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Sábado, Julho 29, 2006

A Inerrância e a Infalibilidade da Bíblia

BÍBLIA – ORIGENS, INSPIRAÇÃO E CANONICIDADE


A Inerrância e a Infalibilidade da Bíblia

Inerrância” e “infalibilidade” são termos teológicos usados por muitos cristãos para definir a singularidade da Bíblia. Os cristãos acreditam que Deus comunicou as Boas Novas de salvação não só “em pessoa”, através de Jesus Cristo, mas também “por escrito”, através da Bíblia. Por conseguinte, os cristãos sempre consideram a Bíblia uma obra incomparável e qualitativamente diferente em relação aos outros livros.


Pano de Fundo Histórico

O povo de Deus sempre teve um relacionamento intenso com as Escrituras: os judeus como Antigo Testamento, a Igreja cristã com o Antigo e o Novo Testamento. Tantos cristãos quanto os judeus têm-se caracterizado como “o povo da Bíblia”. Desde o início da Igreja, os cristãos reconheceram as Escrituras (primeiro o Antigo Testamento, depois o Novo) como inspiradas por Deus. A palavra grega para “inspirado” significa literalmente “respirado por Deus para fora” (2 Tm 3.16). Os conceitos de inerrância e infalibilidade surgiram em discussões teológicas concernentes à inspiração das Escrituras. Os teólogos se perguntavam de que maneira exatamente um livro que foi “respirado por Deus” poderia diferir de outros livros.

Em data remota, compreendeu-se que a inspiração de Deus estendia-se não apenas aos escritores das Escrituras ou aos conceitos nela expressos, mas também às próprias palavras nelas registradas. Esse entendimento, conhecido como a doutrina “verbal” ou “plenária” (completa) da inspiração, foi exposto por Irineu (século II), bispo de Lion, na Gália (moderna França), em sua obra Contra Todas as Heresias. Agostinho (do século IV), bispo de Hipona, África do Norte, manifestou a mesma crença – a saber, que inspiração significava ditado pelo Espírito Santo. Para Irineu e Agostinho, inspiração não era uma posse do Espírito Santo feita em transe irresistível da consciência humana do escritor, mas antes um alto grau de iluminação e uma tranqüila percepção da revelação de Deus. Clemente de Alexandria, Orígenes, seu discípulo, e Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim, falaram sobre a inspiração como sendo extensiva a cada palavra das Escrituras. Os primeiros eruditos cristãos, confiando em Deus como o Deus da verdade e considerando-o como incapaz de engano ou confusão, reputavam sua Escritura verbalmente inspirada como sendo igualmente digna de confiança.


Significado dos Termos

“Infalibilidade” pode ser chamada de conseqüência subjetiva da inspiração divina, isto é, define a Escritura como confiável e fidedigna para aquele que se voltam para ela em busca da verdade de Deus. Como fonte da verdade, a Bíblia é “indefectível” (ou seja, não pode falhar ou insurgir-se contra o padrão da verdade). Conseqüentemente, nunca falhará ou decepcionará qualquer um que confie nela.

“Inerrância” trata-se de um conceito estreitamente relacionado, mas é um termo mais recente e menos largamente aceito. Traz a conotação de que a Bíblia não contém nenhum erro de ação (erros materiais), nem contradições internas (erros formais). O conceito de infalibilidade volta-se ao conhecimento pessoal que alguém tenha de Deus e à segurança de salvação. A inerrância ocupa-se mais especificamente com a transmissão precisa dos detalhes da revelação.

Embora em muitas composições teológicas os dois termos sejam usados intercambiavelmente, infalibilidade é o termo mais abrangente. Quem crê numa Bíblia inerrante também crê numa Bíblia infalível. O inverso não é necessariamente verdadeiro. Ainda que muito se dependa de qual seja a definição de “erro”, alguns eruditos argumentam que a Bíblia pode ser infalível (no cumprimento do propósito de Deus) sem ter de ser livre de erros. Eles propõem uma doutrina mais “dinâmica” da infalibilidade, que continuaria a agir mesmo que fossem descobertos erros bíblicos.

Vários escritores evangélicos contemporâneos, como o falecido Francis A Schaeffer e John D. Woodbridge, têm levantado objeções a qualquer doutrina da “infalibilidade dinâmica”, classificando-a como não-bíblica, dualista ou mesmo absurda. Não obstante, muitos respeitados evangélicos acreditam que podemos considerar a Bíblia como “a única regra perfeita de fé e conduta”, sem exigir ou implicar em inerrância estrita.

