fim dos tempos.
Este jogo de imaginação leva-nos a perceber nossa tendência de preocupar-nos excessivamente com os fatos correntes. A tecnologia moderna cegou-nos para as profundezas do passado. Mas as culturas antigas tiveram um senso altamente desenvolvido com respeito ao passado; elas respeitaram as muitas gerações que as precederam. Os sumérios, os egípcios e os babilônios freqüentemente ponderavam sobre o significado da história, e procuravam saber para onde ela se dirigia. Gostavam de preservar os processos antigos. Estudavam as línguas que já não eram faladas e praticavam ritos que já haviam perdido o significado. Tinham em alta estima cada estatueta e tijolo que seus antepassados fabricaram. Estimularam seus escribas a preservar palavras antigas que abrangiam quase todos os aspectos da vida.
Os escritores do Antigo Testamento viam a história como a fase na qual Deus estava revelando grandes propósitos em um drama mundial que agora se aproxima do clímax (“os últimos dias”). Assim, quiseram guardar um relato preciso do passado. Mas este senso de história perdeu-se com a queda de Roma e com a vinda da Idade Média. A sociedade Ocidental perdeu contato com sua herança. Com efeito, a arte e a literatura medievais tiveram de ilustrar as Escrituras com pessoas que usavam vestimentas medievais e moravam em castelos, porque ninguém sabia como realmente se vivia nos tempos bíblicos. Os artefatos do Egito, da Mesopotâmia e da costa da Palestina só foram descobertos e interpretados no decorrer dos últimos 150 anos. E mesmo agora, o mundo antigo é para nós um quebra-cabeças.
Durante a maior parte do tempo que passamos acordados, consideramos tão só o que nos está acontecendo no presente. Estamos inteiramente absorvidos no “agora”. É-nos excessivamente difícil colocar-nos no lugar dos que viveram no passado distante, totalmente fora de contato com nosso próprio estilo de vida.
Temos a tendência de interpretar mal as passagens bíblicas por supormos que os acontecimentos e as idéias que aparecem na Bíblia narram-nos tudo quanto há para se conhecer acerca dos tempos bíblicos. Não é bem assim. Para obtermos uma perspectiva adequada dos acontecimentos bíblicos, precisamos instruir-nos mais acerca dos anos em que a Bíblia foi escrita.
Períodos da História
Este é o 2º artigo da série Cenário do Velho Testamento. O anterior é:
Períodos da História
Não podemos trazer de volta o passado, mas temos pistas suficientes que nos proporcionam uma ampla visão da vida naqueles tempos. Quando combinamos esses discernimentos com a narrativa bíblica, começamos a obter um quadro verdadeiro crível daqueles eventos.
Muitos eruditos modernos dizem que a sociedade antiga era primitiva. Mas os seres humanos antigos não eram menos criativos ou inteligentes que nós. Suas invenções (a escrita e a aritmética, por exemplo) lançaram os alicerces de todas as civilizações, passadas e presentes. Na verdade, a maior parte dos característicos da civilização – comércio, dinheiro, lei, guerra e que tais – estavam em evidência nos tempos antigos. Desconhecemos o nome dos inventores e dos gênios políticos que nos deram tais coisas. Conhecemos, porém, o esquema geral da história antiga, e ele nos ajuda a entender o que aconteceu nessa época.
A – A Revolução Neolítica – Antes do período neolítico ou “Nova Era da Pedra”, que parece ter durado até ao quarto milênio antes de Cristo, a maioria dos povos da Europa e do Oriente Médio viviam em pequenos bandos migratórios. Eram, provavelmente, grupos de famílias que caçavam veado selvagem ou seguiam manadas semi-selvagens que lhes serviam de alimento. Não estabeleciam pontos permanentes de colonização, mas com freqüência retornavam aos mesmos locais e usavam os antigos acampamentos de caça por muitos anos, até mesmo por gerações. Alguns deles continuaram com esta prática muito tempo depois de estabelecerem comunidades permanentes. Os patriarcas, por certo, o fizeram (Gênesis 5-9). Os povos neolíticos domesticaram animais selvagens e desenvolveram a agricultura, com seus métodos de irrigação e armazenamento. Com efeito, a Bíblia diz: “Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha” (Gênesis 9.20). Têm-se encontrado as mais antigas aldeias neolíticas nas montanhas do Norte do Iraque – a área geral onde se diz ter pousado a Arca. Relíquias neolíticas também têm sido encontradas em Jericó e noutras localidades bíblicas em Israel.
B – Os Estados Religiosos Arcaicos – Os estados religiosos arcaicos tiveram início como comunidades agrícolas que possuíam seus próprios rituais religiosos. Aos poucos, o culto local e seus oficiais iam assumindo o controle da aldeia. A comunidade inteira se consagrava ao deus do ritual, e logo esse culto ou ritual praticamente se assenhoreava da comunidade. Adoravam-se deuses e deusas agrícolas. Seus rituais seguiam o ciclo agrícola anual.
À medida que cresciam as pequeninas cidades-estados, cresciam também a riqueza e o poder de seus cultos. Cada templo ampliava seu controle, até que todos os cidadãos locais trabalhavam para o templo. Encontramos prova deste tipo de cidade-templo na Suméria (Sinear, na Bíblia), no Egito e no Elão.
Os reis do antigo Oriente Próximo geralmente oficiavam como sacerdotes de seus cultos locais. À medida que o poder político do templo crescia, crescia também o poder do rei. Cidades da vizinhança que tinham cultos religiosos semelhantes começavam a reunir-se. Uniam suas crenças sob um governo comum. Esses agrupamentos de cidades construíram as grandes torres-templos da Mesopotâmia, as mais antigas pirâmides do Egito, e os maciços edifícios religiosos em outros lugares. Os capítulos 10 e 11 de Gênesis refletem esta tendência.
Os primitivos estados religiosos realizaram grandes coisas. Por exemplo, inventaram a escrita quando começaram a manter registros econômicos, e seus primeiros registros foram feitos, provavelmente, em cera ou barro. Não demorou muito, arquitetaram a aritmética para ajudá-los no cômputo de suas transações comerciais. Então começaram a registrar princípios de ética, lendas, histórias, leis, canções, poemas e fatos históricos. Assim, na época de Abraão, muitas das civilizações situadas em torno do Mediterrâneo haviam posto seus idiomas em forma escrita.
