VOCÊ NÃO ESTÁ NA PÁGINA PRINCIPAL. CLIQUE AQUI PARA RETORNAR



Sábado, Julho 29, 2006

A Inspiração da Bíblia

BÍBLIA – ORIGENS, INSPIRAÇÃO E CANONICIDADE


A Inspiração da Bíblia

A palavra “inspiração” vem do latim e é a tradução do termo grego theópneustos de 2 Timóteo 3.16, que na ARC (Almeida Revista e Corrigida), temos assim traduzido: “Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”. “Inspirado por Deus”, conforme consta na ARA (Almeida Revista e Atualizada), não é um texto melhorado em relação a ARC, pois theópneustos significa respirado por Deus para fora em vez de para dentro – divinamente ex-pirado, em vez de ins-pirado. No século passado, Ewald e Cremer argumentaram que o adjetivo traz consigo um sentido ativo, “inspirando o Espírito”, e Barth parece concordar. Sua explicação é que significa não apenas “dado, enchido e guiado pelo Espírito de Deus”, mas também “manifestando, alastrando-se para fora e revelando ativamente o Espírito de Deus” (Church Dogmatics, 1.2). Mas, em 1900, B. B. Warfield provou decisivamente que o sentido da palavra somente pode ser usado no passivo. A idéia não é Deus respirando Deus para fora, mas Deus tendo respirado a Escritura para fora. As palavras de Paulo significam, não que a Escritura seja inspiradora (embora isto seja verdade), mas que a Escritura é um produto divino, devendo ser encarada e avaliada com tal.

A “respiração” ou “espírito” de Deus no Antigo Testamento denota a saída ativa do poder de Deus, seja na criação (Sl 33.6; Jó 33.4; cf. Gn 1.2; 2.7), na preservação da vida (Jó 34.14), na revelação aos profetas e por meio deles (Is 48.16; 61.1; Mq 3.8; Jl 2.28, 29), na regeneração (Ez 36.27) ou no julgamento (Is 30.28, 33). O Novo Testamento revela esta “respiração” divina (grego pneuma) como sendo uma Pessoa da Divindade. A “respiração” de Deus (o Espírito Santo) produziu a Escritura, como um meio de transporte ao entendimento espiritual. Quer traduzamos a expressão grega pasa graphe como “toda Escritura” ou “cada texto”, quer sigamos outra versão na construção da sentença, a intenção de Paulo é evidente, indo além de qualquer dúvida. O apóstolo está afirmando que tudo o que entra na categoria da Escritura, tudo o que tem um lugar entre as “sagradas letras” (hiera grammata, 2 Tm 3.15), só porque é inspirado por Deus, é proveitosos como norma de fé e vida.

Baseando-se nesse texto paulino, a teologia usa regularmente a palavra “inspiração” para expressar a idéia da origem e qualidade divina das Sagradas Escrituras. De modo ativo, o substantivo indica a operação da respiração de Deus para fora, a qual produziu a Escritura; de modo passivo, a inspiração das Escrituras foi assim produzida. A palavra também é usada em termos mais genéricos em relação à influência divina, a qual habilitou os instrumentos humanos da revelação – profetas, salmistas, sábios e apóstolos – a falar, bem como a escrever, as palavras de Deus.


A Idéia da Inspiração Bíblica

De acordo com 2 Timóteo 3.16, são precisamente os escritos bíblicos o material inspirado. A inspiração é um trabalho de Deus concluído não nos homens que tinham de escrever a Escritura (como se, havendo-lhes dado uma idéia do que dizer, Deus os deixou entregues a si mesmos para encontrarem uma maneira de dizê-lo), mas no próprio produto escrito. É a Escritura – graphé, o texto escrito – que é inspirado por Deus. A idéia essencial aqui é que a Escritura inteira tem as mesmas características que tinham os sermões dos profetas, não só quando pregavam, mas também quando escreviam (cf. 2 Pe 1.19-21, sobre a origem divina de toda “profecia da Escritura”). Isso significa que a Escritura não é apenas a palavra do homem – fruto de seu pensamento, premeditação e habilidade, mas também e de igual forma é a Palavra de Deus, falada através da boca do homem ou escrita com o instrumento de registro do homem. Em outras palavras, a Escritura tem uma autoria dupla, sendo que o homem é apenas o autor secundário; o autor primário, através de cuja iniciativa, presteza e esclarecimento, e sob cuja superintendência cada escritor humano fez seu trabalho, é o Deus Espírito Santo.