Os evangélicos reconhecem que a Bíblia é humana tanto quanto é divina. O erudito neo-ortodoxo, Karl Barth (1886-1968), foi mais longe, afirmando que, visto que “errar é humano”, um livro humano (ainda que também seja divino) deve conter erros. Barth foi cauteloso em atribuir quaisquer erros específicos à Bíblia, ainda que em princípio tenha argumentado que a existência de erros não possa ser desconsiderada. A maioria dos eruditos não-evangélicos rejeita tanto a infalibilidade quanto a inerrância, e não vêem valor algum na tentativa de tratá-las separadamente.


Controvérsia Recente

O autor acusou diversos líderes evangélicos proeminentes, inclusive alguns de seus antigos colegas, de terem começado a se afastar de uma visão ortodoxa da Bíblia. Muitos que compartilham da preocupação de Lindsell lamentam qualquer tipo de divisão ente os evangélicos, mas consideram a inerrância um tema importante. Outros lastimam a atenção que a inerrância tem recebido e preocupam-se com a inerrância mais como uma ameaça à unidade evangélica do que como um significativo tema teológico.

Um grupo, representado pelo Congresso Internacional sobre Inerrância Bíblica (fundado em 1977), considera a doutrina da inerrância um tema que divide a ortodoxia cristã. Um segundo grupo parece reivindicar que, embora a inerrância seja verdadeira, não deveria ser um tipo de “teste de lealdade”. Um terceiro grupo, representado por Jack Rogers, do Fuller Theologiacal Seminary, Estados Unidos, ainda que não negue explicitamente que a inerrância seja verdadeira, afirma que é uma formulação tardia e historicamente condicionada da posição cristã.

A posição de Rogers surgiu em sua contribuição a um livro que editou, Biblical Authority (1977). Rogers encarava a doutrina da inerrância como proveniente de origens aristotélicas e tomísticas. Seu argumento era que a inerrância entrava em conflito com uma posição mais normativa, baseada em Platão e Agostinho e sustentada por Lutero e Calvino. Rogers demonstrou que a doutrina da inerrância não recebeu formulação explícita até o século XVII.

De acordo com seus críticos, Rogers tentou sem sucesso comprovar que Lutero e Calvino, visto que falaram do elemento humano das Escrituras, também aceitaram a existência de erros humanos nelas. Para tais críticos, uma perspectiva mais plausível é que Lutero e Calvino nem assumiram nem admitiram haver erros nas Escrituras, ou seja, não chegaram a considerar o tema da inerrância. Além disso, não fizeram da inerrância uma norma da ortodoxia, porque a questão ainda não havia sido formulada nesses termos.

Aqueles que asseveram a infalibilidade ou inerrância, encaram sua posição como uma conclusão teológica das doutrinas bíblicas de Deus e da inspiração. Os que contestam essa perspectiva, como Karl Barth, quase sempre concluem que, visto ser a Bíblia um livro humano, deve necessariamente conter erros Em outras palavras, o assunto não é primariamente uma questão de interpretação bíblica, mas de teologia e epistemologia (ramo da filosofia que trata da teoria da ciência). É claro que tentativas para provar que a Bíblia está totalmente isenta de erros materiais ou contradições internas requerem interpretação bíblica.


Muitas declarações bíblicas dizem respeito a assuntos que não podem ser nem provados nem refutados. Por outro lado, muitas alegadas contradições forma resolvidas ou consideravelmente diminuídas por uma exegese competente. Isso se aplicaria, por exemplo, a aparentes discrepâncias nas genealogias de Jesus (Mt 1; Lc 3), às diversas narrativas da conversão do apóstolo Paulo (At 9, 22; 26) e a supostos erros de fatos – como a referência ao coelho como um animal ruminante (Lv 11.6) e ao Sol ter parado sobre a cidade de Gideão (Js 10.12-14). Embora ainda haja dificuldades lógicas e científicas, é impossível dizer se tais dificuldades são, estritamente falando, erros ou apenas contradições aparentes, falhas do copista ou tradutor, ou um problema de intervalo cultura, histórico e retórico entre o escritor e o leitor.