Quando um estado religioso arcaico declinava e outro o conquistava, a língua local e os hábitos de adoração misturavam-se. Por isso não podemos, hoje, dizer onde se originaram muitas das línguas e crenças antigas. Os povos do Oriente Próximo começaram a adorar muitos deuses do mesmo tipo (uma prática que denominamos politeísmo). Narravam lendas sobre famílias de deuses mais velhos e deuses mais jovens. Acrescentaram deuses e mais deuses às suas religiões até que formaram uma aglomeração desnorteante de divindades. Ao trocarem as cidades da Palestina antiga suprimentos com outras regiões do Oriente Próximo, também trocavam costumes religiosos. Deixaram provas dessas religiões pagãs mistas nas antigas cidades de Jericó, Hazor, Bete-Semes e outras. O Antigo Testamento descreve este confuso estado de coisas (Josué 24.2, 15).
C – O Estabelecimento de Impérios (cerca de 2700 a.C.) – Quando os estados religiosos arcaicos se tornaram ricos e seguros, e proveram mais alimentos e proteção para seus povos, o resultado foi a explosão populacional. Os mais bem organizados espalharam-se para além de suas fronteiras tradicionais e abrageram mais algumas cidades-estado das redondezas. Tornaram-se os primeiros impérios do mundo. O primeiro desses foi, provavelmente, o Egito, seguido depois por Elão, Hati (mais tarde Hatusás), e as cidades semíticas da Mesopotâmia (cf. Gênesis 14.1; Deuteronômio 7.1). Os mesopotâmios instalaram o primeiro ditador do mundo, Sargão de Agade (talvez o “Ninrode” de Gênesis 10). Os arqueólogos encontraram prova de outros reinos poderosos no médio Eufrates e ao longo da costa da síria e de Israel. Um desses – Ebla, ao norte da Síria – ainda está sob investigação, e é possível que os eruditos necessitem de uma geração para traduzir os registros que estão desenterrando.
Durante esse tempo, fortes nações de navegadores apareceram nas ilhas do Leste do Mediterrâneo e do mar Egeu. Dois grupos que deveríamos lembrar são os minoanos e os acadianos, porque eles comerciaram com os povos da Palestina e com eles cambiaram idéias religiosas.
Foi essa a época de Abraão e seus descendentes, que eram nômades semitas, pois nesse tempo os povos semitas do Oriente Próximo assumiram o comando das culturas não-semíticas mais antigas – tais como os impérios dos sumerianos, dos hurrianos e dos hititas. O povo de Abraão era rico e sofisticado. Erigiram grandes templos, comerciaram com nações pagãs, e criaram extensas leis e corpos de literatura. A arte e a arquitetura dos sumérios, dos minoanos, dos acadianos e dos egípcios floresceram como nunca dantes. Alguns dos grandes tesouros artísticos de todos os tempos chegaram até nós procedentes dessa época.
D – A Era de Amarna (1500 a.C.) – Com o declínio dos grandes impérios, as nações do Oriente Médio alcançaram um novo equilíbrio de poder. Os estados menores do Leste do Mediterrâneo e do vale do Tigre-Eufrates escaparam das garras dos impérios estrangeiros. Por algum tempo eles puderam desenvolver-se e comerciar entre si mesmos e com seus vizinhos mais poderosos.
A era recebe seu nome da capital do misterioso faraó Akhenaton. Seus oficiais escreveram muitas cartas aos políticos de importância secundária da Síria-Palestina e aos neo-hititas ao norte, cartas que ainda temos. Os palestinos e os hititas, que supostamente faziam parte do império egípcio, na realidade louvavam o Egito da boca para fora e cuidavam de seus próprios interesses.
O Êxodo e a conquista de Canaã ocorreram nessa época, que foi também a época de Moisés e Josué e da compilação do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia. A riqueza e o esplendor da Era de Amarna têm fascinado os estudiosos de todo o mundo. Podemos ter uma idéia dessa grandeza considerando os tesouros do túmulo do rei Tutancâmon. Tutancâmon era apenas um rei menino, títere de seus conselheiros. Assim, a grande pilha de objetos preciosos sepultados com ele foi, sem dúvida, tão só uma amostra das riquezas dos grandes faraós dessa época.
De todos os estados do Oriente Próximo pertencentes ao período, devemos prestar especial atenção a Ugarite, na costa do Líbano. Ugarite era o centro da língua e religião cananéias, e as tabulas de argila que os arqueólogos têm encontrado ali jorram muita luz sobre o mundo dos cananeus antes da chegada dos israelitas.
Durante o período de Amarna, os povos do Oriente Próximo comerciavam com a maior parte do mundo conhecido – desde o norte da Europa até às fronteiras da China. A principal potência era Babilônia, que se tornou tão forte ao ponto de controlar o Oriente Próximo no período seguinte da história. A Era de Amarna terminou no período em que Israel estava sob o governo dos juízes. Segundo o Livro dos Juízes, o Oriente Próximo sofreu muita luta política no fim desse período, à medida que os novos impérios faziam suas manobras para controlar a área.
E – Os Estados Multinacionais (desde 1200 a.C.) – Em sua maioria, os reinos da Era de Amarna eram pequenos, por isso marcamos o fim dessa era no tempo em que surgiram reinos mais amplos. Cada reino de Amarna havia-se limitado ao povo de uma raça, língua ou religião, mas os novos controlavam muitos grupos diferentes. Entre esses novos reinos estavam a Assíria, a Pérsia e as primitivas cidades gregas situadas na região costeira da Turquia.
Essa nova era, para Israel, começou com o reinado de Saul e seguiu-se com o de Davi e dos seus descendentes. Os livros históricos e proféticos do Antigo Testamento foram escritos nessa época. Os historiadores, amiúde, denominam essa época de Primeira Comunidade de Israel. O rei Davi foi contemporâneo de Homero, o lendário poeta cego de origem grega, que escreveu a Ilíada e a Odisséia, provavelmente no décimo século antes de Cristo.