A revelação aos profetas era essencialmente verbal. Na maioria das vezes, havia um aspecto visionário, mas até mesmo a “revelação em visões é também revelação verbal” (L. Koehler, Old Testament Theology, E. T., 1957). Brunner observa que nas “palavras de Deus, as quais os profetas proclamam como havendo-as recebido diretamente de Deus e tendo sido comissionados a repeti-las, quando as receberam... talvez encontremos a analogia mais próxima do significado da teoria da inspiração verbal” (Revelation and Reason). E, de fato, encontramos. Entretanto, não encontramos meramente uma analogia, mas o paradigma; sendo que aqui “teoria” é uma palavra inadequada, pois estamos tratando da própria doutrina bíblica em si. A inspiração bíblica deveria ser definida nos mesmo termos teológicos que definem a inspiração profética: a saber, como o processo inteiro (multiforme, não há dúvida, em sua forma psicológica, como o foi a inspiração profética), por meio do qual Deus moveu os homens que havia escolhido e preparado (cf. Jr 1.5, Gl 1.1.15) para escrever exatamente o que Ele queria que fosse escrito, a fim de comunicar a instrução de salvação ao seu povo e, através dele, ao mundo. Assim, a inspiração bíblica é verbal por sua própria natureza, pois a Escritura respirada por Deus é constituída pelas palavras dadas por Ele.

Desse modo, a Escritura inspirada é a revelação escrita, assim como os sermões dos profetas eram revelação falada. O registro bíblico da auto-revelação de Deus na história da redenção não é meramente testemunho humano à revelação, mas a própria revelação. A inspiração das Escrituras era uma parte integral no processo de revelação, pois nelas Deus deu à Igreja sua obra de salvação na História e sua interpretação autoritária do lugar da Igreja no plano eterno. “Assim diz o Senhor” poderia ser o prefixo de cada livro das Escrituras com não menos propriedade do que aparece (359 vezes, de acordo com Koehler) nas declarações proféticas individuais contidas na Palavra. Portanto, a inspiração garante a verdade de tudo o que a Bíblia afirma, assim como a inspiração dos profetas garantiu a verdade da apresentação que faziam da mente de Deus. (“Verdade” aqui denota correspondência entre as palavras do homem e os pensamentos de Deus, seja no campo dos fatos, seja no campo do significado). Como verdade proveniente de Deus, Criador dos homens e legítimo Rei, as instruções bíblicas, assim como as palavras proféticas, trazem em si a autoridade divina.


Apresentação Bíblica

A idéia da Escritura canônica (isto é, de um documento ou corpus de documentos contendo um registro permanente e autoritário da revelação divina) remonta aos escritos de Moisés sobre a lei de Deus no deserto (Êx 34.27, 28; Dt 31.9,10, 24,25). A verdade de todas as declarações – histórias ou teológicas – que as Escrituras fazem e sua autoridade como palavras de Deus são aceitas sem questionamento ou discussões em ambos os Testamentos. O cânon aumentou, mas ao conceito de inspiração, o qual pressupõe a idéia de canonicidade, foi plenamente desenvolvido desde o início e é imutável ao longo das Sagradas Escrituras. Como apresentado na Bíblia, compreende duas convicções.

1 – As palavras da Escritura são as próprias palavras de Deus – Passagens do Antigo Testamento identificam a lei mosaica e as palavras dos profetas, tanto faladas quanto escritas, com o discurso do próprio Deus (cf. 1 Rs 22.8-16; Ne 8; Sl 119; Jr 25.1-13; 36 etc.).