A Inerrância e os Autógrafos

Para ser exato, a inerrância é atribuída somente aos escritos originais ou “autógrafos” das Escrituras, os quais não mais existem. Em geral, os estudiosos da Palavra concordam que os subsistentes manuscritos da Bíblia contêm alguns erros de copistas, usualmente detectáveis ao se comparar manuscritos mais recentes com os mais antigos e ao se aplicar a crítica textual. Os críticos da inerrância e infalibilidade às vezes argumentam que, visto que a doutrina diz respeito somente aos autógrafos, é essencialmente irrelevante para a atualidade.

De um ponto de vista negativo, se os manuscritos originais continham erros, então naturalmente as cópias e traduções disponíveis hoje em dia também os contêm. De um ponto de vista positivo, os defensores da inerrância, como Francis Pieper, que no início deste século era presidente do Concórdia Theological Seminary (em St. Louis, Estados Unidos), fizeram uma inferência importante do status infalível e inerrante dos autógrafos. Insistem que, para todos os propósitos práticos (isto é, para as questões de fé e vida), os atuais textos e as boas traduções também podem ser considerados inerrantes. Os defensores da inerrância sustentam que a confiança dos crentes nas traduções modernas da Bíblia apóia-se firmemente na crença da infalibilidade dos escritos originais.

Se os erros de alguns copistas foram detectados nos manuscritos bíblicos existentes, outros mais difíceis de detectar também podem existir. Aqueles que afirmam a inerrância dos autógrafos devem compartilhar da preocupação de outros eruditos bíblicos, a fim de reconheceram e lidarem com os problemas textuais nas cópias subsistentes.


Inspiração e Inerrância Verbais

Jesus, como os judeus da época do Antigo Testamento, criam que a fidedignidade das Escrituras não abrangia apenas os seus ensinamentos mais importantes, mas também detalhes mais insignificantes: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido” (Mt 5.18). Essa perspectiva foi reiterada pelo apóstolo Paulo (At 24.14; 2 Tm 3.16). Desse modo, a autoridade de Jesus e de Paulo apóiam a crença em tudo o que a Escritura assevera. Espera-se daqueles que chamam Jesus de Senhor e aceitam seus ensinamentos, que tenham as Escrituras em alta conta, como Jesus as tinha.

Os conceitos de inspiração e infalibilidade verbais podem ser delimitados à época dos pais da Igreja Primitiva. Não são idéias novas. A inspiração verbal parece implicar em inerrância, visto que, caso contrário, o Espírito Santo seria o autor do erro. A Igreja medieval, embora outorgasse autoridade de tradição ao lado da Palavra, continuava a afirmar a inspiração e infalibilidade verbais, e até mesmo (em princípio) a suficiência das Escrituras.

Martinho Lutero e outros reformadores protestantes não tinham necessidade de exaltar a autoridade e infalibilidade das Escrituras, porque a Igreja Católica Romana também as aceitava. Antes, tentaram combater a elevação católica da tradição a um status igual ou até mesmo superior às Escrituras. Por isso, a Reforma não faz declarações explícitas retificando a inerrância ou infalibilidade das Escrituras. Entretanto, os sucessores de Martinho Lutero e João Calvino realmente fizeram tais declarações explícitas.

Depois da Reforma, surgiu o racionalismo. No século XVIII, o racionalismo foi caracterizado por uma confiança otimista na razão crítica humana e por um desdém pela influência sobrenatural nos assuntos humanos. Os racionalistas fizeram as primeiras reivindicações sérias de que a Bíblia era como qualquer outro livro humano e por isso falível. Essa pressuposição levou a repetidos mal-entendidos (e, às vezes, a falsificações) sobre a natureza e conteúdo das Escrituras.