O rei Salomão, filho de Davi, comerciou com os egípcios, ao sul, e com os hititas, ao norte. Ele elevou Israel ao auge de seu esplendor e poder. No governo de seu filho Roboão, as duas tribos sulinas separaram-se das dez tribos do Norte de Israel. As tribos do Sul congregaram-se em torno de Roboão e foram chamadas nação de Judá, enquanto as do Norte seguiram a Jeroboão, rival de Roboão, e foram denominadas nação de Israel. A Assíria conquistou Israel no ano 722 a.C., e mais tarde, em 586 a.C., o rei Nabucodonosor II da Babilônia destruiu Jerusalém e levou para o cativeiro mais um grupo de judeus.
No século seguinte, a Pérsia veio a ser a principal potência do interior da Ásia. O Império Persa cresceu ao ponto de dominar o Egito, a Babilônia e toda a Síra-Palestina.
F – A Era da Supremacia Grega (450-325) - Por esse tempo, o povo da península grega havia edificado um sistema muito bem-sucedido de cidades-estados e colônias comerciais. Despachavam mercadorias das praias do mar Negro para as costas da Europa e da África e construíam cidades e portos em todas as praias do Mediterrâneo. Contudo, nunca conseguiram unir-se em torno de uma cidade ou de um líder. Quando o período dos estados multinacionais se aproximava do fim, os persas tentaram invadir a Grécia, mas foram repelidos por Atenas e seus aliados. Atenas tornou-se uma grande potência no meio século que se seguiu.
Durante essa nova época, os judeus voltaram à Palestina e reconstruíram sua nação a partir das ruínas. Israel ainda fazia parte do Império Persa, mas os novos reis persas concederam autonomia aos judeus. A este segundo período de autogoverno de Israel os historiadores denominam Segunda Comunidade. Enquanto os persas perdiam força em suas guerras com a Grécia, Israel expandiu-se e retomou alguns de seus antigos territórios.
Então se levantou uma nova potência para unir os estados gregos. O novo conquistador era a Macedônia, sob a liderança do rei Filipe (seu túmulo foi recentemente descoberto na região Norte da Grécia). Filipe deixou o império para seu filho Alexandre. O jovem havia sido instruído na academia de Atenas pelo famoso filósofo Aristóteles. Ele amava a civilização e a cultura gregas, e se pôs a caminho para trazer o mundo todo sob a influência dos costumes gregos. Em linguagem técnica, Alexandre desejava “helenizar” o mundo. Para tanto, Alexandre sabia que devia quebrar o poder da Pérsia, de sorte que esta nunca mais ameaçasse a Grécia. Ele reuniu o melhor exército do mundo e marchou através da Ásia central até à Índia. No decurso dos acontecimentos, ele destruiu os últimos estados arcaicos, paralelamente com suas línguas e seus ritos religiosos.
Alexandre e seus homens empregavam uma forma popular da língua grega, e transmitiram este dialeto aos povos que conquistavam. É o que chamamos coiné, ou grego comum. Nesta língua foi escrito o Novo Testamento, e Paulo e os demais missionários primitivos empregavam-na ao pregar o evangelho.
Alexandre, o Grande foi a figura preeminente do Período Intertestamentário (período situado entre a escritura do Antigo e do Novo Testamentos). Após a morte repentina de Alexandre em 323 a.C., seus generais dividiram entre si as terras conquistadas e estabeleceram reinos helenísticos, dando início a um período conhecido como Idade Helenística. Os reis desse período trataram os judeus com rudeza. Os judeus que se haviam espalhado pelo mundo (um grupo chamado Diáspora) tornaram-se uma mistura de raças e culturas sob os reinos helenísticos. Negligenciaram suas práticas religiosas tradicionais e adquiriram um estilo de vida secular, o qual devia marcar a última antiga potência, Roma.
G – A Era Romana (100 a.C. – 450 d.C.) - Jesus Cristo nasceu quando o poder político de Roma estava no auge. Começando como uma pequena mas poderosa cidade-estado nas colinas do Centro da Itália, Roma construiu-se nos êxitos do helenismo. Os romanos reuniram grandes frotas de navios para estender seu poder sobre todo o continente europeu – desde a Espanha e Grã-Bretanha até à Arábia e Norte da África. As estradas, os edifícios, os muros e os canais romanos ainda pontilham a paisagem de cada país europeu desde o Atlântico até o mar Vermelho. Os cristãos usaram este surpreendente sistema de estradas e rotas marítimas para levar o evangelho a todos os cantos e recantos do mundo então conhecido.
Com o tempo, o poder político do Império Romano começou a decair, e as tribos do Norte da Europa o conquistaram. Por esse tempo, contudo, a igreja cristã havia crescido com tanta rapidez que sobreviveu à queda do Império Romano. O Édito de Constantino (A.D. 313) havia dado à igreja um lugar especial na vida de Roma um século antes de o império desmoronar-se. A igreja romana, ao tornar-se a maior força unificadora da Idade Média, governou efetivamente os reinos da Europa durante mil anos.
O próximo artigo desta série é INFORMAÇÃO SOBRE A VIDA COTIDIANA
Não podemos trazer de volta o passado, mas temos pistas suficientes que nos proporcionam uma ampla visão da vida naqueles tempos. Quando combinamos esses discernimentos com a narrativa bíblica, começamos a obter um quadro verdadeiro crível daqueles eventos.
Muitos eruditos modernos dizem que a sociedade antiga era primitiva. Mas os seres humanos antigos não eram menos criativos ou inteligentes que nós. Suas invenções (a escrita e a aritmética, por exemplo) lançaram os alicerces de todas as civilizações, passadas e presentes. Na verdade, a maior parte dos característicos da civilização – comércio, dinheiro, lei, guerra e que tais – estavam em evidência nos tempos antigos. Desconhecemos o nome dos inventores e dos gênios políticos que nos deram tais coisas. Conhecemos, porém, o esquema geral da história antiga, e ele nos ajuda a entender o que aconteceu nessa época.