Os escritores do Novo Testamento viam todo o Antigo Testamento como “os oráculos de Deus” (Rm 3.2, ARA), como profético em essência (Rm 16.26; cf. Rm 1.2; 3.21), como havendo sido escrito por homens que foram movidos e ensinados pelo Espírito Santo (2 Pe 1.20; cf. 1 Pe 1.10-12). Jesus e seus apóstolos citam textos do Antigo Testamento não meramente como aquilo que homens como Moisés, Davi ou Isaías disseram (vide Mc 7.6, 10; 12.36; Rm 10.5,20; 11.9), mas também como o que Deus disse através desses homens (vide At 4.25; 28.25) ou, às vezes, simplesmente como o que “Ele” (Deus) diz (1 Co 6.16; Hb 8.5,8), ou o que o Espírito Santo diz (Hb 3.7; 10.15). Além disso, as declarações do Antigo Testamento que em seus contextos não foram feitas por Deus são citadas como expressões vocais divinas (Mt. 19.4,5; Hb 3.7; At. 13.34, citando Gn 2.24, Sl 95.7; Is 55.2, respectivamente). Paulo também identifica a promessa de Deus a Abraão e sua ameaça a Faraó, ambas faladas muito tempo antes que fosse feito o registro bíblico desses fatos, com as palavras que a Escritura falou a esses dois homens (Gl 3.8; Rm 9.17), o que mostra o quão completamente se igualaram às declarações das Escrituras com a expressão vocal de Deus.


2 – A parte dos homens na produção das Escrituras foi meramente transmitir o que haviam recebido. Psicologicamente, do ponto de vista da forma, é evidente que os escritores humanos contribuíram em muito para o feitio das Escrituras – pesquisa histórica, meditação teológica, estilo lingüístico etc.

Cada livro bíblico é, em certo sentido, a criação literária de seu autor. Mas, teologicamente falando, do pondo de vista do conteúdo, a Bíblia considera que os escritores humanos não contribuíram em nada para sua composição e que a Escritura é de inteira criação de Deus. Essa convicção está enraizada na autoconsciência dos fundadores da religião bíblica, os quais todos reivindicaram proferir – e, no caso dos profetas e apóstolos, escrever – o que, no sentido mais literal, eram as palavras de outra pessoa: o próprio Deus. Os profetas (entre os quais Moisés deve ser incluído: Dt 18.15; 34.10) professaram que falaram as palavras do Senhor, colocando diante de Israel o que o Senhor lhes havia mostrado (Jr 1.7; Ez 2.7; Am 3.7). Jesus de Nazaré declarou ter falado as palavras que lhe foram dadas pelo Pai (Jo 7.16; 12.49). Os apóstolos ensinaram e deram ordens em nome de Jesus (2 Ts 3.6), reivindicando assim sua autoridade e sanção (q Co 14.37), e afirmaram que não só o assunto, mas também as palavras que diziam haver sido ensinadas pelo Espírito de Deus (1 Co 2.9-13; cf. as promessas de Jesus em Jo 14.26; 15.26, 27; 16.13, 14). Essas são reivindicações em favor da inspiração. À luz dessas reivindicações, a avaliação dos escritos proféticos e apostólicos como a completa Palavra de Deus, exatamente da mesma maneira em que as duas tábuas da Lei, “escritas pelo dedo de Deus” (Êx 31.18; cf. Êx 24.12; 32.16), eram a completa palavra de Deus, naturalmente tornou-se parte da fé bíblica.

Jesus e os apóstolos dão grande destaque ao fato da inspiração ao se valerem da autoridade do Antigo Testamento. Na verdade, consideram as Escrituras judaicas como a Bíblia cristã: um conjunto de escritos literários dando testemunho profético de Cristo (Lc 24.25,44; Jo 5.39; 2 Co 3.14,15) e designado por Deus para a instrução dos crentes (Rm 15.4; 1 Co 10.11; 2 Tm 3.14, 15; cf. a explicação dos Sl 95.7-11 em Hb 3-4, e, de fato, a totalidade do livro de Hebreus, no qual cada ponto importante é feito pela recorrência a textos do Antigo Testamento). Jesus insistiu que o que foi escrito no Antigo Testamento não pode ser anulado (Jo 10.35). Ele não veio, conforme disse aos judeus, para ab-rogar a Lei ou os Profetas (Mt 5.17). Se pensavam que Ele estava fazendo isso, enganavam-se. Jesus veio para fazer o oposto – prestar testemunho à autoridade divina da Lei e dos Profetas ao cumpri-los. A Lei permanece para sempre, porque é a palavra de Deus (Mt 5.18; Lc 16.17); as profecias, particularmente aquelas que dizem respeito a Ele, devem ser cumpridas pela mesma razão (Mt 26.54; Lc 22.37; cf. Mc 8.31; Lc 18.31). Para Jesus e seus apóstolos, a evocação das Escrituras era sempre decisiva (cf. Mt. 4.4,7, 10; Rm 12.19; 1 Pe 1.16).