Dúvidas contemporâneas acerca da inerrância ou da infalibilidade das Escrituras levantadas por eruditos evangélicos, originam-se muitas vezes de um desejo de reconhecer ou chegar a algum tipo de acomodação ao método histórico e crítico de estudar a Bíblia. Contudo, muitos pensam que o método começa com a suposição de que a Bíblia não pode ser o que afirma ser. Entre as principais denominações americanas, a Lutheran Church Missouri Synod, presidida por Jacob A. O. Preus, tomou uma posição definida sobre a inerrância bíblica. Essa posição identifica e repudia todo método histórico e crítico, com suas suposições, como a origem de onde surgiram as controvérsias contemporâneas acerca da inerrância. Esses luteranos argumentam que a rejeição ao método não implicava em rejeição à pesquisa dos eruditos. O que rejeitam é qualquer “pesquisa” na qual as pressuposições impeçam que se aceite a Bíblia como algo mais que um livro humano. Os partidários da inerrância freqüentemente afirmam que os argumentos contra ela advêm de um preconceito anti-sobrenatural, o qual, em princípio, não apenas repudiará a inerrância, mas qualquer superintendência ou inspiração divina.

Dois teólogos evangélicos ortodoxos, Benjamim B. Warfield e Clark Pinnock, ao argumentarem em favor da inerrância, usam a mesma expressão gráfica acerca da inspiração, a saber, que uma “avalanche de textos” das Escrituras a apóiam. Entretanto, ao examinarmos essa “avalanche”, verificamos que parece consistir principalmente em alguns poucos seixos grandes (Mt 5.18; Jo 10.35; 2 Tm 3.16; 2 Pe 1.21). A Escritura pressupõe sua própria inerrância sem explicitamente declará-la. Para muitos cristãos, um argumento insuperável em favor da inerrância jaz na simples ordem de Jesus de aprendermos dEle (Mt 11.29; cf. Jo 13.13), combinado com o fato de que Jesus aceitava as Escrituras do Antigo Testamento como completamente fidedigna, até mesmo em seus mínimos detalhes (Mt 5.18; Jo 10.35).


Posições Confessionais

Muitas das principais confissões de fé afirmam a essência da inerrância. Essa foi a posição oficial da Igreja Católica Romana até que, sob influência de protestantes liberais, tal posição afrouxou-se um pouco no Concílio Vaticano II (1962-1965). Entre as declarações reformistas, a Confissão Belga (1561) e a Confissão de Westminster asseveram a perfeição das Escrituras. Afirmações similares são encontradas na Confissão de Augsburg (1530) do luteranismo e nos Trinta e Nove Artigos, da Igreja da Inglaterra (1563). Confissões mais recentes, como a Confissão Batista de New Hampshire, de 1832, aludem à Bíblia como contendo “a verdade sem qualquer mistura de erro em seus assuntos”.


Problemas ou Erros?

Qualquer leitor atento das Escrituras se conscientizará dos problemas no texto, embora muitas das evidentes discrepâncias ou possíveis erros desapareçam sob um escrutínio imparcial. Entretanto, mesmo após cuidadoso estudo, alguns problemas permanecem. O debate sobre a inerrância freqüentemente se resume na escolha entre tolerar tias problemas como “questões sem resposta” ou transferi-las à categoria dos “erros comprovados”. Freqüentemente, essa decisão reflete a atitude inicial que se toma em relação às Escrituras e aos métodos críticos. Se a Escritura é aceita como a Palavra inspirada de Deus, como “o padrão que estabelece o padrão”, ter-se-á relutância em acusá-la de erros – visto que para se fazer isso, deve-se ter alguma outra norma, talvez superior, pela qual se avalie a Escritura. Historicamente, dúvidas acerca da inerrância são acompanhadas – em vez de produzidas – pela convicção de que a Bíblia é meramente um livro humano falível. Por isso, dever-se-ia considerar a possibilidade de que o reconhecimento de um erro nas Escrituras é a conseqüência lógica de uma decisão anterior de julgar a Bíblia, ao invés de aceitá-la como norma para todos os julgamentos.

Alguns sustentam que as variações na ordem cronológica constituem erros – por exemplo, a seqüência das tentações de Jesus (cf. Mt 4.1-11 e Lc 4.1-13). Mas, já no século II, um escritor cristão chamado Papias explicou que os escritores dos evangelhos não pretendiam registrar em ordem os eventos da vida de Jesus, o que implica que seus contemporâneos não acharam em nada estranha ou imprecisa a utilização dessa prática.