A – A Revolução Neolítica – Antes do período neolítico ou “Nova Era da Pedra”, que parece ter durado até ao quarto milênio antes de Cristo, a maioria dos povos da Europa e do Oriente Médio viviam em pequenos bandos migratórios. Eram, provavelmente, grupos de famílias que caçavam veado selvagem ou seguiam manadas semi-selvagens que lhes serviam de alimento. Não estabeleciam pontos permanentes de colonização, mas com freqüência retornavam aos mesmos locais e usavam os antigos acampamentos de caça por muitos anos, até mesmo por gerações. Alguns deles continuaram com esta prática muito tempo depois de estabelecerem comunidades permanentes. Os patriarcas, por certo, o fizeram (Gênesis 5-9). Os povos neolíticos domesticaram animais selvagens e desenvolveram a agricultura, com seus métodos de irrigação e armazenamento. Com efeito, a Bíblia diz: “Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha” (Gênesis 9.20). Têm-se encontrado as mais antigas aldeias neolíticas nas montanhas do Norte do Iraque – a área geral onde se diz ter pousado a Arca. Relíquias neolíticas também têm sido encontradas em Jericó e noutras localidades bíblicas em Israel.
B – Os Estados Religiosos Arcaicos – Os estados religiosos arcaicos tiveram início como comunidades agrícolas que possuíam seus próprios rituais religiosos. Aos poucos, o culto local e seus oficiais iam assumindo o controle da aldeia. A comunidade inteira se consagrava ao deus do ritual, e logo esse culto ou ritual praticamente se assenhoreava da comunidade. Adoravam-se deuses e deusas agrícolas. Seus rituais seguiam o ciclo agrícola anual.
À medida que cresciam as pequeninas cidades-estados, cresciam também a riqueza e o poder de seus cultos. Cada templo ampliava seu controle, até que todos os cidadãos locais trabalhavam para o templo. Encontramos prova deste tipo de cidade-templo na Suméria (Sinear, na Bíblia), no Egito e no Elão.
Os reis do antigo Oriente Próximo geralmente oficiavam como sacerdotes de seus cultos locais. À medida que o poder político do templo crescia, crescia também o poder do rei. Cidades da vizinhança que tinham cultos religiosos semelhantes começavam a reunir-se. Uniam suas crenças sob um governo comum. Esses agrupamentos de cidades construíram as grandes torres-templos da Mesopotâmia, as mais antigas pirâmides do Egito, e os maciços edifícios religiosos em outros lugares. Os capítulos 10 e 11 de Gênesis refletem esta tendência.
Os primitivos estados religiosos realizaram grandes coisas. Por exemplo, inventaram a escrita quando começaram a manter registros econômicos, e seus primeiros registros foram feitos, provavelmente, em cera ou barro. Não demorou muito, arquitetaram a aritmética para ajudá-los no cômputo de suas transações comerciais. Então começaram a registrar princípios de ética, lendas, histórias, leis, canções, poemas e fatos históricos. Assim, na época de Abraão, muitas das civilizações situadas em torno do Mediterrâneo haviam posto seus idiomas em forma escrita.
Quando um estado religioso arcaico declinava e outro o conquistava, a língua local e os hábitos de adoração misturavam-se. Por isso não podemos, hoje, dizer onde se originaram muitas das línguas e crenças antigas. Os povos do Oriente Próximo começaram a adorar muitos deuses do mesmo tipo (uma prática que denominamos politeísmo). Narravam lendas sobre famílias de deuses mais velhos e deuses mais jovens. Acrescentaram deuses e mais deuses às suas religiões até que formaram uma aglomeração desnorteante de divindades. Ao trocarem as cidades da Palestina antiga suprimentos com outras regiões do Oriente Próximo, também trocavam costumes religiosos. Deixaram provas dessas religiões pagãs mistas nas antigas cidades de Jericó, Hazor, Bete-Semes e outras. O Antigo Testamento descreve este confuso estado de coisas (Josué 24.2, 15).
C – O Estabelecimento de Impérios (cerca de 2700 a.C.) – Quando os estados religiosos arcaicos se tornaram ricos e seguros, e proveram mais alimentos e proteção para seus povos, o resultado foi a explosão populacional. Os mais bem organizados espalharam-se para além de suas fronteiras tradicionais e abrageram mais algumas cidades-estado das redondezas. Tornaram-se os primeiros impérios do mundo. O primeiro desses foi, provavelmente, o Egito, seguido depois por Elão, Hati (mais tarde Hatusás), e as cidades semíticas da Mesopotâmia (cf. Gênesis 14.1; Deuteronômio 7.1). Os mesopotâmios instalaram o primeiro ditador do mundo, Sargão de Agade (talvez o “Ninrode” de Gênesis 10). Os arqueólogos encontraram prova de outros reinos poderosos no médio Eufrates e ao longo da costa da síria e de Israel. Um desses – Ebla, ao norte da Síria – ainda está sob investigação, e é possível que os eruditos necessitem de uma geração para traduzir os registros que estão desenterrando.
Durante esse tempo, fortes nações de navegadores apareceram nas ilhas do Leste do Mediterrâneo e do mar Egeu. Dois grupos que deveríamos lembrar são os minoanos e os acadianos, porque eles comerciaram com os povos da Palestina e com eles cambiaram idéias religiosas.
Foi essa a época de Abraão e seus descendentes, que eram nômades semitas, pois nesse tempo os povos semitas do Oriente Próximo assumiram o comando das culturas não-semíticas mais antigas – tais como os impérios dos sumerianos, dos hurrianos e dos hititas. O povo de Abraão era rico e sofisticado. Erigiram grandes templos, comerciaram com nações pagãs, e criaram extensas leis e corpos de literatura. A arte e a arquitetura dos sumérios, dos minoanos, dos acadianos e dos egípcios floresceram como nunca dantes. Alguns dos grandes tesouros artísticos de todos os tempos chegaram até nós procedentes dessa época.
D – A Era de Amarna (1500 a.C.) – Com o declínio dos grandes impérios, as nações do Oriente Médio alcançaram um novo equilíbrio de poder. Os estados menores do Leste do Mediterrâneo e do vale do Tigre-Eufrates escaparam das garras dos impérios estrangeiros. Por algum tempo eles puderam desenvolver-se e comerciar entre si mesmos e com seus vizinhos mais poderosos.
A era recebe seu nome da capital do misterioso faraó Akhenaton. Seus oficiais escreveram muitas cartas aos políticos de importância secundária da Síria-Palestina e aos neo-hititas ao norte, cartas que ainda temos. Os palestinos e os hititas, que supostamente faziam parte do império egípcio, na realidade louvavam o Egito da boca para fora e cuidavam de seus próprios interesses.