A liberdade com a qual os escritores do Novo Testamento citam o Antigo Testamento (seguindo a Septuaginta, os targuns ou uma tradução livre do hebraico, como melhor lhes convinha) é considerada prova de que eles não acreditavam na inspiração das palavras originais. Mas seu interesse não estava nas palavras como tais, mas em seu significado. Além disso, estudos recentes têm comprovado que essas citações são interpretativas e explicativas – uma maneira de citação muito comum usada entre os judeus. Nesse método, os escritores procuram mostrar o verdadeiro significado e aplicação (isto é, o significado e aplicação cristãos) do texto pela forma como o citam. Na maioria das vezes, esse significado é alcançado de maneira óbvia pela aplicação estrita dos princípios teológicos bem definidos acerca da relação de Jesus e a Igreja com o Antigo Testamento.

Declaração Teológica

1 – A idéia não é a do ditado mecânico, ou escrita automática, ou qualquer outro processo que envolva a suspensão da ação da mente humana do escritor. Tais conceitos de inspiração são encontrados no Talmude, em Filo e nos pais da Igreja, mas não na Bíblia. A direção e controle divinos, sob os quais os autores bíblicos escreverem, não eram uma força física ou psicológica, e não diminuía – antes, pelo contrário, aumentava – a liberdade, a espontaneidade e a criatividade daquilo que escreviam.

2 – O fato de que, na inspiração, Deus não obliterou a personalidade, estilo, perspectiva e condicionamento cultural do escritor não significa que seu controle sobre eles fosse imperfeito ou que, no processo de registrar por escrito a verdade que tinham recebido para transmitir, inevitavelmente a distorcessem. B. B. Warfield faz uma suave troça da noção de que Deus, quando quis que as epístolas de Paulo fossem escritas, foi compelido à necessidade de descer à Terra e árdua e minuciosamente examinar as pessoas que ia encontrando, na procura ansiosa por alguém que, de modo geral, prometesse o melhor segundo seus propósitos. Então, depois de encontrar quem melhor o satisfizesse, forçou violentamente o material que desejava manifestar através dessa pessoa, indo contra sua tendência natural e com a menor perda possível de suas características obstinadas. É claro que nada desse tipo de coisas aconteceu. Se Deus quis dar ao seu povo um conjunto de epístolas como as de Paulo, Ele preparou um Paulo para escrevê-lo e o Paulo que Ele trouxe para fazer o serviço foi um Paulo que espontaneamente escreveria tal conjunto de epístolas (The Inspiration and Authority of the Bible).

3 – A inspiração não é uma qualidade ligada às alterações que foram se introduzindo à força no curso da transmissão do texto, mas está vinculada apenas ao texto como originalmente produzido pelos escritores inspirados. Desse modo, o reconhecimento da inspiração bíblica torna mais premente a tarefa da crítica meticulosa do texto, a fim de eliminar tais alterações e determinar o que nesse texto é original.

4 – A inspiração dos escritos bíblicos não deve ser igualada com a inspiração das grandes obras da literatura, nem mesmo (como freqüentemente é verdadeiro) quando o escrito bíblico for, de fato, uma obra de literatura. A idéia bíblica da inspiração não se relaciona com a qualidade literária do que é escrito, mas com sua característica de ser revelação divina escrita.

J. I. Packer

O próximo artigo desta série é A INERRÂNCIA E A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA

RETORNAR AO ÍNDICE DE - BÍBLIA – ORIGENS, INSPIRAÇÃO E CANONICIDADE

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home