Os números nas Escrituras, os quais propõem freqüentes problemas, são às vezes explicáveis como base no hábito tradicional de dar valores aproximados ou arredondados. Por exemplo, o valor da constante trigonométrica P calculado pela descrição do mar de fundição feito pelo rei Salomão (1 Rs 7.23) é exato, mas, como diria um matemático, apenas para “um algarismo significativo”. Foi predito que a duração do cativeiro de Israel no Egito seria de aproximadamente quatrocentos anos (Gn 15.13) e relatado com mais precisão como sendo de 430 (Êx 12.40,41). Os supostos erros científicos provêm muitas vezes de uma compreensão inadequada do verdadeiro significado dos enigmáticos textos hebraicos e gregos. Certas dificuldades permanecem, contudo algumas que pareciam descomunais há cinqüenta anos, ou até mesmo vinte anos atrás, foram devidamente resolvidas quando novos dados arqueológicos, textuais ou científicos vieram à tona. Nenhuma teoria, seja da teologia seja da ciência, é sempre inteiramente destituída de dificuldades. J. C. Ryle, bispo evangélico de Liverpool (Inglaterra), disse: “As dificuldades que cercam quaisquer outras teorias da inspiração são dez vezes maiores que qualquer dificuldade que cerque a nossa”.


POSIÇÕES EVANGÉLICAS DIVERGENTES

Entre os evangélicos, é grande o número dos que demonstram pouco interesse na doutrina da inerrância, e alguns, na verdade, chegam a rejeitá-la. Muitos evangélicos, britânicos e alemães, por exemplo, mantém de maneira uniforme um alto pondo de vista sobre a fidedignidade das Escrituras sem adotar a terminologia da inerrância. Preferem termos como “infalibilidade” ou “fidedignidade absoluta”, e assim por diante. Alguns evangélicos europeus reconhecem a presença de pequenos erros na Bíblia; outros, que não fariam tal concessão, ainda não desejam advogar a inerrância.

Nos Estados Unidos, a publicação do livro de Lindsell levou a questão da inerrância ao centro das atenções do público evangélico. Muitos teólogos evangélicos, que prefeririam dedicar suas energias a outro tema, sentem-se obrigados a tomar posição em relação à inerrância. Às vezes, líderes evangélicos “separatistas” expressam suspeitas de que outros evangélicos (como o teólogo canadense Clark S. Pinnock) tomaram uma posição “conciliatória” sobre a inerrância, a fim de ganhar ou manter aceitação nos círculos liberais teológicos. Para muito cristãos de crenças liberais, como também para os não-cristãos em geral, uma desavença sobre a inerrância parece ser um sofisma entre as duas perspectivas da Escritura igualmente inaceitáveis. O conceito de um livro que traz em si a autoridade sobrenatural é alienígena ao espírito secular de nossos dias. Mesmo Karl Barth, talvez a mente teológica mais impressionante do século XX, teve dificuldades em ganhar receptividade à sua perspectiva basicamente conservadora (mas não “inerrantista”) das Escrituras. Os evangélicos que propõem uma perspectiva “dinâmica” da autoridade bíblica, estão provavelmente mais próximos da “neo-ortodoxia” de Barth que da “ortodoxia de Princeton”, de B. B. Warfield. Como Barth, pode ser que se sintam tolhidos em evitar que seus discípulos e sucessores mudem para uma perspectiva mais relativista e transigente das Escrituras.


Conclusão

Não pode haver dúvidas de que, ao longo de sua história, a Igreja do Senhor Jesus Cristo foi comissionada a manter um ponto de vista sobre a inspiração que, para a maioria dos cristãos, implicava em inerrância, mesmo quando o termo não era usado. Recentes debates sobre a doutrina da inerrância concentram-se não só no problema dos detalhes, mas também na questão fundamental da fonte suprema da autoridade cristã. Os cristãos afirmam que Jesus Cristo – e não a doutrina das Escrituras ou da infalibilidade bíblica – é a realidade central da fé cristã.

Embora a inerrância, formulada para explicar a doutrina da inspiração, tenha sido descrita como uma “doutrina tardia e derivada”, muitos cristãos evangélicos a aceitam com base no testemunho que a Bíblia dá de si mesma. Outros cristãos que também se consideram evangélicos não aceitam a doutrina da inerrância. Uma advertência contra a transigência da infalibilidade e da inerrância escriturística ecoou no século XIX pela instrumentalidade do bispo Pole: “Uma vez que permitamos que o verme corroa a raiz, não devemos ficar surpresos se os galhos, as folhas e os frutos, pouco a pouco, apodrecerem”.

O próximo artigo desta série é O CÂNON DA BÍBLIA

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