O Êxodo e a conquista de Canaã ocorreram nessa época, que foi também a época de Moisés e Josué e da compilação do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia. A riqueza e o esplendor da Era de Amarna têm fascinado os estudiosos de todo o mundo. Podemos ter uma idéia dessa grandeza considerando os tesouros do túmulo do rei Tutancâmon. Tutancâmon era apenas um rei menino, títere de seus conselheiros. Assim, a grande pilha de objetos preciosos sepultados com ele foi, sem dúvida, tão só uma amostra das riquezas dos grandes faraós dessa época.
De todos os estados do Oriente Próximo pertencentes ao período, devemos prestar especial atenção a Ugarite, na costa do Líbano. Ugarite era o centro da língua e religião cananéias, e as tabulas de argila que os arqueólogos têm encontrado ali jorram muita luz sobre o mundo dos cananeus antes da chegada dos israelitas.
Durante o período de Amarna, os povos do Oriente Próximo comerciavam com a maior parte do mundo conhecido – desde o norte da Europa até às fronteiras da China. A principal potência era Babilônia, que se tornou tão forte ao ponto de controlar o Oriente Próximo no período seguinte da história. A Era de Amarna terminou no período em que Israel estava sob o governo dos juízes. Segundo o Livro dos Juízes, o Oriente Próximo sofreu muita luta política no fim desse período, à medida que os novos impérios faziam suas manobras para controlar a área.
E – Os Estados Multinacionais (desde 1200 a.C.) – Em sua maioria, os reinos da Era de Amarna eram pequenos, por isso marcamos o fim dessa era no tempo em que surgiram reinos mais amplos. Cada reino de Amarna havia-se limitado ao povo de uma raça, língua ou religião, mas os novos controlavam muitos grupos diferentes. Entre esses novos reinos estavam a Assíria, a Pérsia e as primitivas cidades gregas situadas na região costeira da Turquia.
Essa nova era, para Israel, começou com o reinado de Saul e seguiu-se com o de Davi e dos seus descendentes. Os livros históricos e proféticos do Antigo Testamento foram escritos nessa época. Os historiadores, amiúde, denominam essa época de Primeira Comunidade de Israel. O rei Davi foi contemporâneo de Homero, o lendário poeta cego de origem grega, que escreveu a Ilíada e a Odisséia, provavelmente no décimo século antes de Cristo.
O rei Salomão, filho de Davi, comerciou com os egípcios, ao sul, e com os hititas, ao norte. Ele elevou Israel ao auge de seu esplendor e poder. No governo de seu filho Roboão, as duas tribos sulinas separaram-se das dez tribos do Norte de Israel. As tribos do Sul congregaram-se em torno de Roboão e foram chamadas nação de Judá, enquanto as do Norte seguiram a Jeroboão, rival de Roboão, e foram denominadas nação de Israel. A Assíria conquistou Israel no ano 722 a.C., e mais tarde, em 586 a.C., o rei Nabucodonosor II da Babilônia destruiu Jerusalém e levou para o cativeiro mais um grupo de judeus.
No século seguinte, a Pérsia veio a ser a principal potência do interior da Ásia. O Império Persa cresceu ao ponto de dominar o Egito, a Babilônia e toda a Síra-Palestina.
F – A Era da Supremacia Grega (450-325) - Por esse tempo, o povo da península grega havia edificado um sistema muito bem-sucedido de cidades-estados e colônias comerciais. Despachavam mercadorias das praias do mar Negro para as costas da Europa e da África e construíam cidades e portos em todas as praias do Mediterrâneo. Contudo, nunca conseguiram unir-se em torno de uma cidade ou de um líder. Quando o período dos estados multinacionais se aproximava do fim, os persas tentaram invadir a Grécia, mas foram repelidos por Atenas e seus aliados. Atenas tornou-se uma grande potência no meio século que se seguiu.
Durante essa nova época, os judeus voltaram à Palestina e reconstruíram sua nação a partir das ruínas. Israel ainda fazia parte do Império Persa, mas os novos reis persas concederam autonomia aos judeus. A este segundo período de autogoverno de Israel os historiadores denominam Segunda Comunidade. Enquanto os persas perdiam força em suas guerras com a Grécia, Israel expandiu-se e retomou alguns de seus antigos territórios.
Então se levantou uma nova potência para unir os estados gregos. O novo conquistador era a Macedônia, sob a liderança do rei Filipe (seu túmulo foi recentemente descoberto na região Norte da Grécia). Filipe deixou o império para seu filho Alexandre. O jovem havia sido instruído na academia de Atenas pelo famoso filósofo Aristóteles. Ele amava a civilização e a cultura gregas, e se pôs a caminho para trazer o mundo todo sob a influência dos costumes gregos. Em linguagem técnica, Alexandre desejava “helenizar” o mundo. Para tanto, Alexandre sabia que devia quebrar o poder da Pérsia, de sorte que esta nunca mais ameaçasse a Grécia. Ele reuniu o melhor exército do mundo e marchou através da Ásia central até à Índia. No decurso dos acontecimentos, ele destruiu os últimos estados arcaicos, paralelamente com suas línguas e seus ritos religiosos.
Alexandre e seus homens empregavam uma forma popular da língua grega, e transmitiram este dialeto aos povos que conquistavam. É o que chamamos coiné, ou grego comum. Nesta língua foi escrito o Novo Testamento, e Paulo e os demais missionários primitivos empregavam-na ao pregar o evangelho.
Alexandre, o Grande foi a figura preeminente do Período Intertestamentário (período situado entre a escritura do Antigo e do Novo Testamentos). Após a morte repentina de Alexandre em 323 a.C., seus generais dividiram entre si as terras conquistadas e estabeleceram reinos helenísticos, dando início a um período conhecido como Idade Helenística. Os reis desse período trataram os judeus com rudeza. Os judeus que se haviam espalhado pelo mundo (um grupo chamado Diáspora) tornaram-se uma mistura de raças e culturas sob os reinos helenísticos. Negligenciaram suas práticas religiosas tradicionais e adquiriram um estilo de vida secular, o qual devia marcar a última antiga potência, Roma.
G – A Era Romana (100 a.C. – 450 d.C.) - Jesus Cristo nasceu quando o poder político de Roma estava no auge. Começando como uma pequena mas poderosa cidade-estado nas colinas do Centro da Itália, Roma construiu-se nos êxitos do helenismo. Os romanos reuniram grandes frotas de navios para estender seu poder sobre todo o continente europeu – desde a Espanha e Grã-Bretanha até à Arábia e Norte da África. As estradas, os edifícios, os muros e os canais romanos ainda pontilham a paisagem de cada país europeu desde o Atlântico até o mar Vermelho. Os cristãos usaram este surpreendente sistema de estradas e rotas marítimas para levar o evangelho a todos os cantos e recantos do mundo então conhecido.
Com o tempo, o poder político do Império Romano começou a decair, e as tribos do Norte da Europa o conquistaram. Por esse tempo, contudo, a igreja cristã havia crescido com tanta rapidez que sobreviveu à queda do Império Romano. O Édito de Constantino (A.D. 313) havia dado à igreja um lugar especial na vida de Roma um século antes de o império desmoronar-se. A igreja romana, ao tornar-se a maior força unificadora da Idade Média, governou efetivamente os reinos da Europa durante mil anos.
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Informações Sobre a Vida Cotidiana
CENÁRIO DO VELHO TESTAMENTO
Informação Sobre a Vida Cotidiana
Conhecemos o nome de muitos reis e conquistadores dos tempos antigos, mas o que faziam e pensava o público em geral? Em realidade não sabemos muita coisa acerca da vida cotidiana desses povos. Não obstante, a Bíblia nos ministra mais desse tipo de informação do que a maioria das outras fontes. Colhemos uma boa dose de detalhes de 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, e dos livros proféticos do Antigo Testamento.
A melhor informação em seguida nos vem de fontes seculares largamente espaçadas no tempo e localização. Essas fontes narram-nos muitos fatos importantes para nosso estudo da Bíblia.
A – Textos Sumério-Babilônicos – Os sumérios estabeleceram-se no vale do Tigre-Eufrates após a era neolítica e fundaram aí vários estados, cada qual com sua religião. O capítulo 10 de Gênesis menciona alguns deles, tais como Kish [Quis] (erradamente apresentados como Cush [Cuxe] por muitos tradutores), Babe, Ereque e Acade. No capítulo 10 de Gênesis e noutras passagens, a Bíblia usa a palavra semítica Sinear para referir-se à Suméria. Essa cidade é a mais importante para nosso estudo deste período.
O povo da Suméria inventou um sistema de escrita fora do comum. Usavam um estilete de caniço para imprimir pequeninos caracteres cuneiformes sobre tábulas de barro, e depois coziam as tábulas num forno até ficarem duras como tijolos. Enterradas em terreno seco, essas tábulas duraram milhares de anos até aos nossos dias. Os sumérios foram muito cuidadosos em guardar registros de decisões legais, contratos e transações comerciais. Desse modo, suas tábulas de argila dão-nos um quadro completo e exato de sua vida diária.
Os babilônios e os assírios estudaram o movimento das estrelas e usaram o que aprenderam para elaborar um calendário muito preciso, mediante o qual podemos agora calcular o tempo de muitos acontecimentos da história sumério-babilônica quase com a precisão de dia e hora!
As tábulas de argila até agora encontradas na Suméria foram escritas principalmente no período médio dos primitivos estados religiosos (cerca de 2000 a.C. a 1650 a.C.), mas algumas datam de períodos posteriores, até por volta de 500 a.C. As tábulas dão-nos uma boa quantidade de informações acerca de como a língua hebraica mudou através dos séculos, e como se assemelhava a outras línguas semíticas. Algumas tábulas também nos mostram como os israelitas cruzaram o caminho dos babilônios em diferentes tempos na história.
B – Deir el-Bahari – Também obtemos um vislumbre da vida cotidiana dos tempos antigos nas ruínas de uma aldeia conhecida como Deir-el-Bahari. Aqui viviam os operários que construíram os grandes túmulos do Vale dos Reis do Egito, onde os faraós da décima oitava dinastia possuíam túmulos primorosos esculpidos de um canyon de pedra (1580-1340 a.C.). Os operários de Deir el-Bahari rabiscaram notas acerca de seus feitos diários sobe pedaços de cerâmica. Esses cacos de cerâmica eram um tipo barato e abundante de artigos de papelaria. E uma vez que eram realmente pedaços de argila cozida, sobreviveram quase tão bem quanto as tábulas de argila da Suméria.
O que nos dizem, pois, esses cacos de cerâmica? Em primeiro lugar, os artífices tinham muita auto-estima e independência. Trabalhavam um dia de oito horas e uma semana de dez dias segundo o calendário egípcio. Seus senhores lhes pagavam salários e lhes davam rações de alimento. Os cacos de cerâmica mostram que esses operários se preocupavam com o metal, a pedra e as ferramentas de que necessitavam para terminar o projeto, e se queixavam dos que não compareciam ao trabalho. Eram, pois, muito semelhantes aos construtores de nossos dias! Sabemos que trabalhadores como esses também cavavam minas de cobre no Sul do Sinai e construíram estradas na Palestina.
C – Cidades Helenísticas no Egito – No final do século dezenove, os arqueólogos começaram a cavar ao redor das ruínas de antigas cidades localizadas ao lado dos grandes lagos do Baixo Egito. Muitas pessoas viviam ali nos tempos helenísticos, por isso os arqueólogos esperavam encontrar algumas relíquias interessantes. Descobriram pilhas e mais pilhas de papiros (um tipo antigo de papel fabricado de junco). Nesses papiros encontraram registros dos muitos pormenores da vida cotidiana das cidades antigas. Os papiros abriram uma nova porta para a compreensão dos costumes dos tempos do Novo Testamento. Na realidade, fizeram reviver o mundo do governo romano imperial. Além disso, os papiros nos deram os mais primitivos manuscritos conhecidos de muitos autores gregos clássicos – dentre eles, Platão, Aristóteles, Homero, Píndaro e Menandro. Os mais importantes de todos os papiros foram alguns dos mais antigos fragmentos do Novo Testamento. Assim, dos montes de ruínas do Egito vieram alguns dos melhores registros da vida cotidiana do mundo antigo.
D – As Cavernas de Qumran – Em 1947 um pastor descobriu enormes potes de barro nas cavernas de Qumran, na praia noroeste do mar Morto. Dentro dos potes encontrou pergaminhos com escritura hebraica muito antiga. Conforme se revelou, foram escritos entre os anos 100 a.C. e 100 d.C. Esses rolos foram alguns dos mais importantes materiais já encontrados na Palestina. Mesmo depois de 2000 anos, eles ainda estavam em bom estado de conservação. Continham o texto de muitos livros do Antigo Testamento, e assim confirmaram que os exemplares posteriores da Bíblia que os tradutores vinham usando eram exatos. Esta foi uma prova de grande peso a favor do ponto de vista conservador das Escrituras, o qual afirma que a Palavra de Deus tem passado de geração a geração com fidelidade. Nem todos os textos de Qumran foram publicados, e muitas das controvérsias a respeito deles ainda não foram solucionadas.
Os arqueólogos têm pesquisado de ponta a ponta a margem ocidental do rio Jordão e os altos penhascos ao longo do mar Morto, mas têm realizado pouco trabalho ao longo da margem oriental, a qual era tão povoada nos tempos antigos quanto a ocidental. É de esperar também que a praia norte do mar Morto produza mais surpresas para o estudo bíblico à medida que a pesquisa continua. Já os achados de Qumran têm-nos ajudado a entender os tempos do Novo Testamento e o controle romano da Palestina.
E – Pompéia e Herculano – Uma violenta erupção do vulcão Vesúvio destruiu duas pequenas cidades romanas ao longo da baía de Nápoles em agosto do ano 79 da era cristã. Os caçadores de tesouros e os cientistas têm escavado as ruínas dessas cidades – Pompéia e Herculano – por mais de 200 anos. Se o leitor visitá-las hoje, verá muitos alqueires exatamente como o eram há 1900 anos.
Eram cidades típicas, e gente rica e gente pobre vivia lado a lado. Os arqueólogos encontraram uma coleção deslumbrante de arte e escultura em ambas as cidades. Também desenterraram algumas obras hidráulicas de grande escala, edifícios bem planejados, e engenhosas ferramentas domésticas. Infelizmente, apenas uns poucos fragmentos de papiros chamuscados sobreviveram à erupção, e esses são cópias de ensaios filosóficos gregos. Desça, porém, as ruas de uma dessas ruínas escavadas sobre a bela baía de Nápoles, e você verá o tipo de mundo que Pedro e Paulo conheceram quando levavam a mensagem de Jesus por todo o Império Romano.
F – Ebla – Esta é uma cidade do Norte da Síria que os arqueólogos começaram a explora em 1964. Aqui uma equipe italiana desenterrou milhares de tábulas de argila escritas durante o tempo dos estados religiosos primitivos, cerca de 1850 a.C. Até aqui, os italianos têm publicado apenas uns poucos detalhes extraídos desses textos. Todavia, mesmo essa informação incompleta mostra que o povo de Ebla tinha um estilo de vida muito sofisticado. Conheciam as culturas e línguas sumerianas e acadianos, e comerciavam com outras cidades-estados abastadas por todo o Oriente Próximo.
Durante muitos anos, os eruditos têm-se perguntado como a literatura da Mesopotâmia chegou aos semitas ocidentais da Síria-Palestina. Agora parece que reinos como Ebla levaram as culturas orientais semitas e sumerianas ao restante do Oriente Próximo.
As tábulas de Ebla mencionam nomes e localidades que já conhecermos por via da história dos patriarcas e do Antigo Testamento, mas os arqueólogos estarão decifrando, traduzindo e publicando essas tábulas por muitos anos, Quando todo o material estiver disponível, ajudar-nos-á a entender o mundo antigo descrito nos primeiros capítulos do Gênesis.
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Informação Sobre a Vida Cotidiana
Conhecemos o nome de muitos reis e conquistadores dos tempos antigos, mas o que faziam e pensava o público em geral? Em realidade não sabemos muita coisa acerca da vida cotidiana desses povos. Não obstante, a Bíblia nos ministra mais desse tipo de informação do que a maioria das outras fontes. Colhemos uma boa dose de detalhes de 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, e dos livros proféticos do Antigo Testamento.
A melhor informação em seguida nos vem de fontes seculares largamente espaçadas no tempo e localização. Essas fontes narram-nos muitos fatos importantes para nosso estudo da Bíblia.
A – Textos Sumério-Babilônicos – Os sumérios estabeleceram-se no vale do Tigre-Eufrates após a era neolítica e fundaram aí vários estados, cada qual com sua religião. O capítulo 10 de Gênesis menciona alguns deles, tais como Kish [Quis] (erradamente apresentados como Cush [Cuxe] por muitos tradutores), Babe, Ereque e Acade. No capítulo 10 de Gênesis e noutras passagens, a Bíblia usa a palavra semítica Sinear para referir-se à Suméria. Essa cidade é a mais importante para nosso estudo deste período.
O povo da Suméria inventou um sistema de escrita fora do comum. Usavam um estilete de caniço para imprimir pequeninos caracteres cuneiformes sobre tábulas de barro, e depois coziam as tábulas num forno até ficarem duras como tijolos. Enterradas em terreno seco, essas tábulas duraram milhares de anos até aos nossos dias. Os sumérios foram muito cuidadosos em guardar registros de decisões legais, contratos e transações comerciais. Desse modo, suas tábulas de argila dão-nos um quadro completo e exato de sua vida diária.
Os babilônios e os assírios estudaram o movimento das estrelas e usaram o que aprenderam para elaborar um calendário muito preciso, mediante o qual podemos agora calcular o tempo de muitos acontecimentos da história sumério-babilônica quase com a precisão de dia e hora!
As tábulas de argila até agora encontradas na Suméria foram escritas principalmente no período médio dos primitivos estados religiosos (cerca de 2000 a.C. a 1650 a.C.), mas algumas datam de períodos posteriores, até por volta de 500 a.C. As tábulas dão-nos uma boa quantidade de informações acerca de como a língua hebraica mudou através dos séculos, e como se assemelhava a outras línguas semíticas. Algumas tábulas também nos mostram como os israelitas cruzaram o caminho dos babilônios em diferentes tempos na história.
B – Deir el-Bahari – Também obtemos um vislumbre da vida cotidiana dos tempos antigos nas ruínas de uma aldeia conhecida como Deir-el-Bahari. Aqui viviam os operários que construíram os grandes túmulos do Vale dos Reis do Egito, onde os faraós da décima oitava dinastia possuíam túmulos primorosos esculpidos de um canyon de pedra (1580-1340 a.C.). Os operários de Deir el-Bahari rabiscaram notas acerca de seus feitos diários sobe pedaços de cerâmica. Esses cacos de cerâmica eram um tipo barato e abundante de artigos de papelaria. E uma vez que eram realmente pedaços de argila cozida, sobreviveram quase tão bem quanto as tábulas de argila da Suméria.
O que nos dizem, pois, esses cacos de cerâmica? Em primeiro lugar, os artífices tinham muita auto-estima e independência. Trabalhavam um dia de oito horas e uma semana de dez dias segundo o calendário egípcio. Seus senhores lhes pagavam salários e lhes davam rações de alimento. Os cacos de cerâmica mostram que esses operários se preocupavam com o metal, a pedra e as ferramentas de que necessitavam para terminar o projeto, e se queixavam dos que não compareciam ao trabalho. Eram, pois, muito semelhantes aos construtores de nossos dias! Sabemos que trabalhadores como esses também cavavam minas de cobre no Sul do Sinai e construíram estradas na Palestina.
C – Cidades Helenísticas no Egito – No final do século dezenove, os arqueólogos começaram a cavar ao redor das ruínas de antigas cidades localizadas ao lado dos grandes lagos do Baixo Egito. Muitas pessoas viviam ali nos tempos helenísticos, por isso os arqueólogos esperavam encontrar algumas relíquias interessantes. Descobriram pilhas e mais pilhas de papiros (um tipo antigo de papel fabricado de junco). Nesses papiros encontraram registros dos muitos pormenores da vida cotidiana das cidades antigas. Os papiros abriram uma nova porta para a compreensão dos costumes dos tempos do Novo Testamento. Na realidade, fizeram reviver o mundo do governo romano imperial. Além disso, os papiros nos deram os mais primitivos manuscritos conhecidos de muitos autores gregos clássicos – dentre eles, Platão, Aristóteles, Homero, Píndaro e Menandro. Os mais importantes de todos os papiros foram alguns dos mais antigos fragmentos do Novo Testamento. Assim, dos montes de ruínas do Egito vieram alguns dos melhores registros da vida cotidiana do mundo antigo.
D – As Cavernas de Qumran – Em 1947 um pastor descobriu enormes potes de barro nas cavernas de Qumran, na praia noroeste do mar Morto. Dentro dos potes encontrou pergaminhos com escritura hebraica muito antiga. Conforme se revelou, foram escritos entre os anos 100 a.C. e 100 d.C. Esses rolos foram alguns dos mais importantes materiais já encontrados na Palestina. Mesmo depois de 2000 anos, eles ainda estavam em bom estado de conservação. Continham o texto de muitos livros do Antigo Testamento, e assim confirmaram que os exemplares posteriores da Bíblia que os tradutores vinham usando eram exatos. Esta foi uma prova de grande peso a favor do ponto de vista conservador das Escrituras, o qual afirma que a Palavra de Deus tem passado de geração a geração com fidelidade. Nem todos os textos de Qumran foram publicados, e muitas das controvérsias a respeito deles ainda não foram solucionadas.
Os arqueólogos têm pesquisado de ponta a ponta a margem ocidental do rio Jordão e os altos penhascos ao longo do mar Morto, mas têm realizado pouco trabalho ao longo da margem oriental, a qual era tão povoada nos tempos antigos quanto a ocidental. É de esperar também que a praia norte do mar Morto produza mais surpresas para o estudo bíblico à medida que a pesquisa continua. Já os achados de Qumran têm-nos ajudado a entender os tempos do Novo Testamento e o controle romano da Palestina.
E – Pompéia e Herculano – Uma violenta erupção do vulcão Vesúvio destruiu duas pequenas cidades romanas ao longo da baía de Nápoles em agosto do ano 79 da era cristã. Os caçadores de tesouros e os cientistas têm escavado as ruínas dessas cidades – Pompéia e Herculano – por mais de 200 anos. Se o leitor visitá-las hoje, verá muitos alqueires exatamente como o eram há 1900 anos.
Eram cidades típicas, e gente rica e gente pobre vivia lado a lado. Os arqueólogos encontraram uma coleção deslumbrante de arte e escultura em ambas as cidades. Também desenterraram algumas obras hidráulicas de grande escala, edifícios bem planejados, e engenhosas ferramentas domésticas. Infelizmente, apenas uns poucos fragmentos de papiros chamuscados sobreviveram à erupção, e esses são cópias de ensaios filosóficos gregos. Desça, porém, as ruas de uma dessas ruínas escavadas sobre a bela baía de Nápoles, e você verá o tipo de mundo que Pedro e Paulo conheceram quando levavam a mensagem de Jesus por todo o Império Romano.
F – Ebla – Esta é uma cidade do Norte da Síria que os arqueólogos começaram a explora em 1964. Aqui uma equipe italiana desenterrou milhares de tábulas de argila escritas durante o tempo dos estados religiosos primitivos, cerca de 1850 a.C. Até aqui, os italianos têm publicado apenas uns poucos detalhes extraídos desses textos. Todavia, mesmo essa informação incompleta mostra que o povo de Ebla tinha um estilo de vida muito sofisticado. Conheciam as culturas e línguas sumerianas e acadianos, e comerciavam com outras cidades-estados abastadas por todo o Oriente Próximo.
Durante muitos anos, os eruditos têm-se perguntado como a literatura da Mesopotâmia chegou aos semitas ocidentais da Síria-Palestina. Agora parece que reinos como Ebla levaram as culturas orientais semitas e sumerianas ao restante do Oriente Próximo.
As tábulas de Ebla mencionam nomes e localidades que já conhecermos por via da história dos patriarcas e do Antigo Testamento, mas os arqueólogos estarão decifrando, traduzindo e publicando essas tábulas por muitos anos, Quando todo o material estiver disponível, ajudar-nos-á a entender o mundo antigo descrito nos primeiros capítulos do Gênesis.
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